Como essa startup brasileira usa IA para navegar a burocracia das etiquetas de roupa
Uma etiqueta errada pode barrar um contêiner inteiro na alfândega. Basta um símbolo de lavagem fora do padrão, um idioma faltando ou uma informação obrigatória em posição incorreta — e a carga não entra no país.
É esse pedaço de tecido de poucos centímetros que a Etiqueta Certa transformou em negócio. A startup de fashion tech apresenta na Febratex 2026 a maior evolução de sua plataforma desde a fundação: uma solução global capaz de atender simultaneamente às legislações de mais de 30 países, agora com uma camada de inteligência artificial (IA) para orientar usuários em dúvidas regulatórias.
O evento, um dos maiores do setor têxtil das Américas, acontece entre 18 e 21 de agosto em Blumenau, em Santa Catarina.
Até agora, a plataforma cobria Brasil, Mercosul, Estados Unidos e França. Com o novo módulo internacional, o alcance mais que quintuplica.
"Cada país tem sua própria legislação de etiquetagem, isto é, símbolos de conservação, idiomas, informações obrigatórias e normas de segurança, e uma etiqueta fora de conformidade pode significar produto barrado na alfândega, multas ou recall", afirma Karine Liotino, sócia-fundadora e presidente-executiva da Etiqueta Certa, em entrevista exclusiva à EXAME.
Segundo ela, a empresa criou "uma plataforma capaz de interpretar essas regras automaticamente e gerar, em minutos, uma etiqueta que já nasce correta para o mercado de destino". "Isso muda completamente o jogo para quem quer internacionalizar a operação", diz.
O que a IA faz — e o que continua humano
A camada de inteligência artificial tem escopo específico
. "Atualmente, a inteligência artificial da Etiqueta Certa é usada exclusivamente para responder dúvidas regulatórias das pessoas — sejam elas sobre como fazer uma etiqueta, sobre as regras de um país específico, ou sobre normas de marcas e clientes", diz.
É uma função de suporte que antes era executada por pessoas da equipe. O modelo é proprietário, desenvolvido e treinado internamente pela companhia, e não é o mesmo sistema que gera as etiquetas — essa parte segue rodando sobre a plataforma, sem IA.
O monitoramento regulatório também continua humano. "A Etiqueta Certa monitora as legislações de etiquetagem diretamente com os órgãos reguladores de cada país — esse trabalho é feito por pessoas, não por inteligência artificial", afirma.
Cada país tem seu próprio órgão regulador e seus próprios mecanismos de publicação de normas. A equipe acompanha essas legislações continuamente e programa as regras diretamente no código-fonte da plataforma. Quando uma norma muda, a atualização é feita manualmente no software.
Quem responde se a etiqueta for reprovada
Em um setor onde erro significa multa, devolução ou recall, a pergunta sobre responsabilidade é central — e a resposta da empresa é direta.
"Quem garante a conformidade da etiqueta é a Etiqueta Certa, por meio da plataforma", diz. "Como essa é a proposta de valor central da empresa, a responsabilidade e a garantia são da Etiqueta Certa."
Há revisão especializada humana a cada atualização normativa. Segundo a empresa, foram mais de 500 mil modelos de etiquetas gerados até hoje, sem nenhum caso registrado de não conformidade regulatória.
O desafio não foi mapear, foi automatizar
Segundo a empresa, o levantamento das regulamentações internacionais não é novidade: a companhia acompanha legislações estrangeiras há mais de dez anos, porque mesmo clientes sem etiquetagem automatizada precisavam criar etiquetas manualmente para exportar.
"O desafio real não foi mapear as regras, mas automatizar esse conhecimento", afirma. "Construir uma arquitetura de software capaz de reunir milhares de regras diferentes, de dezenas de países, e gerar uma única etiqueta automaticamente combinando todas elas — sem contradições e sem sobreposições entre as normas."
A barreira contra concorrentes
Questionada sobre o que impediria uma varejista grande ou empresa de software de replicar a solução, a companhia aponta para o tempo de mercado, não para a tecnologia.
"A barreira de entrada para concorrentes não está na tecnologia em si, mas na combinação de conhecimento de mercado, histórico e domínio regulatório acumulado", afirma.
As fundadoras atuam no setor há 17 anos, e a empresa existe desde 2017. "Não existe hoje, em nenhum lugar do mundo, uma plataforma que faça o que fazemos", diz Liotino.
Os números da operação
A Etiqueta Certa afirma já ter atendido mais de 1.500 marcas e confecções, com mais de 500 mil modelos de etiquetas desenvolvidos.
Entre os clientes estão fornecedores nacionais e internacionais das maiores varejistas do país, como Renner, C&A, Hering, Azzas 2154 e Insider.
A plataforma cobre normas do Inmetro, da ABNT, padrões internacionais e manuais de etiquetagem de varejistas de moda, calçados e acessórios para casa.
O timing da expansão
O anúncio chega em momento de aceleração da indústria têxtil brasileira rumo a novos mercados, e de aumento da pressão regulatória global sobre rastreabilidade, sustentabilidade e transparência na cadeia de moda.
"Nascemos para resolver um problema que toda confecção brasileira conhece: o risco jurídico e financeiro de uma etiqueta errada", diz Liotino. "Resolvemos isso no Brasil e agora estamos prontas para resolver esse mesmo problema em escala global."
A empresa foi fundada em 2017 por Karine Liotino e Mariana Amaral, que atuavam antes como consultoras em regulamentação de etiquetagem junto ao Inmetro e à ABNT.
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