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Saturday, November 7, 2026

Bienal de Arquitetura premia projeto que mira vida pós-tragédia em Brumadinho

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No Plano Piloto, as placas avisam que o limite de velocidade é 60km/h, ainda que muitos condutores insistam em passar dos 70. As vias de Brasília são largas, e mesmo quando o relógio marca 18h, não se vê engarrafamento. Muitos não se contém e metem o pé no acelerador.

Mas a velocidade que impressiona na capital federal é a do avanço imobiliário. Entre 2010 e 2022, Brasília teve um crescimento populacional de 9,6%, enquanto o número de domicílios avançou 49,2%, segundo dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social cruzados a partir dos números do Censo.

A discrepância reflete a mentalidade que mira mais concreto do que gente. O Brasil tem um déficit habitacional de 5,7 milhões de domicílios, segundo dados de 2024 da Fundação João Pinheiro e do Ministério das Cidades.

"Definitivamente, não é o mercado que vai solucionar a questão da moradia", disse o arquiteto Fernando de Mello Franco, na 14ª Bienal Iberoamericana de Arquitetura e Urbanismo, que aconteceu nesta semana, em Brasília.

"É preciso pensar em novas formas de financiamento e de gestão de espaços que são continuidades do espaço doméstico, onde a vida em comum acontece", afirma Mello Franco.

Brasília recebeu, no recém-restaurado Teatro Nacional e no antigo prédio do Touring Club do Brasil, projeto por Oscar Niemeyer, a Bienal de Arquitetura, sob o lema "cuidar da vida".

E as seis obras que foram premiadas pelo júri colocam o cuidado com as pessoas no centro.

O único brasileiro entre os laureados fala diretamente com o coletivo. Foi o projeto "Território-Parque", que se propôs a cuidar do Córrego do Feijão, bairro de Brumadinho (MG), cidade que foi atingida pelo rompimento da barragem da Vale em 2019.

Naquela altura, a velocidade dos rejeitos de minério de ferro abreviou a vida de pelo menos 272 pessoas, três anos após outra tragédia, em Mariana.

"Uma premiação como essa tem um reflexo importante para a comunidade. Eles vão se ver um pouco mais fortalecidos e vão se reconhecer também como ganhadores desse prêmio", diz Fernando Maculan, da MACh Arquitetos, de Belo Horizonte, responsável pela obra. Também assina o projeto a arquiteta Mariza Machado Coelho, além do escritório colombiano Connatural y Paisaje, sediado na cidade de Medellín.

O projeto não envolveu as moradias, e, sim, praças, vias e edificações que são de uso coletivo, além da escola municipal de Brumadinho. Sairão do papel um mercado comunitário, uma padaria gerida pela comunidade, uma cozinha comunitária e centro de cultura e artesanato. Há ainda um projeto de um parque ecológico, que será a última entrega.

Entre os demais premiados, um cinema flutuante do MuyunaFest, no qual os espectadores assistem a filmes em canoas no rio Itaya no Peru. Outro é o projeto "La Panificadora", no Equador, espécie de centro comunitário de formação profissional, produção e comercialização de pães. Também foram premiados o Teatro Educativo das Artes de Panguipulli, no Chile, e dois projetos de moradias populares, um na Espanha e outro no Paraguai.

A bienal é uma iniciativa do governo espanhol, que de bobo não tem nada e quer encontrar soluções urbanísticas junto de outros falantes de línguas ibéricas —que não tiveram grandes dificuldades para se entender, os lusos e os hispanos.

O problema linguístico aqui é de outra ordem. "O analfabetismo urbanístico domina a sociedade", disse a veterana Ermínia Maricato, uma das homenageadas da bienal, durante a abertura.

De acordo com uma pesquisa do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil e do Datafolha de 2022, 82% das obras no país naquele ano não tiveram a participação de arquitetos ou engenheiros. "Somos dispensáveis? Somos luxo?", indaga Maricato.

Nas conferências, falou-se da necessidade dos arquitetos saírem das bolhas acadêmicas ou de mercado, e irem para a rua falar a língua de quem não é da área e, sobretudo a língua da política, seja ela institucional ou de rua.

"Se a gente não faz política, os políticos fazem arquitetura. A gente tem que se envolver mais", afirma Matheus Seco, que é um dos curadores do evento.

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