Larry Page gasta US$ 173 milhões em Miami e lidera êxodo de bilionários da Califórnia
Duas mansões vizinhas à beira da Baía de Biscayne, em Miami, custaram US$ 173,4 milhões a Larry Page entre dezembro de 2025 e janeiro deste ano. As compras do cofundador do Google anteciparam um movimento que agora chega às urnas. Em 3 de novembro, os eleitores da Califórnia decidem se o estado vai cobrar dos bilionários um imposto único de 5% sobre o patrimônio.
Page não está sozinho. Ele, o também cofundador do Google Sergey Brin e o investidor Peter Thiel estão entre os bilionários que deixaram o estado. Juntos, levaram cerca de US$ 540 bilhões, ou 30% da riqueza bilionária californiana, segundo contas da Fortune.
A imprensa internacional descreve o movimento como uma fuga. A Fortune comparou a saída de Page à de Jeff Bezos, que trocou Seattle por Miami em 2023 e montou um complexo de imóveis na cidade em poucos meses.
Duas mansões em Coconut Grove
As compras foram reveladas pelo The Wall Street Journal. O primeiro imóvel, adquirido em dezembro por US$ 101,5 milhões, é um complexo de cerca de 18 mil metros quadrados em Coconut Grove, um dos bairros mais disputados de Miami.
A propriedade foi por anos a casa de Jonathan Lewis, morto recentemente, filho de Peter B. Lewis, ex-CEO da seguradora Progressive. Anunciada por US$ 135 milhões em 2024, ela tinha preço pedido de US$ 115 milhões na última oferta.
O terreno reúne duas residências principais. Uma foi projetada na década de 1920 para William Jennings Bryan, ex-secretário de Estado americano. A outra foi construída por Lewis para o pai por volta de 2002.
Em 5 de janeiro, Page comprou um segundo imóvel, a menos de dois quilômetros dali, por US$ 71,9 milhões. Os vendedores foram a herdeira Sloan Lindemann Barnett e o marido, Roger Barnett, CEO da fabricante de suplementos Shaklee, que pagaram US$ 45,9 milhões pela casa em 2021.
A casa não estava à venda quando o negócio foi fechado. Construída por volta de 2015, tem cerca de 1,6 mil metros quadrados e sete quartos, segundo o site de dados imobiliários PropertyShark.
Mais tarde, em janeiro, uma entidade ligada a Page comprou ainda uma casa vizinha por cerca de US$ 15 milhões, de acordo com a Bloomberg. Somando ao valor das duas mansões, o total investido por ele em Miami chegou a US$ 188 milhões.
Como funciona a Proposição 40
A Proposição 40 prevê uma cobrança única de até 5% sobre o patrimônio mundial de quem tem pelo menos US$ 1 bilhão. O que define quem paga é a residência na Califórnia em 1º de janeiro de 2026.
A regra é retroativa. Quem ainda morava no estado nessa data não escapa da conta mudando de endereço depois da votação. O patrimônio seria avaliado em 31 de dezembro de 2026, e o pagamento poderia ser dividido em cinco anos.
A proposta foi apresentada pelo sindicato de trabalhadores da saúde SEIU-UHW. Cerca de 90% da arrecadação iria para a saúde, para compensar cortes federais no Medicaid, o programa público de saúde para a população de baixa renda.
Os defensores estimam arrecadar cerca de US$ 100 bilhões. Críticos falam em algo perto de US$ 40 bilhões, já que parte dos contribuintes pode deixar o estado. O governador Gavin Newsom, democrata, se opõe à medida.
Para Page, a conta poderia chegar a US$ 13,4 bilhões caso ele ainda fosse considerado residente, segundo estimativa da Forbes. A fortuna dele era de cerca de US$ 270 bilhões à época das compras, de acordo com o índice de bilionários da Bloomberg.
O rastro da mudança
A troca de endereço veio acompanhada de uma reorganização dos negócios. Page transferiu para fora da Califórnia ou encerrou mais de 45 empresas de responsabilidade limitada no ano passado, segundo o The New York Times.
O family office do bilionário, a Koop, transferiu a sede para Delaware no fim de dezembro. Depois, alugou um escritório em Coconut Grove, a pouco mais de um quilômetro da nova casa, segundo a Bloomberg.
O movimento atrai outros compradores. "Praticamente dia sim, dia não estou mostrando imóveis a um cliente da Baía de São Francisco", disse Dina Goldentayer, corretora da Douglas Elliman, ao WSJ. Segundo ela, os compradores estão com pressa e disputam as mesmas casas.
Vários corretores disseram ao jornal que não podiam comentar os negócios. Eles assinaram acordos de confidencialidade que, se quebrados, poderiam encerrar suas carreiras.
A saída negociada de Zuckerberg
O caso de Mark Zuckerberg mostra outro lado do imposto. Documento enviado nesta semana pela Meta à Securities and Exchange Commission (SEC), a comissão de valores mobiliários americana, revela que o fundador estava prestes a deixar o estado.
Em 6 de setembro, Zuckerberg avisou ao comitê de conselheiros independentes que precisaria começar a se mudar até meados daquele mês para estabelecer residência fora da Califórnia em outubro.
O problema para ele era o controle da empresa. Zuckerberg tem cerca de 13% do valor econômico da Meta, mas cerca de 61% dos votos, graças às ações classe B, que valem dez votos cada. As ações comuns, classe A, dão direito a um voto cada.
Um imposto sobre patrimônio incide sobre a fatia econômica. Para pagá-lo, ele teria de vender ações, e cada ação classe B vendida vira automaticamente uma classe A. Ou seja, quitar a conta reduziria seu poder de voto.
A solução foi criar uma nova classe de ações, a classe C, sem direito a voto. Cada acionista recebe uma ação classe C para cada papel que já tem. Zuckerberg poderá vender de imediato 20% das novas ações, o equivalente a 10% de sua participação econômica, sem perder a maioria dos votos.
Em troca, ele se comprometeu a manter residência na Califórnia, ou onde a Meta tiver sede, por oito anos, salvo circunstâncias imprevistas relevantes. O comitê argumentou que a presença física do CEO perto da equipe de inteligência artificial era crucial.
A Meta afirma que a nova classe serve sobretudo para financiar os investimentos em inteligência artificial. Projeções da gestão citadas no documento indicam necessidade de levantar centenas de bilhões de dólares em vários anos.
Antes do acordo, Zuckerberg já tinha comprado em março uma mansão de US$ 170 milhões na ilha de Indian Creek, em Miami, onde Bezos também tem casas, segundo a Bloomberg.
Miami, a nova vitrine do ultraluxo
A chegada dos californianos reforça um mercado que já vinha aquecido. Em 2025, a Flórida registrou 19 vendas de imóveis acima de US$ 50 milhões, contra 12 em Nova York e dez na Califórnia, segundo a consultoria Miller Samuel.
Miami teve quatro negócios acima de US$ 100 milhões no ano passado. Coconut Grove já estava no radar dos super-ricos: em 2022, o gestor Ken Griffin, fundador da Citadel, pagou US$ 106,875 milhões por uma propriedade no bairro.
Além da oferta de mansões, a Flórida atrai por não cobrar imposto de renda estadual. A Califórnia tem a maior alíquota do país, de até 13,3%.
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