A máquina que abastece a campeã: jovem na base da Espanha pode fazer 400 jogos até o profissional

Espanha conquistou neste ano a sua segunda Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Hannah Mckay
De acordo com levantamento da Uefa, a pedido do ge, a Espanha conquistou 24 títulos continentais ou mundiais desde 2000, somando equipes do masculino adulto e de base. O trabalho dos clubes da LaLiga na formação e a sintonia com a Real Federação de Futebol Espanhola (RFEF) ajudam a explicar a força da atual seleção.
Dos 26 campeões mundiais com a Espanha, 25 foram formados na base da LaLiga, e de 11 clubes diferentes.
Clubes de formação dos jogadores da Espanha na Copa do Mundo e desta data Fifa — Foto: Infografia ge
Organização do futebol de base
Esse sucesso todo é reflexo de décadas de atenção com a formação. A Espanha valoriza a qualificação dos treinadores, com metodologia robusta, pelo menos desde 1990, há quase 40 anos. Os técnicos têm uma estrutura de referência em comum, o que facilita o trabalho com filosofia e base compartilhadas. Isso ajuda na lapidação de talentos.
Outro aspecto que ajuda o desenvolvimento de jogadores por lá é o sistema de competições regular, adequado a cada faixa etária, ao longo de toda a temporada, desde a base até a elite.
— O modelo espanhol não pode ser explicado apenas pelo trabalho de seus grandes clubes. Sua consistência reside em uma rede territorial ampla e interdependente, composta por clubes profissionais e modestos, escolinhas, competições regionais, escolas onde o futebol é uma atividade extracurricular, treinadores e famílias. Uma rede de formação, observação e referência — comentou Abel Merino Orozco, professor de Educação da Universidade de Burgos, da Espanha.
Um garoto na Espanha pode chegar a disputar cerca de 400 partidas entre os oito e os 18 anos, até alcançar o profissional.
Lamine Yamal, quando ainda jogava pelas categorias de base do Barcelona — Foto: LaLiga
Mas até meados da década de 2010, embora a seleção adulta fosse bicampeã europeia e campeã do mundo, não havia estratégia coletiva para o sistema de base, visando desenvolver jovens talentos. A filosofia começou a ser construída em 2015 e, após anos de diálogo com os clubes de 1ª e 2ª divisões, LaLiga apresentou em 2022 o Plano Nacional de Otimização e Melhoria das Categorias de Base.
Lamine Yamal é hoje o maior expoente da formação de base do futebol da Espanha — Foto: Reuters
— A reflexão que fizemos na época foi: não somos ruins. Estamos em boa posição. Somos uma referência para muitos colegas de diferentes países. Mas, se acharmos que isso será suficiente para a próxima década, mais cedo ou mais tarde ficaremos para trás — contou Juan Florit, chefe de projetos de futebol da LaLiga.
O Plano criou uma estrutura coletiva de coordenação, avaliação e compartilhamento de boas práticas, com troca de conhecimento e metas para profissionalizar estruturas, formação de técnicos e cuidado integral dos atletas. A segunda fase do projeto começou em janeiro deste ano, e seu horizonte inicial vai até 2032.
A dimensão mais transformadora reside na incorporação expressa de uma atenção integral ao jogador, contemplando a formação acadêmica, a saúde mental, o desenvolvimento pessoal e a proteção à infância."
Projeto do Osasuna para Tajonar, nome do complexo de suas categorias de base — Foto: LaLiga
"O jogador é o projeto"
Um aspecto do Plano é a visão coletiva, de que o avanço geral é bom para todos os clubes. Eles precisam atender aos mesmos critérios e objetivos do sistema de monitoramento da liga. Ao mesmo tempo, LaLiga procurou criar uma estratégia para cada clube.
— Posso garantir a você que, se perguntar a 99% dos diretores das categorias de base dos clubes da LaLiga o que preferem (ver um certo número de jogadores chegar ao time principal vindo da base ou vencer o campeonato sub-15 ou sub-17 contra o maior rival), eles responderão que preferem a primeira opção. O jogador é o projeto. Não os resultados, não as tabelas, não a classificação. O jogador é o projeto — comentou Florit.
Não há um currículo nacional único, cada clube mantém sua metodologia, mas a formação segue, em linhas gerais, três etapas:
- do sub-8 ao sub-12: coordenação técnica, confiança com a bola e compreensão básica do jogo;
- sub-13 ao sub-16: o trabalho tático e cognitivo ganha importância, assim como o treino mais individualizado;
- e do sub-17 ao profissional: ênfase maior na preparação física e psicológica, com foco na transição para o time principal.

Representante da LaLiga elogia desenvolvimento da base até profissional: "muito conectado"
Os clubes vêm melhorando a infraestrutura e o quadro de profissionais das categorias de base, com o apoio da liga espanhola. O ge perguntou à LaLiga o tamanho do investimento na base, mas não houve resposta até o momento da publicação desta reportagem.
E os clubes se conectam com a federação espanhola. Dos 26 jogadores da seleção da Espanha que venceram a Copa deste ano, 25 vieram das categorias de base de LaLiga, de 11 clubes diferentes. A exceção foi o goleiro David Raya, do Arsenal, que começou no UE Cornellà, da Espanha, e depois se transferiu para o Blackburn Rovers.
— A seleção nacional se beneficia, naturalmente, quando os clubes não apenas treinam jovens jogadores, mas também lhes dão tempo de jogo real em alto nível. Acredito que o papel mais importante seja criar uma base sólida e contínua de jogadores já preparados para a elite da competição — afirmou Juan Florit.
LaLiga registrou na temporada passada (2025/26) uma média de 20,1% do total de minutos disputados em seu campeonato por jogadores formados na base dos clubes da Espanha. Foi o maior índice entre as cinco principais ligas da Europa.
Projeto De La Fuente até 2032
Luis simboliza a confiança no trabalho de longo prazo da RFEF. Ele chegou na federação em 2013, para assumir o time sub-19. O primeiro título veio em 2015, no campeonato europeu da categoria. Em 2018, ganhou os Jogos Mediterrâneos, com o sub-18. Também passou pelas seleções sub-21 e olímpica antes de alcançar a principal, em dezembro de 2022.
Com longo histórico na federação espanhola, Luis de la Fuente é o atual técnico da seleção adulta — Foto: Divulgação / RFEF
Três nomes importantes da atual seleção da Espanha participaram da cerimônia de renovação de contrato com De La Fuente: o goleiro Unai Simón, o volante Rodri e o meia Mikel Merino. Os três trabalharam com o técnico nas equipes nacionais de base, assim como outros oito nomes da mais recente lista de convocados.
96% dos convocados da Espanha nesta data Fifa foram formados na base da LaLiga.
"Vocês são a inveja da Europa, e cabe a nós ser a inveja do mundo." Essa foi a mensagem de Luis de La Fuente ao grupo antes da final da Copa do Mundo. A atual seleção da Espanha representa o ecossistema formado por liga, clubes e federação, de fortalecimento das categorias de base.
— Precisamos continuar evoluindo, competir para vencer. O sucesso reside em estar em condições de vencer, em competir. Não nos contentamos com o que conquistamos até agora. O melhor ainda está por vir. Há muitas coisas boas que vamos aproveitar — declarou Luis.
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