Base de Tarcísio dobra e domina Assembleia Legislativa de SP em ano eleitoral
Ao longo de pouco mais de três anos de mandato, a base de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) mais do que dobrou e, hoje, os deputados de partidos que apoiam a reeleição do governador representam 69% da composição da Casa.
Levantamento feito pela Folha mostra que, ao longo do atual mandato, 65 dos 94 deputados tiveram mais de 50% de seus votos favoráveis às propostas de interesse do governo. Essa maioria, em 2026, estará no palanque do governador.
Entre 77 deputados estaduais que buscam a reeleição, 55 integram a base governista. Já entre os 17 que querem sair da Alesp no fim do ano, 13 tentarão se eleger deputados federais, um sairá candidato a senador e três não disputarão as eleições.
No início do atual mandato, articuladores políticos de Tarcísio estavam incertos sobre como os deputados atuariam diante de um novo governo após quase 30 anos de comando do PSDB no estado.
Por isso, apesar de convidarem deputados de diversos partidos para reuniões do governador com a base aliada, eles calculavam que a base mais fiel era composta por 31 quadros dos três partidos que estiveram na coligação de Tarcísio desde o primeiro turno da eleição de 2022: Republicanos, PSD e PL.
Após trocas partidárias e uma gama muito mais ampla de partidos apoiando Tarcísio em 2026 (incluindo MDB, Podemos, PSDB e a federação formada por União Brasil e PP), a base saltou para 65 deputados.
"Ele [Tarcísio] consolidou o próprio nome enquanto governador, por isso há 11 partidos com ele na aliança atual [para a reeleição]. É tudo fruto do trabalho que ele realizou e do que entregou nesses anos. A base foi aumentando porque os partidos passaram a conhecê-lo ao longo desses três anos", defendeu Gilmaci Santos (Republicanos), vice-presidente da Alesp e líder do Governo.
Na prática, deputados de outras siglas se mostraram até mais fiéis do que aliados de primeira hora do governador ao longo deste mandato. É o caso de Ricardo França (Podemos) e Barros Munhoz (PSD), que estão entre os dez deputados que mais votaram com o governo nos últimos três anos. Hoje no PSD, Barros pertencia ao PSDB até o início deste ano.
Líder da minoria, a deputada Beth Sahão (PT) disse que o perfil dos quadros eleitos para a atual legislatura já indicava que a Assembleia não seria muito combativa —o índice de renovação da última eleição, na casa legislativa, foi de 41%. "A gente sabia que, mais dia, menos dia, quem se elegeu por outros partidos acabaria aderindo ao governo", afirmou ela.
Ao longo do mandato, houve relatos de insatisfação com o governo Tarcísio, sobretudo reclamações por causa da demora na liberação das emendas parlamentares. Sahão criticou o que chamou de "falta de protagonismo" da Alesp em relação ao Executivo.
"Muitos dos projetos que chegavam até nós vinham em regime de urgência, queimando várias etapas e restringindo o debate", disse.
Ela citou como exemplo a votação da privatização da Sabesp, que foi protocolada sob regime de urgência e tramitou por 50 dias até ser aprovada, em dezembro de 2023.
A votação foi a mais polêmica da legislatura: a Polícia Militar jogou gás lacrimogêneo no plenário, que é fechado, durante confronto com manifestantes contrários à privatização. O gás entrou no duto de ar e se espalhou por toda a Assembleia, levando diversos funcionários a deixarem o prédio. A sessão foi interrompida para que o plenário fosse evacuado e retomada na mesma noite, mas sem a presença dos deputados de oposição, que se recusaram a retornar ao local alegando riscos à saúde.
A oposição pressionou para que a sessão fosse adiada, o que não ocorreu, e acusou o presidente da Casa, André do Prado (PL), de atropelar os ritos —o que ele negou em entrevista recente à Folha. A privatização foi aprovada por 62 votos a 1, com muitos dos deputados da base utilizando máscaras para não inalar o gás que ainda restava no plenário.
Gilmaci defendeu as ações da base governista, e do próprio governo, e acrescentou que o regimento interno sempre foi respeitado. "Em governos passados, nomeavam relatores especiais e em nenhum momento o Tarcísio usou esse artifício", disse ele.
O relator especial era designado pela presidência da Alesp para se manifestar no lugar das comissões. A figura foi muito utilizada pelos governos tucanos e, na prática, burlava mecanismos de obstrução da oposição nos colegiados e acelerava a tramitação de projetos.
Votos da maioria
Apesar das reclamações, todos os 65 deputados da base atual tiveram mais da metade de seus votos a favor das propostas governistas.
A Folha fez o cálculo com base em 55 votações no plenário de projetos enviados pelo Palácio dos Bandeirantes ou apoiados por ele desde março de 2023.
Na lista, entraram apenas deputados que estão com o mandato em exercício, o que exclui aqueles que deixaram o cargo ou que exerceram a suplência por um determinado período.
Gilmaci Santos é o deputado mais fiel: votou 52 vezes com o governador. Do total de 55 votações, ele não pôde votar em duas por ter presidido as sessões. "Tarcísio fez um excelente trabalho, e veja que ele sucedeu as gestões de João Doria e Rodrigo Garcia, que também haviam feito ótimos trabalhos no governo e possuíam boa relação com os deputados estaduais", disse o líder do governo.
Marcos Damásio (PL), que integra o chamado "PL raiz", referente aos quadros que já estavam no partido antes da chegada do ex-presidente Jair Bolsonaro à sigla, aparece em segundo lugar, também com 52 votos favoráveis ao governo. Diferentemente de Gilmaci, ele não presidiu nenhuma sessão.
O terceiro da lista é Jorge Wilson (Republicanos), conhecido como Xerife do Consumidor. Apadrinhado politicamente pelo deputado federal Celso Russomanno (Republicanos-SP), com quem divide a pauta de direitos do consumidor, foi o líder do governo entre 2023 e 2024.
Entre os dez deputados mais fiéis nas votações, apenas Milton Leite Filho (União Brasil) não disputará a reeleição. Ele será candidato a deputado federal, junto de outros 12 colegas da Alesp.
O bolsonarista Gil Diniz (PL), que foi cogitado ao Senado na vaga de Eduardo Bolsonaro, está entre os que disputarão a eleição a deputado federal. A candidatura do PL para senador ficou com outro deputado da Alesp: o presidente André do Prado, único entre os estaduais a buscar uma cadeira no Senado Federal.
As duas únicas bancadas que terão todos os deputados disputando a reeleição são do Podemos com quatro deputados, e do PSDB, com duas.
Dos 6 deputados do MDB, apenas 1 não tentará se reeleger: Rogério Santos, que apesar de estar em seu primeiro mandato, anunciou que não disputará nenhum cargo em 2026.
Os outros dois deputados que desistiram da disputa eleitoral são mais veteranos. Carlão Pignatari (PSD), que está em seu quarto mandato na Alesp e presidiu a Assembleia de 2021 a 2023, e Rafael Silva (PSD), que termina ao fim deste ano o seu oitavo mandato na casa. "Entendi que chegou a hora de parar", anunciou Silva no Instagram.
Tanto Rogério Santos quanto Rafael Silva já indicaram publicamente sucessores para os respectivos mandatos. Santos apoiará a candidatura de Reinaldo Alguz (MDB), que foi quatro vezes deputado estadual.
Rafael Silva, por sua vez, deverá transferir o capital político para um de seus filhos, o advogado Rafael Silva Jr.
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