Aliados de Motta fazem contas para mantê-lo na presidência da Câmara e Centrão fala em ‘autopreservação’

Nomes do Centrão lembram que, nos últimos anos, o Congresso ganhou força justamente por não ter um alinhamento automático com o Poder Executivo. Foi isso que permitiu, por exemplo, o avanço das emendas parlamentares.
Outro argumento é que a direita está avançando sobre as cadeiras de partidos do Centrão no Congresso. Por isso, não haveria interesse desses partidos de fortalecer, ainda mais, o PL.

Agora no g1
“O PL cresceu, mas dificilmente terá, ao mesmo tempo, a presidência da República, da Câmara e do Senado, isso enfraqueceria todos os outros partidos”, diz um interlocutor do presidente da Câmara.
Antecipação do debate
"Com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, com maioria na Câmara para fazer o presidente da Câmara", disse Flávio na última semana, em um evento em Goiânia (GO).
As sinalizações do PL fizeram com que Motta ligasse o alerta antecipadamente e já começasse a articular a manutenção da sua cadeira. Segundo aliados, ele tem às mãos para negociar, por exemplo, a próxima vaga aberta no Tribunal de Contas da União (TCU), relatorias de propostas, distribuição de cargos na Mesa e nas comissões e a negociação sobre as emendas.
O líder do PSD na Câmara, deputado Antônio Brito (PSD-BA), em reunião de líder nesta terça-feira (13) — Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
O presidente da Câmara também tem se articulado em conversas com seus aliados de primeira hora. Entre eles, os líderes do PP, Dr. Luizinho (RJ), e do MDB, Isnaldo Bulhões (AL).
Além disso, a expectativa é que ele conte com o apoio de partidos como o Podemos e os partidos de esquerda (PT, PSB, PSOL, PCdoB, PDT, PV, Rede) que, juntos, terão 124 deputados federais.
Resistências do PL
- 🔎Para levar a vitória, é necessário ter a maioria absoluta entre os votantes. Se votam 500 deputados, por exemplo, se torna presidente da Câmara o candidato que receber 251 votos.
Esses interlocutores lembram que, quando Lula venceu a eleição de 2022, os partidos de esquerda reuniam cerca de 130 deputados e não tinham votos para garantir, por conta própria, o comando da Casa.
Nesse cenário, Motta teria mais a ganhar preservando a interlocução com diferentes campos políticos do que se alinhando integralmente ao eventual governo. A aposta é que, na próxima legislatura, a capacidade de reunir votos entre os próprios deputados será determinante para definir quem comandará a Câmara.
Ao anunciar apoio à eleição de Flávio, o deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), presidente da sigla, disse que, apesar do posicionamento do PL, o próprio Flávio não tem resistências a Hugo Motta.
Flávio Bolsonaro (PL) e integrantes do partido Republicanos durante anúncio de apoio no segundo turno — Foto: Reprodução/ TV Globo
Duas Casas, dois partidos
Outro argumento colocado por aliados de Motta é que a prioridade da direita, neste momento, tem sido o comando do Senado. O senador e coordenador de campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), não esconde que seu sonho político é chegar ao posto.
- 🕰️No Congresso, existe a máxima de que o mesmo partido não costuma comandar as duas Casas. Ao longo dos anos, houve exceções: em 2015, Renan Calheiros e Eduardo Cunha, ambos do PMDB (hoje MDB); e em 2019, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, ambos do antigo DEM.
Apesar disso, a alternância de partidos na Casa tende a dar maior equilíbrio de poder entre os partidos e, por isso, é tida como praxe no Legislativo.
No Senado, o PL já soma 28 senadores. A conta deve subir com a saída de Cleitinho (Republicanos) para assumir o governo de Minas Gerais e a entrada de seu suplente, Alex Diniz (PL), além de outras filiações de senadores que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, vem prometendo.
O cenário torna a reeleição de Davi Alcolumbre (União-AP) na presidência do Senado mais desafiadora.
'Fórmula de Lira'
Lira e Motta após resultado da eleição na Câmara em 2025 — Foto: Reprodução/TV Câmara
Eleito em 2021 com apoio do então presidente Jair Bolsonaro (PL), Lira era apontado como um aliado de primeira ordem do bolsonarismo na Câmara. Com a vitória de Lula (PT) na eleição presidencial de 2022, houve dúvidas sobre sua capacidade de permanecer no comando da Casa.
Ainda na transição de governo, Lira entregou a Lula a PEC da Transição, que abriu espaço no Orçamento para as promessas do novo governo. Neste cenário, fez uma aliança do PT ao PL e conquistou 464 votos, a maior votação já registrada em uma eleição para a presidência da Câmara.
O presidente eleito, Lula, se encontrando com o então presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, em 2022 — Foto: FáTIMA MEIRA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Interlocutores de Motta avaliam que não há motivo para reinventar a estratégia. A ideia é esperar o resultado do segundo turno da eleição presidencial e abrir uma rodada de conversas com as diferentes forças políticas para negociar apoio à sua permanência no cargo.
Se Flávio Bolsonaro vencer a disputa ao Planalto, Motta pode fazer acenos ao presidente eleito antes da posse, sob o argumento de que o cargo de presidente da Câmara exige capacidade de articulação com o governo.
Durante a eleição de primeiro turno, Motta pediu abertamente votos para o presidente Lula – movimento visto como uma tentativa de eleger seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), ao Senado pela Paraíba, estado que historicamente vota com o petista. Nabor, porém, não foi eleito.
Parte dos deputados avalia que o posicionamento de Motta de apoio a Lula pode dificultar suas chances de reeleição, em caso de vitória de Flávio.
Seus aliados fazem uma leitura diferente: manter as pontes com o governo Lula pode ser decisivo para conquistar os votos da esquerda, independentemente do resultado da eleição presidencial. Afinal, agora, os votos que contam são os de seus colegas parlamentares.
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