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Friday, October 30, 2026

Defesa de Vorcaro cita dados automáticos do iPhone ao alegar 'manuseio'

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Se comprovado, o problema na cadeia de custódia poderia anular provas obtidas pelos investigadores no celular de Vorcaro. Os pontos levantados pelo banqueiro, porém, não são suficientes para lançar dúvidas sobre a guarda do material.

Eventos de tela

Segundo a petição, o celular registrou 207 eventos de tela, 33 ativações da câmera frontal e três conexões pela porta USB das 23h22 do dia da prisão às 2h25 da madrugada seguinte.

Os números constam, de fato, da extração. Os 207 eventos correspondem a 52 vezes em que a tela acendeu, cada uma anotada ao acender e ao apagar em dois registros diferentes do sistema.

A tela do iPhone acende quando o aparelho é movido, tocado ou ligado à energia. As 33 ativações da câmera foram feitas pelo Face ID, o reconhecimento facial, que tenta identificar o rosto do dono sempre que a tela acende.

Nenhuma dessas tentativas desbloqueou o aparelho. Nos dias anteriores à prisão, o mesmo registro anotava de 230 a 456 desbloqueios por dia.

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A extração do aparelho feita pela PF mostra que o celular não foi desbloqueado nenhuma vez depois das 23h22 do dia da prisão, em novembro de 2025, quando foi colocado em modo avião.

As três conexões USB citadas pela defesa aparecem nos registros como carregamento, intercaladas com um carregador sem fio. A extração foi feita com o celular ligado desde a apreensão, o que exige mantê-lo carregado.

Os registros não permitem saber o que acendeu a tela a cada vez. A PF não documentou quem manuseou o aparelho naquela madrugada nem com que finalidade, um dos pontos centrais da petição.

Procurada pelo UOL, a defesa de Vorcaro afirmou que "sem os dados brutos, que foram requeridos desde 19/02, é impossível aferir a integridade da prova".

Os advogados disseram ter identificado "indícios objetivos de modificações em arquivos e registros digitais, inclusive com datas de modificação posteriores à própria extração dos dados do aparelho" e que isso exige "esclarecimentos técnicos que não podem ser satisfatoriamente alcançados mediante a análise do material parcial disponibilizado à defesa".

A defesa lembrou que não teve acesso à "integralidade dos dados brutos produzidos na extração original".

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Modo avião

Nenhuma mensagem guardada no celular —principal elemento de prova da investigação— tem horário posterior a 23h21 do dia da prisão. Às 23h22, o aparelho foi colocado em modo avião.

Pouco antes, às 23h19, o celular foi desbloqueado com a senha para duas ligações por WhatsApp, ao advogado Walfrido Warde e à namorada de Vorcaro, Martha Graeff.

A defesa afirma também que o banco de dados do WhatsApp foi modificado à 1h48, seis segundos depois de uma conexão USB. No mesmo segundo, mudou também o banco de dados do WhatsApp Business.

As duas alterações simultâneas seguem o padrão das tarefas que o iOS executa em segundo plano quando o aparelho é ligado à energia. Com o modo avião ativo, o celular não recebia mensagens.

Registros de senhas

O laudo da defesa aponta ainda quatro "registros de senhas" criados ou modificados entre 2h03 e 2h25 da madrugada seguinte à prisão, quando o celular já estava com a PF.

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Os registros não são senhas digitadas por alguém. São entradas do chaveiro, o cofre interno em que o iPhone guarda credenciais e chaves de criptografia.

Essas entradas foram atualizadas automaticamente por serviços do sistema, como o Buscar iPhone e a sincronização entre aparelhos Apple. Nenhuma delas é senha de usuário, e não há registro de troca do código de desbloqueio.

O próprio laudo da defesa reconhece que esses registros "não permitem determinar quem operou o dispositivo" nem se houve intervenção humana. Diz também que a conexão USB não comprova transferência de dados.

Arquivos de 2026

Segundo a defesa, 657 arquivos foram modificados e 436 criados no dia seguinte à prisão. Entre os criados, 94 eram imagens.

Os arquivos pertencem a processos de manutenção do iOS, como a análise das fotos da galeria, que o sistema faz com o aparelho parado e carregando.

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O laudo da defesa afirma que as 94 imagens estão no formato usado pelo iPhone para fotografias. Os arquivos são camadas de fundo e de primeiro plano que o sistema gera para o efeito de profundidade do papel de parede.

A petição cita também 340 arquivos com "data de modificação" em maio de 2026, seis meses depois da extração. Todos são imagens guardadas pelo aplicativo de entregas iFood.

Em todos os 340 arquivos, a data de modificação cai exatamente 180 dias depois da data de criação, em novembro de 2025. A ferramenta usada pelo app para guardar imagens grava nesse campo a data em que a imagem deve ser apagada do celular, e não a de uma alteração.

O laudo da defesa identifica a ferramenta, mas não menciona esse funcionamento. O relatório da extração foi gerado pela PF em novembro de 2025, já com essas datas.

Cadeia de custódia

Segundo o perito da defesa, o termo de apreensão não traz o número de série nem o IMEI do aparelho, e o campo do lacre está em branco no ofício que pediu a perícia. O UOL não teve acesso a esses documentos.

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O perito afirma ainda que não há fotos dos lacres e que o laudo da PF não informa a versão da ferramenta usada na extração nem como o bloqueio do iPhone foi superado.

Os advogados pedem desde fevereiro os arquivos brutos da extração. A PF entregou à defesa um relatório gerado a partir deles, num formato que pode ser filtrado e reeditado.

O laudo da defesa mostra como alterar uma mensagem num relatório desse formato, em teste feito com um arquivo público de treinamento, para dizer que a extração do celular seria editável após ser realizada.

Na realidade, o hash do pacote entregue confere com o registrado no laudo da PF, assinado dois dias após a prisão, segundo o próprio perito da defesa. O hash funciona como uma impressão digital do arquivo, que muda se o conteúdo for alterado.

Qualquer edição feita no relatório depois do laudo, portanto, alteraria o código. O próprio perito reconhece que o teste "não demonstra alteração do relatório deste caso".

O hash não cobre o intervalo entre a extração e a geração do relatório. Sem o arquivo bruto, a defesa não consegue conferir se o relatório corresponde a tudo o que foi extraído do aparelho.

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A defesa diz que Vorcaro não reconhece "a veracidade de vários dos conteúdos" divulgados pela imprensa. A petição pede a soltura do banqueiro, que voltou a ser preso em março.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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