Os run clubs são o novo Tinder?

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Olá, estamos de volta. Hoje vai sentar-se aqui uma pessoa comigo que põe mais de 100, 300, 400 pessoas a correr pelo Porto, pelas ruas do Porto, todos os sábados de manhã. É a Mia, fundadora do Porto Can Run Club, que provavelmente já ouviram falar. É um run club enorme que já começou há três anos e vamos aqui hoje falar um bocadinho do mundo do desporto, da corrida, da comunidade, de como é que ela criou isto, de que forma é que a saúde mental está envolvida nestes projetos também, de que forma é que os run clubs são as novas dating apps. Vamos falar um bocadinho de tudo aquilo que está por trás, como é que isto é um negócio. Também acho que é importante mostrar um bocadinho deste lado, porque vemos tantos run clubs a surgir, isto parece toda uma trend, mas há estrutura por trás, como é que as coisas funcionam na prática, de que forma é que isto evolui e para onde é que ela vê o futuro a ir, seja para ela própria, que se despediu há um ano para abraçar só o projeto do Run Club a full time. Ela tem trabalho para ocupar a sua vida e isto ser um full time. Vamos tentar perceber um bocadinho de tudo o que está por trás da organização, parte financeira também, e de forma que ela vê o futuro, seja do Run Club, ou seja mesmo dela enquanto personalidade, que agora também começa a ser uma cara mais conhecida neste mundo do desporto. Portanto, bora lá passar à nossa conversa. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume. Mas vamos começar por aqui, onde estávamos a falar de como a tua vida deu uma volta gigantesca.
Completamente.
Há três, quatro anos atrás, se te dissessem que estavas a fazer isto hoje em dia, tu acreditavas?
Nunca na vida. Até porque eu digo sempre que era mesmo uma brincadeira. Aliás, eu nem praticava desporto, portanto quando às vezes me dizem: "Tu estás no mundo do desporto, tu trabalhas no mundo do desporto," eu fico: "Que estranho." Mas eu nem olho como se fosse mesmo o mundo do desporto, olho mais para a parte social do que propriamente do desporto, portanto tento encaixar mais isso, mas nunca na vida.
Mas tu tens tempo no teu dia a dia para parar e pensar: "Fogo, como é que a minha vida mudou?"
Eu sou ótima pessoa a parar e parabenizar e dizer: "Isto é do caraças, que fixe que estou a fazer isto." E eu sou muito agradecida pelo que tenho, portanto eu por acaso faço muitas vezes essa reflexão. Muitas vezes.
Olha, porquê?
E escrevo e partilho. Imagina, foi mesmo por acaso. Eu acho que já partilhei isto tantas vezes. Eu estava em casa, muito aborrecida, porque não tinha trabalho, estava à procura e vi no TikTok, até vi um vídeo da Cláudia também a fazer a maratona ou a meia maratona e disse: "É isto que eu vou me desafiar, vou fazer meia maratona," porque eu já andava há um bocado a pé, sempre gostei de exercício, mas não era consistente, desistia. E comecei a treinar, conseguia fazer mesmo pouco, era 1 km, depois 1,2 km.
Mas foi logo tipo, quero uma meia maratona?
Quero uma meia maratona. Era só o objetivo, completamente. Que é o clássico não saber fazer. Mas eu disse: "Eu vou treinar quando for," e só foi passado um ano e meio, portanto demorou, até porque eu depois fui viver para fora, por isso ficou um bocadinho em pausa, mas foi porque era um desporto fácil. Eu já vivia ali perto da Foz, portanto também tenho essa sorte. Para mim era um desporto muito mais acessível, porque eu só saía de casa, não tinha que marcar com ninguém, podia ir sozinha, qualquer horário. Portanto, encaixava bem na vida que eu tinha, porque eu sempre trabalhei como hospedeira e andava sempre de um lado para o outro. E aconteceu, mas sem pensar muito. Depois os meus amigos começaram a mandar mensagem a dizer: "Mia, quando é que eu vou contigo?" E eu: "Isto não está a dar jeito nenhum, vamos é criar um grupo, até ponho um logo e pode ser que apareça mais alguém." E pronto, e apareceram três pessoas que eu não conhecia.
Mas já tinhas visto run clubs a surgir?
Já.
Dizeste: "Isto vai ser uma cena?"
Não, nunca senti que isto ia ser uma cena. Nunca. Mas em novembro de 2022, quando eu criei, não havia run clubs, quase. Nada. Eu acho que sempre houve grupos de corrida, até de malta mais velha.
Mais tipo atletas, não era?
Mesmo, eu acho que da idade dos nossos pais, se calhar, já corriam. E mesmo ali no Porto havia os Cães da Avenida, que era um grupo de pessoas mais velhas que corriam. Portanto, eu acho que sempre houve, só que não era tão jovem e não tinham tão bom marketing, é o que eu acho. Eu acho que a única coisa que eu inovei foi em como comercializar este evento, este desporto e este convívio, e como atrair mais gente, porque de resto eu acho que as pessoas já se juntavam naturalmente para correr. Então não havia nada e eu só vi um em Londres. Eu cheguei a mandar mensagem e tudo, porque era tão próximo, nós tínhamos todos muito poucos seguidores. Eu nem tinha Instagram, nem me interessava, eu só criei um TikTok do Can Run Club. E as pessoas começaram a aparecer. A minha ideia era só fazer de 15 em 15 dias, mas logo na primeira corrida perguntaram: "Quando é que é a próxima? Pode ser já para a semana?" E eu: "Ok, vamos mudar."
Mas como é que correu a primeira? Apareceu gente?
Apareceram três pessoas que eu não conhecia. E depois apareceram os meus amigos, que eu tinha os obrigado a ir. E apareceram três pessoas que eu não conhecia de lado nenhum e eu lembro-me de chegar e estar mesmo tipo: "Será que aquela pessoa é eu? Estou só vestida com roupa de desporto." E algumas eram, outras não eram.
Vem, não vem, eu juntei-me.
E foi supertranquilo, começamos ali a conversa. Por acaso, essas pessoas nunca mais apareceram. Era o início, eu esperava que viessem outra vez. Uma sei mais ou menos quem é, os outros dois, se não me engano, nunca mais os vi, nem sei o nome, não sei nada, infelizmente. Mas pronto, aquilo correu bem, as pessoas já queriam na semana a seguir e para mim estava ótimo, se fosse para os meus amigos e para aquelas três pessoas. Então eu disse: "Pronto, fazemos outra vez para a semana." E eu sinto que adotei sempre isso ao longo destes três anos, que é: eu não tenho nenhum futuro, não sei nada do que é que vai acontecer no Run Club daqui a um mês, dois, três, porque as pessoas é que constroem isto comigo. As pessoas dizem-me: "Olha, queremos um treino na quarta, queremos um treino..." E eu vou fazendo o que eles querem. Portanto, foi muito isso. Desde o início eles disseram: "Olha, e se fosse já para a semana?" Pronto, então a partir de agora é todas as semanas.
Sim, ou seja, criaste a expectativa de que isto vai ser o meu negócio, isto vai ser o meu trabalho.
Aliás, eu acho que se tivesse pensado que isto ia ser o meu trabalho, que isto ia ser o meu negócio, que isto ia ser durante tantos anos, eu não tinha começado, porque ia massar-se imenso. Ia pensar: "Fogo, agora do nada corro há um mês e agora vou ter que correr para sempre e agora isto vai ser a minha personalidade." Não, eu acho que não tinha começado se soubesse o que isto ia ser. Mas essa ingenuidade acho que me trouxe pouco medo e vontade de arriscar. Portanto, foi muito mais fácil assim.
Mas tu lembras quando mudaste de: "Ok, isto tem potencial, isto pode vir a ser qualquer coisa maior do que eu, maior do que só uma corrida ao sábado."
Eu acho que não sei quando é que percebi isso. Até porque logo a seguir, três meses depois, uma coisa assim, eu fiz uma última corrida antes de eu ir viver para fora.
Mas tu foste viver para fora no momento em que já tinhas o run club?
Criei o run club em novembro e em 1 de fevereiro vou viver para a Grécia. Portanto, eu nem pensei, foi do tipo: "Para mim é óbvio que eu vou aceitar esta proposta da Grécia, porque o que eu tenho? Eu tenho um grupo de corrida. E tinha essa última corrida, antes de ir embora, eu tive 70 pessoas, uma coisa assim, e pensei: "É muito fixe, mas são oportunidades de trabalho e isto era só para eu me entreter enquanto não tinha trabalho." E, portanto, eu fui trabalhar para a Organização Mundial da Saúde, trabalhei na área da saúde mental durante três meses, como estagiária. Estava lá a viver e geria tudo à distância mesmo. Ou seja, eu antes de ir embora, virei para oito pessoas que já iam algumas vezes, dei-lhes um boné azul a dizer que era run club e disse: "Vocês são os líderes, vocês vêm às corridas quando quiserem, mas eu vos junto à distância." Elas mandavam vídeos, eu editava, publicava, fazia get ready de mim a dizer: "Eu estou em um run club e vivo em Atenas." Estava a contar tudo e os sábados nunca paravam. Eu fechava os sítios, mas eu não avisava os sítios. Eu só dizia: "Vai ser ali na padaria portuguesa às 10h30."
Apareçam, ao ponto de-
Não avisava sequer o sítio que eu ia lá com o run club, não importava, era meia dúzia de pessoas. E quando eu estive fora, também naturalmente foi diminuindo o número de pessoas, daqueles 70 que eu tinha tido, mas eu não estava preocupada. Eu até quis tentar viver na Grécia, eu pedi se podia ficar lá trabalhar. E eles disseram para eu vir-me embora, mas fazer teletrabalho, porque é difícil, é a Organização Mundial da Saúde e os escritórios. E deixaram-me acabar o trabalho que eu estava a desenvolver com eles, mas foi em teletrabalho. Eu quis ficar lá, o run club não era a minha escolha. Mas sempre fui muito consistente e disciplinada. Era tipo: "Isto é para as pessoas, portanto eu vou continuar, não é porque eu estou a viver fora. É preciso haver um líder e quem lidere isto. E, portanto, eu vou liderar, porque as pessoas querem." E quando voltei, eu lembro-me da corrida que fiz, tinha 10 pessoas e eu: "Pronto, ok, vamos continuar."
Mas sentiste-te um bocado mais desmotivada?
Nada. Foi tipo: "Ok, é o que for." No fundo, eu estava espetacularmente. Eu nem sequer associei de: "Se calhar o run club já não vai dar." Porque não era mesmo, eu quando voltei estava motivada a continuar a trabalhar, a procurar trabalho na minha área.
Acho que ajuda muito não teres essa expectativa e esse peso de que isto vai ser alguma coisa, então tem mesmo de dar certo, não é?
Completamente, que foi o que eu senti este último ano, desde que me despedi e vivi só disto. Já senti muito mais esta pressão de: "Isto tem que dar certo, meu Deus, os números, as views, as marcas, os contratos, ias contratar pessoas e agora tenho ordenados para pagar." Portanto, este último ano foi o mais desafiante em termos de pressão, de que agora os olhos estão virados para mim.
Isto agora deixa de ser um hobby, agora isto é a sério, tem de acontecer.
Sim. E houve uma altura que eu sentia mais, que ia ao sábado e ia nervosa e não aproveitava tanto, principalmente quando começaram a aparecer marcas, muitas marcas, e eu estava sozinha. Então eu não aproveitava nada. Eu estava sempre a falar com a marca, sempre a filmar, sempre a fotografar e não estava com as pessoas. E eu fiz isto porque eu gostava mesmo de estar com as pessoas. Então aí comecei a ficar um bocado desmotivada, mas depois fechei os contratos e consegui contratar alguém para fazer as redes sociais, que me dá imensa liberdade para estar lá.
Sim, delegar.
Eu quero estar com as pessoas, não consigo estar a gravar. Porque depois mesmo que tu programes um conteúdo que queres fazer naquele dia, tenhas dito à marca que o vais fazer, aquilo é uma comunidade, as pessoas podem não poder gravar, as pessoas podem todas ir embora mais cedo, é super imprevisível. Então ficava mesmo nervosa. Agora a Xica, quem faz as redes sociais, faz um planeamento tendo em conta todas as situações que podem acontecer. Temos um plano A, um plano B, um plano C, se ninguém quiser aparecer, se chover, se não der. E temos várias opções e ela vai gerindo isso super bem, portanto, já não tenho esse estresse. Agora, finalmente, estava a dizer isto até porque fiz anos agora e estava a refletir sobre este novo ano, sinto-me mesmo em paz com o que vem aí. Acho que as coisas estão decididas.
E com a decisão que tomaste.
Sim, acho que cheguei a um ponto em que eu acho que o run club está bem posicionado. Acho que já mostramos que isto não é só uma brincadeira e que não é só uma miúda que quer fazer, e que isto tem uma estrutura por trás. Portanto, acho que estou numa boa fase. E se não der, eu digo sempre que eu acho que isto vai abrir outras portas para outras coisas.
Claro que sim, é uma comunidade, depois pode seguir vários lados diferentes. Como o mais forte for a comunidade, depois a partir daí tu podes fazer o que tu quiseres.
Completamente. Eu nem sei o que eu quero ser. Às vezes perguntam-me: "Mas queres ser psicóloga, então? Queres trabalhar com as redes sociais? Queres trabalhar em marketing? Queres fazer eventos?" Porque isto dá para tanta coisa que eu fico: "Eu não faço a menor ideia." Mas vou trabalhando no sentido de abrir todas as portas e mais algumas para no dia que eu tiver uma ideia do que eu quero fazer, conseguir fazê-la e ter a porta aberta.
E tu lembras-te da primeira vez que tiveste uma marca a chegar ao run club?
Lembro-me de uma história que eu já contei uma vez, que acho que é mais engraçada. Imagina, quando eu estava a trabalhar na câmara, na altura que eu me quis despedir, era porque eu tinha uma marca que me ia patrocinar. Porque até então eu ia aos cafés e dizia: "Olhe, vou levar o run club." Que eu comecei a perceber que os cafés faturavam imenso por eu estar a levar aquelas 200 pessoas ou 100 pessoas.
E davam um descontozinho às pessoas que correm, mas para ti nada.
Nada. E eu: "Fogo, mas eles ganharam 300 € aqui em cafés, em bolos, em coisas e eu não ganho nada." Comecei a pedir porcentagem, 10%, depois passei para 15. E depois comecei a perceber que isso variava muito. Se fosse a um bakery, por exemplo, a comissão era mais alta, mas se fosse outros cafés que eles já não gostavam tanto, a comissão era mais baixa. Eu disse: "Mas o meu trabalho que está envolvido é o mesmo." Eu levei as pessoas, é o mesmo número, eu investiu mesmo nas redes sociais de pós-corrida. Eu não posso estar aqui consoante se o café é bom ou não é, ou se as pessoas gostam ou não gostam. Então eu comecei a propor um valor fixo, também baixinho. E ainda hoje eu digo que acho que o meu valor por corrida não é muito alto, quando eu comparo com outras pessoas que trabalham com marcas e corrida, com outros run clubs, mas porque eu não me posso dar ao luxo da marca pensar muito, porque eu todos os sábados quero ter uma marca, porque eu faço todos os sábados.
Mas acredito que tenhas bastantes opções por aí.
Tenho algumas, sim, mas não podem ficar a pensar muito tempo, porque todos os sábados. Graças a Deus, agora, por exemplo, até dezembro está tudo fechado, mas nem sempre foi assim. Então eu baixo um bocado o valor dessas corridas para ter sempre todos os sábados e que as marcas não pensem muito e digo: "bora, vamos fazer." Claro que eu já fui aumentando desde a primeira vez, mas acho que não é muito caro. E fazia assim um valor muito reduzido e estava a trabalhar na Câmara do Porto, quando apareceu uma proposta para me patrocinarem mesmo, com uma verba mensal, que é aí que tu pensas: "Ok, estou segura." Porque enquanto aquilo umas vezes dava, outras vezes não dava. E tínhamos quase tudo fechado, eu já a dizer para os meus pais que vou me despedir e preparar para dizer lá na câmara que me ia despedir. E um dia estou a trabalhar e recebo um e-mail da marca a dizer: "Mia, eu acho que tu te enganaste. Nós não te vamos pagar isso todos os meses, nós vamos pagar isso por 12 meses." Imagina a discrepância de valor. E eu tipo: "What?" Já íamos fechar tudo, já estávamos a assinar contratos, a falar de como é que eu ia receber o dinheiro e foi essa chamada sobre o dinheiro que eles ficaram: "Eu acho que estás a perceber mal." E eu: "Como assim?" Imagina, o que eu achava que ia ganhar todos os meses era esse valor por 12 meses. E eu disse: "Pronto, então não dá", mas chorei. Eu estava a trabalhar, eu pensava: "Não podes chorar, estás a trabalhar." Mas eu fiquei tão desiludida, ainda por cima porque eu sou muito desbocada. Já tinha dito a toda a gente da minha comunidade. Como é que eu agora vou dizer, ainda por cima que a culpa foi minha, porque eu depois fui ver a proposta que eu tinha enviado e como eu estava a trabalhar full time, eu estava distraída e não pus o barra mês. Então aquilo, era normal que eles tinham calculado que era o valor total. Faltava o tracinho mês. Pronto, então eu disse: "Ok." Mas tinha uma mensagem na altura da Goldener e um e-mail para eu responder que também era para me patrocinar, que eu tinha dito: "Olha, neste momento não sei se faz sentido, estou aqui a fechar com outra pessoa." Que hoje em dia já não faço isso, mantenho todas as opções em aberto até fechar, mas não, na altura muito correta, não, agora não vai dar. E então mandei-lhes a mesma proposta com o barra mês e eles aceitaram e eu despedi-me.
Uau, que bom!
Foi bem fixe. Foi mesmo curto o espaço de tempo de um para o outro, portanto logo a seguir despedi-me e fiquei. E era um contrato de seis meses e eu pensei: "Pronto, tenho seis meses para trabalhar a sério e arranjar outras marcas ou esta que continue." Entretanto, fechamos com a Super Bock.
Mas sentes que as marcas estão muito abertas a marcas e cafés e etc, negócio a apoiar o run club?
Muito mais hoje do que no início. Sinto que no início bati muita pedra.
Mas fizeste muito o trabalho de começar, porque agora surgem run clubs e já está feito o trabalho. Já vêm atrás deles.
Também sinto isso, eu sinto que tive que ensinar. Eu sinto que hoje em dia eu vou para as reuniões só apresentar o que eu faço e antes ia para as reuniões ensinar. Porque isto é uma boa estratégia, porque tu vais associar a tua marca a uma experiência e são emoções positivas e, portanto, quando a pessoa se lembrar da marca, vai se lembrar desta emoção que conheceu alguém, que correu, que fez os primeiros 5 km e que isso tem imenso valor e que muito dificilmente as marcas conseguem fazer isso sozinhas. E, portanto, que aqui eles iam conseguir isso e te explicava massa coisa, mesmo em termos de psicologia, porque isto era bom. Hoje em dia já não é preciso, graças a Deus.
Já sabem o que é o conceito, já sabem que move pessoas. E o facto também de teres consistência de todos os sábados e saberes mais ou menos o número de pessoas que esperas, para as marcas é uma segurança gigante.
Completamente. Sim, eu acho que isso é ótimo. Eu dizer: "Já tenho três anos disto e não vou falhar e está aqui."
Olha, não sentes que é um bocado uma prisão para ti? Imagina, eu olho para ti, acho o teu negócio fascinante e adorava ter uma cena também assim mais regular e mais consistente a nível presencial, porque acho que é tão importante esse contacto. Eu lido com imensa gente no digital, mas sinto falta de conhecer quem está por trás e ter esse contato. Mas, por outro lado, assustaria-me imenso eu todos os sábados ter de estar cá.
Sim, essa é a pior parte. Porque eu vejo toda a gente a viajar e eu não viajo.
Depois eu vi TikTok teus de que não tiveste férias porque não consegues ir.
Eu fui ao Algarve quatro dias e fui domingo a quinta, portanto eu consigo ir assim durante a semana, mas não é fácil, porque o meu namorado também trabalha e para ir tinha que aproveitar provavelmente mais os fins de semana e é a única altura que eu não posso aproveitar. E portanto, sim, eu sinto que tenho que estar cá, até porque as marcas pedem muito para eu estar. Quando eu digo: "Eu não vou estar, mas a minha equipa faz." Eles dizem: "Mas é a tua cara que nós queremos associada a este evento" porque também vende um bocado.
Pois eu ia te perguntar também essa parte, porque eu sinto que há vários run clubs em que não têm uma cara ou que se tem, são várias pessoas e o teu, aquilo que estavas a dizer, ires para a Grécia e depois chegares e teres menos gente, é normal, porque tu sempre foi muito a tua energia.
Eu acho que fiz bem. Eu não me arrependo, de não ter férias. Não tenho férias, mas tenho o melhor trabalho de sempre e sou muito feliz a fazer o que faço. Portanto, eu acho que vêm sempre coisas boas e más. E eu não me arrependo, porque eu acho que foi super importante e acho que isso é a estratégia certa, é associar uma cara àquele run club. E acima de tudo, não ser uma cara assim tão conhecida, acho que também ajudou, porque as pessoas sentem-se muito mais facilmente próximas de mim do que se eu já fosse famosa ou com imensos seguidores. Acho que às vezes há aquele receio de vir falar.
Achas?
Acho. E eu acho que o facto de ninguém me conhecer, eu tinha nem 1000 seguidores no Instagram, nem tinha TikTok pessoal, e eu acho que isso aproximou um bocado também. E as pessoas virem crescendo comigo, sinto que elas me acompanharam, que me fizeram crescer, que me ajudaram, ainda cria mais esta sensação de comunidade.
Estão a construir contigo.
É isso.
Eu muitas vezes penso em criar algumas coisas assim mais físicas e penso sempre: eu queria criar uma experiência em que as pessoas fossem pela experiência e não por mim. Mas numa fase inicial, isso vai ser muito difícil, porque as pessoas vão por mim, porque já me acompanham. Acham que são minhas amigas na net. É normal, é uma transição que vai ser.
E também é bom, tu vês aí outros run clubs de Lisboa e assim que crescem pela figura. Não é propriamente porque estão a construir em conjunto, é pela figura. Isso também está válido, não estou a desvalorizar.
Mas também agora já estás a ter uma imagem mais conhecida. E imaginas esse caminho também? Que eu sei que tu não queres ser influencer.
Eu penso imensas vezes nisso. Imagina, eu acho que não ficava feliz só sendo influencer, só a gravar conteúdo, porque eu não amo gravar conteúdo. Por isso eu percebo quem quer ser influencer e trabalhar nisso, porque gosta mesmo de gravar, de editar. Eu não. Se o meu vídeo puder ser no carro a falar para a câmara e publicar logo, está ótimo.
Mas para ser influencer só de vídeos de carro, também. Não precisas de ser coisas elaboradas, também pode ser por aí.
Depois também tem uma coisa que é, e isto se calhar é um bocado estúpido, mas eu sinto que o que eu sempre quis fazer e ter é algum papel nesta cidade. Eu gosto muito de viver no Porto, sinto que tenho uma comunidade que me ouve e gosto mesmo de pensar em mudar e em fazer melhor por esta cidade. Não sei, tenho aqui alguma responsabilidade em fazer coisas e tenho algum cuidado em não falar demasiado, porque depois posso não ser ouvida. O que eu penso é: se eu publicar todos os dias alguma coisa no TikTok, pronto, aí eu publico, se calhar. Mas no Instagram, não. Se eu publicar todos os dias alguma coisa, no dia em que eu quiser falar a sério, as pessoas vão ouvir? Ou porque há muitos halls e se calhar a minha palavra já não vai ter tanto impacto. E eu quero que a minha palavra continue a ter muito impacto, por isso quero construir isso com calma, com respeito, com aprendizagem.
Eu acho que o impacto não vem só das palavras. Aquilo que tu estás a fazer tem impacto todos os sábados. E aí já tens um propósito muito forte que estás a mexer Muita gente e a gerar um impacto enorme na cidade do Porto e nas vidas individuais de quem vai correr, porque quem já foi ao Run Club sabe o que é, sabe a sensação que é estares a conhecer pessoas novas, estares a sentir que estás a sair da zona de conforto. É uma dopamina que não é só a corrida que traz, porque vais fazer uma corrida de 5 km, não te traz isso.
Claro que não. Sem dúvida que isto tem um impacto enorme na vida das pessoas. Eu não tenho nenhum estudo e isto seria um passo que eu gostava de dar no Run Clever, estudar o impacto que tem na saúde mental das pessoas.
E tu vindo da psicologia também queres ligar.
Não seria eu a estudar, porque teria algum viés, mas começar esse trabalho, começar a estudar e passar depois esse trabalho para alguém, era o que eu gostava mesmo de fazer. Até porque às vezes eu vou à procura de fundos de impacto social ou de saúde, e é muito difícil para mim pedir imensos fundos. Ou seja, eu hoje só ganho dinheiro com a parte do marketing das empresas, o que é ótimo, mas as empresas estão mais preocupadas em vender do que propriamente na saúde das pessoas e no impacto que o projeto tem. Isso incomoda-me às vezes um bocadinho, porque claro que eu tive que me vender um bocado e acho que vendo-me com responsabilidade e com peso e medida, mas é importante para mim que haja também outro fundo que se preocupe realmente em fazer a coisa certa. Não que as outras marcas não estejam preocupadas, mas que seja mesmo esse exclusivamente o objetivo.
Se chegasse até ti uma instituição, uma organização que te apoiasse o projeto a 100%, tu preferias isso e não ter marcas?
Eu acho que as marcas também são importantes, porque as organizações não sei o que é que podem oferecer.
Monetariamente sustentavam o projeto.
Sim, se calhar.
Mas as marcas depois também criam dinamismo, atividades diferentes.
Se as marcas continuassem a estar e a dar bom as coisas, é superfixe. No fim, isso foi o que levedeur para dar a toda a gente. É superfixe, no fim, ter a Andreia que foi lá dar um kit de maquiagem a toda a gente, todas as reparir. Isso é ótimo, mas é assustador depender só disso, se vamos vender, se não vamos vender. Preferia que fosse mesmo só sobre este projeto tem que existir nesta cidade, porque isto é ótimo para o futuro, para os jovens do futuro, para os adultos do futuro, que vão ser mais saudáveis. Estão a tirar os jovens de casa e isso é uma preocupação.
Por acaso, uma coisa que queria comentar contigo, porque esta semana saiu aquelas estatísticas sobre o exercício físico.
Normalmente assim tão bem.
O Eurobarómetro saiu agora que nós estamos com 70% de pessoas que não praticam exercício físico nenhum no seu dia a dia, mas em abril de 2022, estava em 73. Agora estamos em 68. Baixámos cinco pontos percentuais, mas somos a taxa mais alta dos 27 Estados membros da União Europeia. Portanto, nós somos o país que menos pratica exercício físico.
Nunca achado, porque eu sinto que como o meu mundo é só desporto, eu achava que nós estávamos ótimos.
Nós vivemos numa bolha.
Completamente.
4% diz que faz exercício todos os dias, mas depois 98% dos inquiridos em Portugal considera que o desporto ajuda na saúde mental e 93% que é importante para criar sentido de comunidade. Ou seja, nós sabemos o impacto que tem. Mas depois, a principal razão que as pessoas apontam para não fazer exercício físico é a falta de motivação. Achas que a comunidade pode ser uma solução para isso?
Sem dúvida. Mas eu acho que a falta de motivação também vem com nós estamos a viver para trabalhar. Eu tenho a percepção que lá para o fundo também é um privilégio fazer exercício.
E não era a falta de tempo, era a falta de motivação.
Mas achas que a motivação não está ligada à falta de tempo?
Claro.
Tu pensas: "Só tenho uma hora livre no meu dia e é mesmo o exercício que eu quero fazer." E claro que eu sei que há pessoas extremamente positivas e discursos extremamente positivos de que: "Não, tu tens sempre tempo, tu vais conseguir, tu consegues. Nem que acordes uma hora mais cedo, isso é uma péssima desculpa." Na verdade, não é nada uma péssima desculpa.
Mete filhos à mistura, metes rotinas loucas, dois trabalhos.
Eu tenho um horário livre e às vezes o facto não arranjo tempo para fazer exercício. E podia mesmo? Podia, mas não aconteceu. Portanto, não sou extremamente positiva em dizer: "Toda a gente consegue." Não, nem toda a gente consegue. E por que as pessoas não se sentem motivadas? Não sei, diria que é por causa disso. E eu acho que até então, nem toda a gente se sentia representada no desporto. Nós até estávamos a falar disso até de propósito também em relação do Porto, tipo muito mais atletas. E nem vou começar.
E era muito só ir ao ginásio, perder peso.
Só havia ginásio, depois havia quem estava em clubes. E agora tens só 30 anos, vais meter agora num clube de futebol. Ou vou meter agora num clube. E acho que já estamos a mostrar que é possível e que vais sempre a tempo de começar. Não tens que ter este corpo, não tens que ter todo o ginásio à tua vida.
E não tens que fazer maratonas, nem tens que correr.
É isso. Nem tens que correr. Eu digo muitas vezes, as pessoas quando vêm falar comigo e dizem: "Eu não gosto muito de correr." Eu digo: "Não precisas de te desculpar, está tudo bem. Não tens que gostar de correr."
Mas acho que é a nossa bolha, de ser tudo muito à volta do esporto.
Sim, completamente.
Mas ótimo que surjam cyclings, clubes e pilates e que seja uma moda. Ótimo. Muitas vezes as pessoas estão sempre a criticar, é modinha.
É isso. E isto eu acho que está a acontecer em várias coisas na nossa vida. Estamos sempre em dois polos. E estamos neste momento a viver essa era em que está tudo polarizado. Portanto, antes não se fazia, agora toda a gente está a fazer, é essa a moda, portanto odiamos isto, mas acho que depois vai-se encontrar um equilíbrio e vamos caminhar para o sentido certo.
Sim, mas eu acho que a comunidade ajuda imenso nisso, porque tu sentes que tens ali pessoas, é um propósito maior, também vais para conhecer pessoas.
É isso, e crias aquele elo com aquelas pessoas.
É isso, nós estamos tão agarrados ao digital constantemente que sítios como o Run Club que te permite sair de casa e fazer coisas diferentes.
Mas sem dúvida que estavas a dizer, e bem, que ainda existe imensas pessoas que odeiam Run Clubs. E quem vê esse estigma, tipo: "Lá vêm os Run Clubs, os Run Clubs iam estragar tudo. Esta malta nem corre, só vai para as fotos, só vai para os brindes."
Isso é da malta que corre que faz esse julgamento.
Malta que corre e malta que também nunca correu na vida.
E o estigma de associar Run Clubs a dating apps?
A dating apps. Eu não acho mal nenhum.
Qual é o mal?
Eu nem sei quem são quanto a dating apps, portanto mesmo que eu vá dizer isso. Não acho mesmo mal nenhum que as pessoas vão para lá, mas não é real. Há pessoas que vão, mas eu diria que é 2% das 100% que lá está.
Não sentes isso?
Há muito pouca gente que vai à procura disso. E se vai à procura, nem se nota, porque a pessoa não está lá propriamente. Não está assim.
O que costumas fazer nos dias dos namorados?
Nos dias dos namorados eu digo: "Já que gozam com isto, vamos gozar também." E fazemos assim para as pessoas porem o @, e puxamos um bocadinho por aí e brincamos com isso. E às vezes as pessoas também nos pedem, dizem: "Olha, era giro no semáforo." Porque eu acho que há espaço para tudo e eu digo sempre: as pessoas não têm que vir todos os sábados ao Run Club, podem olhar para uma corrida e dizer: "Gosto bem desta, vou. Não gosto desta, não vou." Está tudo bem, por isso é que nós vamos fazendo sempre coisas diferentes, senão eu começava sempre no mesmo sítio, acabava sempre no mesmo sítio, era sempre a mesma marca. E aí tinha sempre o mesmo público, provavelmente.
Mas ir todas as semanas também é bom para a comunidade, para tu sentires que tens ali uma rotina e que estás a conhecer mais as pessoas.
Sim, e quando vão várias vezes, notas completamente uma diferença. Eu já sei o nome, já são meus amigos, muito provavelmente. Portanto, nota-se que há ali outra proximidade quando tu começas a ir repetidamente. Aliás, eu acho que a pessoa volta, e eu acho que ajudou para mim, que é mesmo engraçado, que se eu parar um bocadinho para conversar mesmo com umas pessoas novas, essas pessoas na semana a seguir já voltam. Portanto, a minha capacidade também de estar disposta a falar com as pessoas e a conhecê-las, também muda completamente a experiência delas, ou a minha ou passar para alguém, porque eu também tenho às vezes esse cuidado de ir lá e dizer: "Olha, vou te apresentar aquela pessoa que também é nova" e junto-as. E essas pessoas depois voltam.
Tens cuidado de ver pessoas que estejam sozinhas?
Tenho que saber, e se não sou eu, tenho pessoas da minha comunidade que o fazem, que vêm ter comigo e tipo: "Aquela pessoa está sozinha, podes ir lá?" Eu tipo: "Eu acho que tu és mesmo boa a ir lá, vai lá tu." E às vezes também passo esse trabalho a outras pessoas. Mas isso é uma coisa fixe, é que toda a gente no meu Run Club tem um papel. E isso faz sentir muito mais próximos desta comunidade e deste projeto, do que se fosse só eu a dizer as regras todas e as pessoas faziam. Não, toda a gente tem um papel. Um é o que vai buscar as pessoas, um é o que põe a música, outro ajuda-me a ir buscar coisas ao carro. Toda a gente ali tem um papel e eu muitas vezes no fim do Run Club acabo por lhes contar quais são as marcas que vêm e pedir-lhes opinião. "O que vocês acham? Fazemos aqui, fazemos ali. Vocês não gostam disto?" Portanto, eu construo muito com eles e às vezes há as pessoas que dizem: "Na verdade, tens é pessoas a trabalhar para ti e não lhes pagas." E eu digo: "Não, as pessoas partilham comigo e dão a opinião e reúnem. Dão um feedback se quiserem, não é obrigação nenhuma." E, por exemplo, toda a gente sabe que eu tenho os meus community leaders, que vão todos os sábados, que vestem uma T-shirt e eles não são pagos. Mas estamos trabalhando neste sentido.
Porque eles acreditam no projeto. Se calhar no futuro até podem ter um papel.
Eu disse: "Olha, vocês não têm que vir." Por isso é que eles são 15, que podem faltar à vontade, que há um cada parecer para me ajudar. E eu não consigo falar com toda a gente, eles conseguem. E depois sempre que eu tenho outdoorsize ou sapatilhas ou coisas para oferecer, dou a eles. Mas vamos construindo e uns já foram e já não são hoje. E eu vou percebendo quem é que está mais atento à comunidade e quem é mais participativo e vou pondo-os nestas funções. E acho que acaba por ser orgânico e bom para a comunidade.
Mas é difícil de, acredito eu, tu mostrares que também é um projeto que também é rentável e que também tem a parte financeira e tem de ter para te sustentar a ti e uma equipa e para que seja possível continuar todos os sábados. Mas acredito que para ti possa ter um bocadinho dessa sensação de "estou a ser vendida, porque estou a ganhar dinheiro com aquilo que gosto".
Mas imagina, o que muita gente não sabe é a quantidade de nãos que eu também digo. E há muitas parcerias que eu digo que não, porque a minha comunidade não vai gostar e financeiramente era ótimo para mim.
Mia, mas todos temos de ganhar dinheiro.
Sim, claro.
Não é por aí, não é os nãos, é o sim. Todos temos de ganhar dinheiro, é um projeto.
É verdade.
Dura muito tempo, tu trabalhas muito, mereces ganhar o teu dinheiro porque também é o teu full time.
Mas eu sou muito responsável. Eu não preciso ficar milionária com isto. E eu só ganho dinheiro se as pessoas gostarem de ir ao Run Club, enquanto eu tiver comunidade. Ou seja, se eu um dia perder a comunidade, eu também perco o dinheiro. Portanto, eu tenho que estar muito atenta e este dinheiro vai entrar, mas é uma marca que as pessoas gostam ou vou perder as pessoas e vou perder público. Por isto eu digo sempre, é o jogo mais difícil que existe dentro do Run Club. Eu acho que ninguém sabe, mas é este. É entre oportunidades financeiras e se querias ser uma marca e ganhar dinheiro, mas lembraste que as pessoas não gostam, não querem, se calhar não é por aí e, portanto, tens que andar aqui sempre a balançar com muito cuidado. Essa é a parte mais difícil, que eu sinto. Uma marca a dizer-me: "Eu quero fazer isto", eu digo que não. Marcas a dizerem-me: "Olha, o evento nós vamos patrocinar, mas o evento tem que ser assim", eu digo que não. Minha comunidade não gosta, não querem isso. "O evento tem que ser ali." "Não, desculpem, não quero, obrigada." E digo muitos nãos porque eles não vão gostar. E isto também obriga-me a estar sempre constantemente a ouvi-los. Mas já sei mais ou menos o que é que eles não vão gostar e às vezes também me corre mal. Às vezes eles dizem tipo: "Este foi uma porcaria." E eu: "Desculpem".
Sim, também estás a testar.
Claro.
Ainda bem que tens tantos sábados para ir testando.
E acho que irrita as pessoas, algumas pessoas, falar de dinheiro quando eu falo do Run Club, porque as pessoas não sabem o trabalho que está por trás. Eu acho que tu tens essa noção, porque tu também vais, sempre te envolveste e tens noção do que é fazer conteúdo e fazer eventos, mas muita gente não faz ideia.
Tu organizas um evento por semana, a organização de eventos é dificílimo.
As pessoas dizem todas: "Mas o que é que tu fazes no dia a dia?" E eu: "Muita coisa, confiem."
Sim, eu adoro os teus TikToks de: "As pessoas não sabem que eu tenho trabalho, mas eu vou vos mostrar o que eu faço no dia a dia."
E sou sempre eu a tentar provar às pessoas, é horrível, eu já disse. Às vezes quando as pessoas me dizem: "Mia, mas tu tens trabalho?" Eu digo: "Para de dizer isso, vou para o psicólogo."
Mas dizem-te mesmo isso?
Dizem-me. E depois eu tenho mesmo que ir para o psicólogo, porque eu luto por mim constantemente a tentar gravar vídeos ou a tentar mostrar o meu trabalho para justificar que isto são pessoas.
Eu também já tive nessa fase.
Que é horrível.
As pessoas também não têm bem noção do trabalho que está por trás da estrutura que eu montei. E só convivendo comigo é que tu consegues ter um bocadinho dessa realidade.
Completamente.
Porque senão aquilo que passa para fora, para quem não está no meio, para quem não tem ideia, eu acredito que está tudo bem ter essa opinião.
Sim, já estás em paz. Está tudo bem ter essa opinião. Eu estou assim: "Vocês têm que mudar de opinião."
Eu percebo. Mas eu acho que com terapia tu vais chegar a um ponto em que isso vai estar lá dentro.
Eu acho que eu estou melhor, mas sim.
Eu estou a cumprir o meu propósito, estou a fazer uma coisa incrível e estou a ganhar dinheiro, ganhar o meu e não estou a chatear ninguém.
É.
O que tu precisas mais?
É verdade.
Não tens de provar nada a ninguém. O caminho é teu, estás a fazer uma cena fixe, com impacto.
Tenho de me lembrar mais vezes disso. Mas sim, estou sempre a tentar mostrar e provar. E depois mesmo essas coisas de estar sempre a dizer: "Olha, eu não saio nunca ao sábado, sou eu a tentar justificar que pelo menos eu faço isto, que é tenho de estar aqui todos os sábados." Mas eu sei que não preciso de estar a justificar. E sei que a minha comunidade, pelo menos a mais próxima, que eu conheço bem, está super ok com isso.
Sim, quem importa, se calhar não precisas de justificar para essas pessoas.
E são amorosos, as pessoas da minha comunidade são mesmo amorosas. Eu agora fiz anos era num sábado e chegaram lá e levaram uma garrafa de vinho. Um que eu se calhar já não conheço tão bem, levou-me uma nécessaire que comprou na Primark. As pessoas são amorosas comigo e às vezes quando nós até pomos inscrições à venda para coisas que são de borla, diz lá para pôr zero euros, por exemplo. Só que temos de ter inscrição às vezes porque há marcas e isso tudo que pedem seguros, então nós fazemos a inscrição. E as pessoas às vezes dão na mesma dinheiro. No fim ganhei tipo 40 €. E não é pelo valor, porque claramente não é 40, mas é pelo gesto. Às vezes as pessoas ficam: "Mia, tu mereces, tu tens trabalhado imenso por isto e nós nunca pagamos absolutamente nada. Toma lá isto."
Que giro! Eu acho que isso é mesmo a diferença de negócios à base da comunidade e que hoje em dia se ouve tanto falar, mas às vezes usa-se um bocadinho, eu acho, de forma um bocado barata a palavra comunidade.
Completamente.
E não sabem mesmo o que está ali no core, que é mesmo aquilo que estás a dizer de pensar sempre no outro.
Completamente. Pensar sempre pelo grupo e antes de ti. Não pode ser egoísta.
Porque o grupo vive de toda a gente e não só da Mia. Eu estava a ter este fim de semana uma conversa, fui a uma palestra do IPDJ, que tu também fizeste parte da campanha.
Da Semana Europeia do Desporto?
Sim.
Eu fiz uma corrida no sábado passado, era a propósito disso.
Sim, mas era o fecho daquela campanha ativa.
Sei.
Também fizeste uma corrida com eles.
Já sei, em Lisboa, não era?
Sim. E houve a sessão de encerramento, eu fui lá, estava lá eu e o Paulo Piedade. Estávamos a conversar sobre a comunicação de desporto e eles estavam a perguntar-nos a nós, influenciadores e criadores de conteúdo, de que forma é que instituições deste género podem chegar aos jovens e podemos alterar estes valores, estas estatísticas. E tu, enquanto run club, tu sentes falta de apoios? Achas que essas instituições, organizações, podiam fazer alguma coisa diferente?
Eu adoro falar deste lado mais um bocadinho de política, mas também tenho sempre um bocado medo, mas vou com precaução. Sim, eu acho. E eu acho que nós não temos apoios. Acho que precisávamos. Acho que, por exemplo, a Câmara do Porto está num ótimo caminho, porque, por exemplo, eu sou embaixadora da juventude da Câmara do Porto e eles estão de olho em mim e sempre que eu quero fazer algum projeto, sinto que as portas estão abertas, não para me facilitar, porque as licenças e as coisas são iguais para todos, mas para me ensinar a como fazer e valorizam muito e sempre que há iniciativas deste género, da Semana Europeia do Desporto, o IPDJ e assim, chamam-me para representar e algumas vezes já foi apoiado financeiramente para criar este evento, que não deixa de ser uma prestação de serviço para a Câmara. Portanto, eu acho que, e acho mesmo que o Rodrigo Passos e o Pedro Duarte, que estão na Câmara agora, estão muito mais voltados para o desporto e até não sei se viste agora também a Alameda ontem da Zantas estava fechada para cycling, houve uma aula de cycling enorme.
A sério? Não sabia, giro.
E acho que se tem visto mais coisas de desporto na cidade e acho que eles estão a potenciar isso, mesmo as meias maratonas, tudo. Acho que eles fazem um bom trabalho. Mas acho que estes processos de pedir apoios e assim são demasiado difíceis e são para quem os sabe fazer, mas aí também é culpa minha, eu acho que tenho que aprender a fazer esses processos de recrutamento, esses pedidos todos, papéis para escrever. Mas, por exemplo, eu já tentei contactar o IPDJ porque tinha um projeto, que tenho, que é o Run Club On Tour, em que o objetivo não é o que é o Run Club.
A chegar a outros lados.
Chegar a outros lados, é ajudar esses run clubs, porque esses run clubs precisam ainda mais apoios do que nós.
Como assim? É ajudar run clubs de outras cidades?
Exatamente. Imagina, o Porto e Lisboa têm sempre patrocínios. Eu tenho a Super Bock, Lisboa também tem outros patrocinadores, mas cidades um bocadinho mais pequenas, e não necessariamente muito mais pequenas, mas tipo Guimarães, Braga, Aveiro, têm run clubs ótimos que muitas vezes não sobrevivem porque essas pessoas trabalham, não conseguem arranjar patrocínios, porque as marcas estão todas a olhar para o Porto e Lisboa, que têm naturalmente muito mais gente. E o que acontece é que esses run clubs vão acabar ou muitas vezes não conseguem servir a comunidade como era necessário, porque não têm financiamento. Portanto, ainda mais dá mais este objetivo do Run Club On Tour, é ir lá, fazer um evento com eles, passar um bocadinho da minha experiência e depois criar uma rede nacional, uma rede de run clubs, em que sempre que eles quiserem, tipo há pouco tempo o Diogo teve uma reunião com o Barack, de Guimarães, ensinei-lhe a fazer um post do género do nosso. E por acaso até tivemos pessoas a copiar-nos e o Diogo por acaso é amoroso nisto, manda sempre mensagem a dizer: "Olha, não precisas, queres sentar e eu ajudo-te a fazer." Porque o Diogo fez isso comigo. O Diogo trabalhou para mim um ano no Run Club que eu acreditava de borla. Portanto, nós não guardamos só para nós o nosso conhecimento e queremos ajudar os outros. E, portanto, o nosso objetivo é ir lá, fazer uma corrida com eles e depois criar esta relação e ao mesmo tempo dar-lhes exposição através do nosso Run Club, não sei, e ajudá-los. E, portanto, eu achava que isso era um projeto que podia ser financiado pelo IPDJ. Ainda não consegui falar com eles. Até agora foi sempre por os municípios, que também foi bom, só que não é assim tão fácil. Fomos a Penafiel com a Câmara de Penafiel, que foi muito fixe. E depois é fixe porque esses run clubs vão lá e estão lá para o propósito que a Câmara nos convidou, mas já começam a criar essa relação com a Câmara. Aliás, da última vez que eu fui, estava tipo: "Estão a ver? Olha, eu sou do Porto, não tenho nada a ver. Estão a ver estas pessoas? São ótimas para a vossa cidade, eles estão a mexer os jovens, portanto, conversem." É bom criar essas relações. É um bocado ingrato irmos buscar alguém do Porto para ajudar a criar essas relações, mas ao mesmo tempo é um ponto de início. E aliás, a primeira vez que nós fomos a São João da Madeira, eles queriam que nós fizéssemos a corrida lá. Eu disse: "Desculpe, não, eu não vou. A ideia é vocês aproveitarem os recursos que têm da vossa cidade, vocês têm pessoas daí." E os projetos não podem nascer, e é aqui que eu também às vezes critico um bocadinho os projetos das câmaras e assim, é que são construídos de cima para baixo. Estão lá em cima, sentam-se numa mesa e dizem: "Vamos fazer este projeto" e lançam para a comunidade, depois não têm adesão. Se fores ver os projetos, normalmente que os municípios fazem, não têm assim muita gente.
Mas depois quando já estão ali criados ali embaixo, não vão lá aproveitar.
Não vão aproveitá-los A minha ideia quando fui a S. João da Madeira foi: "Se não se importar, vamos marcar uma reunião com as pessoas que são importantes da cidade para discutirmos como é que vai ser o evento e vamos construir isto em conjunto." E ele reuniu com outros run clubs que tinham lá, sentámo-nos todos à mesa e com a câmara. Também já é incrível ver estes municípios e estas pessoas tão abertas. E eu fui, cheguei lá e disse: "Não, vamos nos sentar à mesa."
Tu estás a organizar reuniões de condomínio, não é?
Exato. Usem as vossas pessoas. Aí foi bom, porque já tive dois municípios a apoiar. Ainda não consegui ir a mais lado nenhum, porque ainda não tive, porque isto só tem os custos das deslocações. Nós estamos a gravar também para o YouTube, portanto também tem esse custo. Ainda não consegui.
O projeto é muito giro. Mas tu nunca pensaste em criar o Run Club noutros sítios?
Não, por causa da minha cara. Porque primeiro tenho medo de perder os valores, porque por mais que eu possa conhecer bem a pessoa, eu não sei como é que a pessoa vai gerir a comunidade de lá.
É difícil de tomar essa decisão. Muitas vezes, quando começa uma coisa a crescer, a pessoa ambiciosa quer estar para todo lado, porque isto está a correr bem.
Mas depois achas que corre mal, não é?
Pois, é um passo maior que a perna.
E o meu sempre foi: prefiro fazer um e fazer um bem do que fazer muitos e fazer mal ou fazer mais ou menos.
E apesar de ser só do Porto, em todo lado conhecem o Can Run Club.
Sim, eu sempre que vou a Lisboa, não temos tanta comunidade. Não tenho afinidade com Oeiras.
Não, mas as pessoas de lá conhecem.
Conhecem, sabem quem são.
"Ah, aquele do Porto."
É isso. O nosso trabalho ainda não está assim tão bem feito a nível nacional, mas eu não preciso, lá está, eu sinto mesmo que é aqui que eu quero estar, nesta cidade, e nós vamos pôr o Porto no mapa. Aliás, esse também é um objetivo: as coisas que acontecem sempre em Lisboa. As melhores coisas estão sempre em Lisboa e não, nós tivemos o maior run club até agora e começou aqui no Porto e o Porto também consegue fazer coisas incríveis. Acho que nem sempre tem que se ir para fora. Acho que já consegui chegar a uma parte em que a minha voz já é ouvida e depois vai ser ouvida naturalmente a nível nacional. Ainda há pouco tempo eu também estive em Roma num projeto que era sobre construir comunidades e também ganhei um prémio de projeto mais inovador. Também vou indo assim fora e tentando espalhar a mensagem e aprendendo muito.
Eu consigo olhar para o teu run club e claramente diferenciar de outros e perceber que a nível de impacto e de propósito tem ali algo mais. Mas tu sentes que tens facilidade em comunicar isso? Porque imagina, há tantos run clubs que se calhar até é difícil das pessoas de fora perceberem.
Mas imagina, a mim não me interessa que as pessoas percebam. É o que eu digo sempre. E é aí que também entra quando estávamos a falar disto de faça para ti e pedes dinheiro e te sentes apoiada. Também é difícil sentir-me apoiada, porque eu não levanto as bandeiras todas e é aí que eu acho que as coisas às vezes também estão mal estruturadas, que é: se eu tivesse um projeto que dissesse: "Isto é um run club para ajudar na saúde mental" e estivesse sempre a levantar essas bandeiras e a minha comunicação fosse extremamente sobre saúde mental, se calhar eu conseguia pedir mais apoios, se calhar eu conseguia ganhar mais visibilidade nesse campo, mas ia perder a comunidade.
Perder do outro lado.
Porque as pessoas querem vir porque isto é fixe, não querem vir porque eu vim para aqui falar de psicologia, sobre saúde mental e de impacto. Aliás, quanto mais às vezes eu acho os projetos sociais são para pessoas com deficiência, pessoas com não sei o quê, menos as pessoas querem ir. Aquilo é uma caixinha. E, portanto, o meu objetivo não é criar uma caixinha, dizer: "Eu vou a este projeto." Quase que também se o meu projeto run club fosse só sobre saúde mental, parece que as únicas pessoas que vão para lá são pessoas que estão a lidar com problemas de saúde mental. E inevitavelmente ainda há um estigma em relação à saúde mental. Portanto, eu não quero levantar bandeira nenhuma, não me interessa minimamente o que é que as pessoas veem, não me interessa qual é o motivo que as traz. Não quero saber, nem sequer quero associar isso à pessoa. Às vezes perguntam: "Mas tu tens pessoas com vulnerabilidade, tens pessoas com deficiência, tens pessoas de algum bairro social?" Não sei, nem quero saber. E isso é a maior inclusão que existe. As pessoas na verdade são exatamente iguais, portanto, não me interessa. Não me interessa também comunicar isso para eles. Claro que sempre que tenho plataformas em que posso ir falar como esta, como coisas da câmara, amanhã vou falar numa escola sobre saúde mental e desporto, eu falo e crio essa voz para que se perceba que mesmo os projetos que são divertidos e que têm bom marketing e que são bem estruturados e engraçados, não quer dizer que não sejam projetos com valor e com impacto.
Se calhar tens um bocadinho mais de dificuldade associando depois à parte mais de dating apps e de perder um bocado mais a credibilidade da mensagem que queres passar. Mas é este tipo de conversas que-
Mas depois vou a essas conversas e digo: "E qual mal temos uma dating app? Bora lá falar sobre dating apps e sobre os places de conhecer."
É isso, eu acho que é mesmo essa questão de tentarmos pôr rótulos em tudo.
É, não é?
Tudo em caixinhas.
E eu acho que não tem que ser e acho que mesmo se eu começasse a falar demasiado isso, as pessoas não queriam saber. Volta e meia eu tento e acho que as pessoas de alguma forma até se sentem interessadas, mas se caso falasse demasiadas vezes já não queriam saber. Portanto, vou falando de vez em quando.
E a tua relação com o desporto, como é que está?
Está boa.
Já gostas mais de correr?
Já gosto muito mais de correr, mas estive há pouco tempo naquela fase de toda a gente tem os olhos em mim, eu tenho que ser rápida.
Sentes isso, sentes pressão?
É horrível, odeio essa parte. É que há uma parte mesmo fixe, que é eu adoro isto da saúde mental, impacto meio política, mas eu nunca quis que a minha influência fosse de desporto. Aliás, eu nem sequer sou parecida com influência do desporto. Eu bebo, eu faço tudo mal. Eu não durmo as horas direitas, eu não mando uma para a caixa. Claro que escondo um bocado, porque sinto que tenho os olhos postos em mim e devo influenciar pela positiva e não pelos meus hábitos menos saudáveis. Mas eu não sou um reflexo.
Não, o equilíbrio também é saudável.
É isso, e eu promovo isso. Às vezes digo: "Olhem eu, bebo fines." Sei que agora Super Bock 0,0 estamos muito melhores sem álcool. E eu bebo muito mais Super Bock 0,0 e vidas sem álcool agora, porque também fui aprendendo e quero ser. Mas até agora, sim, senti que as pessoas, aliás, eu fui a uma meia maratona de Lisboa e uma marca no fim veio ter comigo e disse: "Olha, desculpa, por que tu demoraste tanto tempo para fazer esta meia maratona?"
Ah, não é possível.
Os meus amigos ficaram assim.
Disseram-te isso?
Eu disse, porque eu demorei 2 horas e meia, mas eu tinha uma amiga minha que eu estava a lhe encostar e eu fui com ela, quero lá saber. E diverti-me, foi das que mais me diverti. E eu disse: "Olha, estava perto da minha amiga." E ela: "Mas já chegou toda a gente do teu run club e tu és a última." Portanto, isso irrita-me. Que as pessoas queiram ver se eu vou para o IRON, se eu não vou, se eu passo, se eu não passo.
Mas se tu estás imagina, vais representar uma marca, por exemplo, agora vais correr a de Valência, como eu vou. Sentes pressão de ter tempo?
Não, porque o quevery é fixe, quem me deu é fixe. E foi meio que eu que pedi. Então não foi tipo tu tens que. Essa não, acho que não. E acho que o quevery também estamos alinhados com o que eu transmito. Quando fui à da Xiaomi, senti mais pressão em fazer melhor.
Estavas a representar a marca.
Mas se tu fores a ver quem é que representa os run clubs de mulheres, são tudo atletas. A minha competição, que não é competição, porque eu amo-as, mas é a Bia Moura, que é ótima, é a Joana, que é ótima, é a Cláudia, que é ótima, e eu não sou.
Mas não é competição. Estás a dizer é competição, mas não é competição.
Para nós não é, porque nós somos todas OK, mas as pessoas lá de fora estão a questionar: será que ela acompanha? Será que ela vai fazer bons tempos?
Eu, por acaso, sinto que estou dentro da bolha do esporte, dentro deste mundinho, mas sempre com um pé de fora.
Tu não sentes a pressão, porque tu também praticas bué esporte.
Eu sinto a pressão comigo, porque defini comigo que em Valência quero fazer um tempo. E o fato de eu comunicar para fora traz me accountability que estou a comunicar que tenho este objetivo. Se não cumprir, vou me sentir uma merda.
Vais dizer aqui? É 1h59, abaixo de duas horas?
É, abaixo de duas horas.
Então vens comigo, que eu também vou com a Vicky para fazer abaixo de duas horas.
Mas sinto a pressão porque eu própria me defini isso para mim, mas já fiz um IRON que eu só queria acabar. Todas as provas que eu fiz até então nunca foi com pressão, porque eu comecei há dois anos a correr 2 km, não era atleta e acho que estamos todos em pontos diferentes. É mesmo ridículo estarmos a comparar.
Perfeitamente. E eu pressão a mim mesma não ponho, até porque se eu pusesse pressão a mim mesma tinha começado a treinar disciplinada e eu sou pior.
Eu o que penso é: isto também não é a minha vida. Eu faço tanta coisa na minha vida e corro.
Para mim não dava para ser muito melhor, porque eu não consigo ser disciplinada. Nunca tive um treinador. E eu faço os treinos que as minhas amigas fazem. Minha amiga diz: "Hoje tenho 18." Eu digo: "Hoje tenho 18." Eu corro como me apetecer, eu não corro com relógio sequer. Portanto, eu nem meço. Vejo só no telemóvel, eu corro de telemóvel, mas não sei os ritimentos, não sei nada. Eu corro por perceção de esforço há três anos. Faço o que as minhas amigas vão fazer. Se não for correr hoje, vou correr amanhã, é muito indiferente. Portanto, eu nem sequer tive um treinador, porque se eu tiver, eu vou deixar de gostar de correr. Eu gosto mesmo do
Eu por acaso sentia isso.
Com essa leveza.
Sentia isso, mas eu sou uma pessoa
Mais type A.
Estávamos a falar de signo. Eu sou Virgem, sou type A.
Pois, eu também sou type A.
Sou bué organizadinha, meu calendário está ao minuto e descansa-me. Eu agora estou com o Nobre, da Alcance, em que me passa os treinos, tipo training peaks, e eu vou lá e vejo o que é que tenho para fazer. Eu adoro, porque eu não tenho que pensar no que é que vou ter de fazer. E está lá e tenho alguém a ver se eu estou a fazer. Isso aí descansa-me, porque eu sou assim. Mas é para mim, eu não comparo, não olho para os tempos das outras pessoas, porque o que isso tem a ver com o meu tempo, com o meu percurso, com aquilo que eu estou a fazer. E acho que o mundo, às vezes, do desporto e da corrida, pode ser um bocado intenso desnecessariamente e tirar um bocado desta parte fixe que é só, faz-nos bem.
É, porque correr.
Ya, faz-nos bem.
Eu não corro por mais nenhum objetivo, sem ser passar ali um bom bocado. E os meus amigos dizem: "Mia, se tu começasses a treinar a sério, tu portasses-te melhor, tu eras ótima." E eu: "Mas eu não quero, eu amo um copo de vinho ao final do dia, não dá."
Eu não amo um copo de vinho, mas a Glória diz-me muitas vezes: "Se tu seguisses mesmo tudo direitinho, tu ias conseguir melhorar imenso o teu pace." E eu: "À custa de quê?"
Às vezes eu penso assim, maybe. Quando o meu trabalho estiver estabilizado, eu precise de outro novo desafio, se calhar, é por aí que eu vou. E começo a treinar, mas eu agora não preciso.
É isso.
Então maratonas é que eu digo mesmo para mim não é. Estamos sempre a procurar pela maratona.
Mas imagina, eu gosto de ter um objetivo. A mim sabe bem ter. Eu tenho agora esta prova, que tenho esse tempo, e depois eu sei que vou precisar ter alguma coisa. Só para, lá está, type A, orientar os meus treinos para um lado.
Eu não, eu fico bastante fixe. Agora posso deixar de correr, vou só correr ao sábado, não tenho que correr tanto, tranquila. É tipo, já passou este. Mas eu também quero fazer 1h58.
Mas já fizeste abaixo de duas horas.
1h59, e agora quero 1h58. Só baixar um minuto para ser PR, portanto é para isso que eu vou. E a Vicky vai também para fazer 1h59, uma amiga minha, então vou ver se puxamos uma pela outra.
Nós vamos algumas as duas, portanto acho que vai ser giro. Vamos estar todas em grupinho. Achas que esta moda vai passar? Dos run clubs, das corridas.
Imagina, o que eu digo é que isto, e isto foi uma pessoa que me disse há pouco tempo, que foi o Vítor, do Correr por Prazer, que me disse: "Correr não está na moda, porque se fores a ver, as pessoas continuam a correr." E normalmente uma moda é uma coisa que vem e vai, e vai embora. E a corrida não é isso, as pessoas entram porque está na moda, mas depois a maior parte das pessoas fica na corrida. Depois é muito difícil as pessoas deixarem este desporto, porque acho que as pessoas depois começam a gostar imenso. Portanto, uma moda é uma coisa que vem e volta e eu acho que a corrida não vai e volta. Se calhar este pico de pessoas a entrar para o desporto pode baixar, mas vamos sempre estabilizar e as pessoas que entraram vão continuar. Portanto, eu acho que a corrida não vai deixar de ser.
Mas depois tens outras modas, tipo o IRON, os IRONMANs.
Essa está bué ou não está? Eu no outro dia fiz um vídeo para treinar para o duelo, teve logo mais visualizações e é isto que vocês gostam, já não é corrida, é IRON.
Estão sempre a surgir coisas novas. Sei lá, fui agora à minha agência semana passada, sentamos para fazer reunião, como é que as coisas estão, não sei o quê, então quais são os teus próximos objetivos? Vais ser um IRONMAN? E eu tipo não. Nem sei nadar direito.
Fazes ciclismo.
Nem sei nadar direito. Mas parece que temos sempre de fazer todos o mesmo caminho.
No desporto.
Ya.
Podemos inventar outros, fazemos. Eu agora estou no surf.
Eu vi.
Está bué fixe, agora vou parar no inverno, também não faz sentido.
Mas no inverno é quando tens melhores ondas.
Mas eu ainda estou, eu por acaso acho que já apanho grandes ondas e eu estava a ver umas fotos e disse: "Tá, será que é isto que eu apanho?"
Mas achas que depois se começar um desporto do zero, achas super fixe.
Também, eu aliás, eu já gosto disso. Quando eu começo a ficar no ponto de aperfeiçoar, como a corrida, por isso é que eu não vou para essas partes, já não gosto, porque eu não gosto desse detalhe, eu não sou nada perfecionista. Portanto, para mim é começar, ficar mais ou menos, acabou. Eu andava na dança, depois começam a me dizer: "Faz assim, assim." Já não quero saber dessa parte dos pormenores, já não gosto.
Sim, só me estava a divertir e agora já está a pôr pressão.
Completamente. Já não deixam logo de o fazer.
Não é um hobby.
O surf é isso, mas ainda estou a aprender, ainda falta muito.
Eu estou no ténis e paddle e não sei o quê. É totalmente isso. Sou uma nódoa, mas é bom ser uma nódoa.
É muito fixe. Eu rio-me imenso quando me ponho a gravar e não me olho. E eu estou a rir comigo mesma e penso: "Isto é muito bom."
É que eu estou a sentir que estou a ser mesmo boa. De repente vou ver o vídeo.
É muito bom.
Que desgraça!
Acho que também podemos inventar outra moda qualquer. Mas a corrida eu acho que vai ficar. O Ironox, na verdade, eu já vou mais ou menos, que agora estou a treinar para um dual, que é em janeiro.
É Ironox?
Só que é 400 metros só de corrida e são outros exercícios. Alguns são os mesmos, outros são diferentes, mas já é dia 11 de outubro, portanto faltam duas semanas.
Está mesmo quase.
Já só fiz um treino, vamos fazer quatro e vamos. Na verdade, vamos seis, mas é sempre em duplas.
Mas é cá?
É em Aveiro. Vamos todas vestidas igual, vamos para nos divertir e está.
Que giro!
Não vamos para competir.
Mas Ironox nunca pensaste fazer?
Se gostar de fazer este dual, depois eu penso no Ironox.
Sabes o que deve ser giro? O relay. Quatro pessoas, deve ser giríssimo.
E mesmo já pensei nisso para natação, ciclismo e corrida. Outro dia a Vicky foi fazer isto com os meus amigos, que é um faz natação, outro faz ciclismo e outro faz a corrida.
Isso é giro! Sempre quis ter o teste de nadar.
Eu devia ter escolhido os amigos, a minha amiga foi fazer assim.
Que fixe! Não sabia que havia.
Eles não sabem de qual dia devem ficar com a corrida, mas são muito bons.
É distâncias triathlon ou de...?
Eu acho que há vários. O que elas fizeram era pequenino. Já não me lembro.
Que giro!
Mas eu tinha que ir para a corrida. Podemos fazer, eu vou para a corrida, mas não sou muito boa. Tu vais para o ciclismo, mas não podemos pôr a Joana a nadar, que a Joana é boa demais, depois vai ficar chateada que nós estragamos.
Depois vai-nos pôr pressão a nós.
Tens que arranjar alguém que esteja a começar a nadar.
Como é que vês o, se calhar nem pensas nisto, mas como é que pensas no Run Club daqui a cinco anos?
Já está, não penso. Não penso porque é o que eu digo, eu acho que as pessoas daqui a cinco anos ainda não sabem o que é que querem.
Nem tu sabes, não é?
É isso. Por isso, como eu construí isto com eles, para eles, eu vou ouvindo e vou alterando.
E daqui a seis meses?
Se calhar daqui a cinco anos, nem sei. Eu às vezes tenho tanto medo que isto acabe. Daqui a cinco meses?
Seis meses.
Seis meses.
Meio aninho.
Olha, quero fazer outro Run Club Games, que foi aquilo que nós fizemos, não foi?
Eu até falei aqui no podcast sobre isso, que eu adorei.
Foi muito giro.
O resto da manhã foi tão fixe. Estava tanta gente na mesma vibe. Eu adorei.
Quero fazer mais este tipo de eventos. É difícil de chamar público quando ainda foi a primeira vez. Estávamos ali um bocado tipo: "Será que as pessoas vão perceber o que é?" E acho que foi difícil, mas depois as próximas edições acho que vão ser mais simples. Mas acho que estou entusiasmada. Os sábados já estão supersolecitos. Eu já não perco tanto tempo com o sábado como perdia antes. Já está uma dinâmica aliada. Mesmo o Diogo faz os posts, a Xica faz as redes sociais, eu giro com a marca, faço a produção e montamos, mas está fácil. Portanto, agora já penso sempre qual é o próximo mega evento e trabalho para isso. Foi o Run Club Games, depois foi a meia maratona, que fizemos a semana toda de eventos. Agora vão ser os três anos do Run Club e depois ando sempre a pensar o que eu vou fazer mais mega, gigante.
Era isso que eu te ia perguntar, se tu no teu dia a dia, como tens tanta coisa para tratar, até sábado, se tens espaço para pensar noutras coisas para a frente. O "Run Club On Tour" também é um projeto que tiveste de ter espaço para criar outra coisa dentro.
Consigo criar três, quatro ao ano, para além do sábado, não é muito. Mas por exemplo, uma das coisas que eu estava a dizer que queria imenso fazer é estudar o impacto. Eu tenho que escrever uma pequena texto, tenho que fazer uma pesquisa e estudo, e ainda não consegui. E é o que eu mais queria.
Por isso é que no meio disso também não podes estar a pôr objetivos de querer ser atleta.
Eu acho que não dá.
Que não dá.
Nem quero gravar imenso para as minhas redes sociais, porque depois também não tenho tempo, porque também muita gente me diz: "Tens é de publicar todos os dias, agora cresce a tua marca." A verdade é que eu às vezes penso, quero crescer enquanto perfil pessoal, porque isso também dá dinheiro. Vamos ser honestos, e é fixe.
Claro.
Só que tenho que editar, eu não gosto de editar, e tenho que ter tempo para programar o que vamos fazer, porque eu acho que há pessoas que fazem ótimo conteúdo, só que é preciso tempo para fazer esse ótimo conteúdo. Eu acho que fazes ótimo conteúdo de livros, de reflexões, mas isso dá imenso trabalho, tens que estruturar isso tudo. Eu se tiver que escrever um guião, já não quero fazer o vídeo. Quero é falar e ligar a câmera.
Sempre estás com imensa coisa que não te dá espaço. Eu também quando estou com muita coisa a acontecer, o que fica para último é o conteúdo orgânico, que é mais trabalhado, porque isso aí é o extra.
Mas isto também está mal.
É o que me leva a diferenciar de tudo aquilo que já existe.
Mas acho que também está mal, porque sendo vida de pessoas criativas e que trabalham neste ramo, eu acho que precisam de pausas. Para vir mais ideias e às vezes eu também estou demasiado neste motor que está a trabalhar e paro e não tenho ideia nenhuma, estou só a trabalhar contra a máquina.
São sprints, devias trabalhar em sprints, só que tu como tens todos os sábados, uma coisa que eu falo muito.
Não dá tempo de pensar noutra coisa.
Sentei-me agora também há pouco tempo com o Manuel Pádua Brandão outra vez, e já me lembro da primeira conversa que nós tivemos, que falamos muito disto, de trabalhar por sprints, de tu estares focada uns meses numa coisa, num projeto, mas depois teres espaço para descansar, para pensar.
Descobrir novas ideias.
E para reavaliar se era aquilo que tu queres continuar a fazer.
Estavas a dizer das férias e na verdade eu digo que fico cá todos os sábados, mas eu tiro sempre três sábados, tiro sempre férias no final do ano, que é quando o Run Club está mais parado. Eu ano passado estive fora três Run Clubs, três semanas, e no fim deste ano também vou três semanas de férias.
Já dá para teres um bocadinho de espaço.
Mas escolho a altura, mas estava a dizer que não faltava e falto. Vou faltar e também vou faltar agora para o Ironman do meu namorado, que ele vai fazer.
E não é faltar. Tu tens pessoas que estão lá a estudar.
É que eu tenho sido na mesma. Mas eu não estou.
Eu acho que o caminho vai ser cada vez mais tu delegares, continuares a ser a energia, a cara e o elo. Estás mais nessa parte social, mas o resto, a máquina está a acontecer para que tudo resulte sem precisar de ti no dia a dia.
E resulta. As marcas é que não querem que resulte, mas de resto, a minha equipa faz o mesmo trabalho Sem mim lá. Eles são ótimos e confio plenamente.
Mas sentes que o run club continua a crescer ou está mais ou menos estável o número de pessoas que aparece?
Imagina, eu já estressei imenso com isso, mas já percebi que aquilo é mesmo instável. Há alturas que corro mesmo bem, outras que tenho menos gente. O meu humor às vezes ainda influencia um bocadinho o número de pessoas e vou para casa um bocado mais chateada, mas tento lembrar-me que, se calhar, na Shake Out que fizemos agora com a Hyundai, tínhamos 500 pessoas. Se calhar, no sábado passado tínhamos 120. Mas é assim. E sei que há alturas ótimas, setembro é uma ótima altura, porque as pessoas voltam à rotina, depois começamos a perder porque vem a chuva.
Sim, agosto é horrível.
Agosto é horrível. Vai havendo assim.
E comparas muito com outros run clubs?
Não, já não tanto.
Ou é mais com as tuas corridas?
Já não tanto. Sim, comparo mais com as minhas, não com os outros run clubs. Acho que estamos mesmo bem posicionados dos outros run clubs e fazemos todos coisas bastante diferentes, temos ideias completamente diferentes do que queremos do run club, portanto acho que estamos na melhor fase que já estivemos. Eu antes olhava um bocadinho mais como competição, hoje em dia acho que mesmo em termos de relação com as fundadoras, nós estamos ótimas. Acho que o Run Club Games também ajudou imenso isso. Esta coisa do Run Club On Tour também trazer mais outros run clubs para a Fiel, Guimarães, também ajudou a que estamos aqui todos para o mesmo. O que interessa no fundo é que a malta corre e seja saudável, não me interessa mais. Se não der dinheiro, eu vou arranjar outra coisa para ir buscar dinheiro.
E hoje em dia estás em paz com a tua decisão, com estares full time nisto, sentes-te realizada no teu dia a dia ou sentes que falta alguma coisa?
Não, muito bem. Sou muito feliz a fazer o que faço, mesmo.
Se calhar até trabalhas mais do que...
Sim. Há alturas que não tanto.
É picos.
Por exemplo, agora foi a altura da meia maratona, esqueci. Trabalhei horrores, depois ainda fui para Cascais fazer mais uma corrida. E eu digo sim a tudo, também estou nessa fase que acho que já notaste, pelo menos pelo que te ouço, em que tu já estás muito mais tipo: "Não, há coisas que eu vou dizer que não." Eu estou tipo: "Não, eu tenho que abrir todas as portas, tenho que dizer que sim a tudo." Portanto, canso-me um bocado por aí. Mas sim, até porque de sábado estou lá, nós temos uma corrida de raparigas que é ao domingo, é uma vez por mês.
Ah é? Que giro, não sabia.
O Run Club On Tour também normalmente é um domingo, portanto, às vezes eu não tenho mesmo fim de semanas. E à semana estou a organizar o que vai acontecer no fim de semana.
E a gravar mil TikToks, que nós adoramos.
Sim, isso é uma coisa fixe do Run Club, é que nós acho que vamos produzindo bué conteúdos.
Não, o vosso conteúdo é épico.
Estamos a tentar inovar e fazer coisas diferentes e isso é fixe.
Acho que se diferencia também muito por aí. E era isso que estavas a dizer, o Run Club On Tour também passa por ensinares as pessoas a comunicar bem.
Ya. E eu gosto muito de trabalhar em projetos sociais, porque mesmo na câmara eu trabalhava nesta área de projetos sociais. O que eu acho muito é isso, é que há grandes projetos, não sobre corrida, mas sobre outros projetos importantes, que só não chegam a mais gente porque não se sabem vender, nem têm bom marketing, nem fazem boas redes sociais, nem nada, porque há esse estigma de: "Nós somos um projeto importante e não é para ter essas brincadeirazinhas." Não têm que ter estas brincadeiras como as nossas, mas podiam saber vender melhor e claro que ainda não estou a entrar nesse ramo, mas se calhar é uma coisa que eu gostava, trabalhar mais em projetos sociais, continuar a trabalhar para além do meu. Mas pelo menos nos outros run clubs, ensinar-lhes a eles, tipo, ok, vocês já correm, mas como é que vocês vão vender isto mais, como é que vocês vão vender às marcas, acho que fui aprendendo e portanto quero passar esse conhecimento.
Eu queria também terminar por aqui, também estás já a tocar nisso, mas era para além do run club, por onde é que tu te imaginas agora no futuro para caminhos? Já pensaste nisso?
Ya, eu acho que para já só penso nessa vertente, que é construir algum caminho nesta área da psicologia, desporto, saúde mental, impacto social e para isso trabalhar à volta de outros projetos que não sejam só sobre corrida. Continuar a perceber o que é que a câmara anda a fazer e tentar envolver-me em alguns projetos. E isto de ser embaixadora também tem ajudado, que eles têm-me chamado para outras coisas e portanto, até onde me permitirem ir, eu vou tentar ir e tentar ajudar e fazer coisas fixes na cidade e em projetos daqui, por aí.
E muito para além da corrida, portanto tens a parte da psicologia que também dá para explorar muitos lados e ser um bocado também da voz da geração do Porto.
Ya.
Um bocado o elo de ligação. Não estás a levantar bandeiras, mas meio que estás a falar por nós e a tentar abrir portas para a nossa geração ter espaço.
É isso que eu sinto. Mesmo quando me chamam da câmara, chamam-me como, pelo menos sinto eu, como a voz de muitas outras pessoas. Portanto, eu também tenho essa responsabilidade, sinto-a e adoro-a e quero ainda mais envolver-me e ouvir, que é para depois poder transmitir o que muita gente não pode dizer nem consegue chegar lá, quero poder dizer e fazermos uma cidade melhor.
Mas eu sinto que as instituições já estão a perceber, pelo menos, que precisam de nos ouvir.
Ya.
E eu senti isso, por exemplo, com a conversa com o IPDJ, que é: como é que nós podemos fazer? Só o facto de perguntarem, a Comissão Europeia também está a levar imensa gente lá, mensalmente, criadores, para ouvirem. Como é que nós podemos chegar a vocês? Nós já percebemos que vocês são diferentes e estão nas redes e nós não sabemos fazer isto. Como é que nós podemos chegar aí?
Eu acho que ainda há muitos adultos resistentes à mudança, mas também há muita gente que está: "Bem, nós vamos aprender imenso com estes jovens, portanto bora ouvi-los." Eu acho que estamos mesmo no caminho certo. Claro que nós somos jovens e queremos fazer tudo para ontem, e somos precipitados e parece-nos que não, ninguém nos quer ouvir, este mundo está contra nós, mas eu acho mesmo que não estão contra nós. E há uma coisa que eu acho imensa, é que nós às vezes pomos a responsabilidade muito também em quem está lá em cima, nos políticos, na câmara, mas todos nós temos um papel nesta cidade. Portanto, eu acho que a minha mensagem também às vezes não é só para quem está em cima, mas para quem me acompanha, de se cada um de nós fizer a nossa parte e tivermos um bocadinho de responsabilidade social, ouvirmos o outro e trabalharmos por uma cidade melhor e por uma comunidade melhor, esta cidade também vai mais longe. Portanto, não é só para quem está em cima, mas nós lembrarmos que também temos um papel aqui.
Ya, não apontar só o dedo.
Ya.
E olharmos para nós.
Nós também podemos mudar a cidade, não é só eles.
Obrigada, Mia, adorei ter-te aqui. Parabéns pelo teu projeto, está mesmo muito fixe.
Obrigada, parabéns por tudo que tens feito, estou a adorar acompanhar. Está mesmo muito fixe.
Adorei esta conversa.
Também eu.
Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
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