Dois anos após receber rim da mãe, menino de 11 anos tem vida normal em Pontal, SP: 'Ele voltou a viver'

"A gente segue certinho sobre exames, sobre retornos, sobre medicações. E, se você conhecesse ele antes, ia ver que hoje ele tem cor. Ele não tinha cor, era um menino esverdeado. Eu vejo essa doação nele como a vida. Ele voltou a viver", diz a mãe.
Marcos tem 11 anos e vive uma rotina que, segundo Fratiane, se aproxima da de qualquer outra criança da idade dele.
"Mudou a vida do Marcos, porque eu acho que uma mãe só é feliz quando o filho está bem. E ver ele ter uma chance de viver normalmente é lindo. Hoje ele é uma criança que não tem tantas preocupações".
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Como doadora, vida de Fratiane também mudou, mas a rotina dela não foi prejudicada e ela diz que passou a ter ainda mais cuidados com a saúde e até incorporou atividades físicas à rotina.
"Minha vida é normal, igual era antes, ou até melhor. Eu comecei a me cuidar mais, a me exercitar, a praticar atividade física regular. Minha vida é perfeita, é ótima. Eu não sinto falta desse rim."
À esquerda, Fratiane Ferreira Dias e o filho, Marcos Taylor, no dia do transplante, em abril de 2024; à direita, mãe e filho atualmente — Foto: Arquivo pessoal
Supermãe
Ao g1, Fratiane contou que, antes do transplante, Marcos tinha uma vida mais limitada pelos problemas de saúde e pelos cuidados necessários. Hoje, consegue fazer atividades que antes eram mais difíceis e a considera uma supermãe.
"Eu vejo essa doação nele como a vida. Ele voltou a viver bem, poder brincar, poder construir a história dele no futuro. Saber que precisa se cuidar, se exercitar, acompanhar, mas saber que ele pode viver normal, igual qualquer um de nós. Antes, eu não tinha essa esperança. Ele me acha a supermãe. Como criança, eu acho que ele ainda não entende o quão profundo é, mas ele sabe que a vida dele mudou."
Ao relembrar a trajetória da família, Fratiane se emociona. Mãe de quatro filhos, ela diz que a experiência também mudou a forma como enxerga a própria vida.
"Acho que fui escolhida para ser a mãe do Marcos. Eu tenho quatro filhos, amo todos, e não amo o Marcos mais do que os outros. Mas o Marcos me ensinou a viver. Eu aprendi com ele. Ele é meu ensinamento."
Fratiane Ferreira Dias e o filho Marcos: mãe doou rim para menino de 9 anos em Ribeirão Preto, SP — Foto: Luciano Tolentino/EPTV
Diagnóstico antes do nascimento
Marcos nasceu com uma doença renal crônica. O problema foi descoberto quando Fratiane estava com 13 semanas de gestação.
Natural de Porteirinha (MG), a enfermeira passou a ser atendida no HC de Ribeirão Preto após a indicação de um médico. Durante a gravidez, ela viajava até a cidade para acompanhar a evolução do quadro.
"Eu estava com 13 semanas de gestação. Ele me deu o nome desse médico e me deu um papelzinho falando que era na USP. Na medicina fetal do HC, já fui e fiz um ultrassom e o médico falou que, realmente, era bem grave e que havia uma suspeita de válvula de uretra posterior, que já estava gerando deficiências na parte renal."
Após o diagnóstico, Fratiane passou a fazer o acompanhamento da gestação no HC. Com cerca de 35 semanas, ela recebeu dos médicos a notícia de que a situação do filho era grave e poderia comprometer a sobrevivência dele.
"Ele teve o ureter dilatado, então ele ia só enchendo, e isso ia estragando a parte renal, fazendo refluxo para cima. Depois, a bexiga foi ficando grande e começou a comprimir os outros órgãos. Nessa altura da gravidez, o médico me chamou e falou que a situação dele era bem incompatível com a vida."
Mesmo com os problemas, a gestação seguiu até o fim. Marcos nasceu com alterações no sistema urinário e com os rins comprometidos.
"A gente começou a lutar para que ele conseguisse ter uma vida normal. Mas ele tinha várias infecções de urina, tinha dificuldade de segurar o xixi e começou a não se desenvolver muito corretamente. A gente fez vários exames e começou um tratamento conservador."
Marcos Taylor recebeu um dos rins da mãe em transplante realizado no HC de Ribeirão Preto em abril de 2024 — Foto: Arquivo pessoal
Vida fora de Minas Gerais
Nos primeiros anos de vida do filho, Fratiane fazia viagens frequentes entre Minas Gerais e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para o acompanhamento no HC.
Com o agravamento do quadro, ela recebeu dos médicos a orientação de que seria importante morar mais perto do hospital. Para não perder o acompanhamento do filho, decidiu deixar o emprego e se mudar para Pontal.
"O médico falou: 'Se você conseguir ficar mais perto, eu consigo segurar a sua vaga'. Foi aí que eu pedi conta do serviço, larguei tudo e vim para Pontal. Comecei do zero. Foi bem difícil o começo, mas eu estava sentindo que estava fazendo o certo, porque eu tinha o que precisava, que era a saúde dele."
Mesmo com a mudança, a situação de Marcos continuou se agravando. Quando o filho tinha 6 anos, Fratiane decidiu perguntar ao médico se havia alguma outra forma de ajudá-lo.
"Eu já estava me doando muito para poder salvar ele, para ele ficar bem, só que não estava dando certo. Um dia, em uma consulta lá no HC, eu falei com o doutor Ivan se tinha possibilidade, se tinha como eu ajudar mais. Foi até eu que falei: 'E se eu doar um rim para ele?'"
A possibilidade foi investigada pela equipe médica, e Fratiane passou por uma bateria de exames para verificar se poderia ser doadora e, por volta de 2020, os resultados mostraram uma alta compatibilidade entre mãe e filho.
"Quando a gente fez o exame de compatibilidade especial, que é para saber se eu realmente podia, deu muito bom. Foi quase 100%. Mas aí veio a pandemia e a gente não pôde fazer nada. A gente ficou em casa, com ele piorando o quadro".
Dois anos após o transplante, Marcos Taylor leva uma vida normal, segundo a mãe — Foto: Arquivo pessoal
Sucesso do transplante
Após a retomada dos transplantes entre pessoas vivas, o processo voltou a avançar. Fratiane passou novamente por exames e avaliações, inclusive psicológicas, até ser considerada apta para a doação.
"Eu não falo nem que foi uma coisa que eu fiz. Eu falo que foi o topo de tudo que eu poderia fazer como mãe e como pessoa também".
Fratiane conta que sempre teve interesse pela doação. Antes do transplante, já havia doado sangue e também se cadastrado como doadora de medula óssea.
"Quando eu descobri que era compatível com o Marcos, não foi nem como mãe só. Foi como pessoa. Eu me iluminei. Quando achei que era capaz de fazer isso, fiquei muito feliz. (...) Acho que é o maior ato de amor que uma mãe e um ser humano pode tomar".
Fratiane Ferreira Dias passa por cirurgia para doar rim ao filho no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, SP — Foto: Reprodução/EPTV
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