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Wednesday, October 14, 2026

Hábito de beber para se divertir é debatido nas redes sociais e influenciadores dão dicas para reduzir álcool

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Pessoas que questionam o hábito de beber para se divertir têm participado de eventos sem um copo na mão e compartilhado suas experiências nas redes sociais. A consequência desse movimento é a redução ou a pausa no consumo de álcool.

Anna Gouveia, 38, criadora da página Tem Gente Que Não Bebe, no Instagram, começou a beber no ensino médio e associou o álcool à diversão e à socialização. Isso ficou claro em 2019, quando morou em Barcelona por um ano. Sozinha, em um lugar novo, notou que passou a beber menos.

Em 16 de junho de 2023, aos 34 anos, decidiu se abster até o aniversário seguinte. O novo estilo de vida se consolidou.

Uma das dificuldades que relata foi perceber que quem está sóbrio é pressionado a aceitar um drinque. Isso, segundo ela, despertou o cuidado de evitar o moralismo em suas postagens, nas quais compartilha informações e incentiva a abstenção.

O perfil, que soma 145 mil seguidores, foi criado porque ela encontrou pouco material em português que não se pautasse pela dependência química do álcool.

A abstenção sem relação com o diagnóstico de dependência cresce em meio à queda do consumo no mundo, inclusive no Brasil. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o consumo global diminuiu cerca de 5% entre 2010 e 2019, com redução de 10% apenas em 2020, diante da pandemia de Covid. No Brasil, uma pesquisa do Datafolha de 2025 mostrou que 51% da população afirmou não ingerir álcool e 53% diz ter reduzido o consumo no ano anterior.

O transtorno por uso de álcool é uma doença crônica que tem como sintoma a incapacidade de controlar a quantidade ingerida, com consumo abusivo, tolerância elevada aos efeitos da substância, entre outros.

O Ministério da Saúde considera abusiva a ingestão de quatro ou mais doses para mulheres, e cinco ou mais para homens, em uma mesma ocasião.

O interesse de Anna sobre o tema aumentou quando ela conheceu o conceito de "curiosidade pela sobriedade" (sober curious, em inglês), cunhado pela escritora britânica Ruby Warrington.

No livro "Movimento Sober Curious: Descubra a leveza de uma vida sem ressaca", recém-publicado em português pela HarperCollins Brasil, a autora narra como a sua relação com a bebida mudou após questionar seu consumo, em 2011. Tudo começou numa segunda-feira após um fim de semana sem álcool, quando se surpreendeu por não estar indisposta.

Ruby passou a pesquisar o assunto e frequentou o AA (Alcoólicos Anônimos) para compreender os passos recomendados para abdicar do consumo. À Folha ela diz que o foco em seu bem-estar passou a guiar o que chamou de "curiosidade pela sobriedade."

O empresário de marketing de influência Zuriel Palma, 39, que criou o perfil Sóbrio Curioso no Instagram, em 2024, se inspirou em Ruby. Ele resolveu parar de beber por 30 dias enquanto treinava para um campeonato de crossfit. A melhora psicológica tornou a mudança definitiva, diz.

Parar de beber ou diminuir o consumo alcoólico tem impacto positivo no cérebro. Graças à neuroplasticidade, o órgão é capaz de restabelecer funções, estruturas e cognição prejudicadas pela droga. A mudança de hábito melhora o sono, o humor e a memória de longo prazo, além de aumentar a velocidade de processamento.

Esses benefícios podem aparecer em cerca de três semanas após parar de beber, diz o neurologista Marco Túlio Araújo Pedatella, da ABN (Academia Brasileira de Neurologia). Mas esse tempo varia.

O álcool age no cérebro como depressor do sistema nervoso central: a substância inibe a produção de neurônios, compromete os impulsos e a comunicação entre eles e prejudica as decisões. Ela "bagunça" o órgão, diz a psiquiatra Ana Cecília Petta Roselli Marques.

O período de exposição, a frequência da ingestão, fatores genéticos, tamanho e composição corporais, sexo e idade em que o uso começou causam diferentes tipos de lesão nos neurônios. Quanto mais tarde o consumo alcoólico começa, mais protegido está o cérebro, diz Ana.

Adolescentes são mais vulneráveis, já que o cérebro só termina de se formar por volta dos 30 anos. Segundo Ana, o álcool não encontra barreiras no cérebro em formação, penetra suas estruturas e aprofunda riscos. Pessoas com doenças psiquiátricas, neurodivergências e doenças crônicas também são mais suscetíveis a danos.

Pessoas que param de beber, não consomem outras drogas além do álcool e têm até cerca de 45 anos tendem a se recuperar melhor. Já a associação a outras drogas, como o tabaco, pode intensificar os danos ao cérebro, alerta Marco Túlio.

Zuriel conta sua experiência no Sóbrios Cast, em parceria com Mari Gutterres, criadora do perfil Movimento Zero, que também aborda o tema. O podcast ensina a criar novos hábitos e sugere maneiras de socializar sem incluir o álcool na roda de amigos.

Quem deixa a bebida de lado precisa encontrar outras atividades que gerem prazer. Zuriel diz que a coletividade do esporte foi fundamental no seu processo.

De acordo com Anna, parar de beber a fez descobrir que gosta de programas introspectivos, como exposições. Além disso, ela conta que tem mais tempo livre, antes consumido pelo álcool ou pela ressaca.

Para quem aprecia o sabor das bebidas tradicionais, como gim, cerveja, rum e vinho, mas não quer mais álcool, as versões zero ganham espaço no mercado. Em 2023, o setor de bebidas alternativas cresceu 20%, segundo a Euromonitor. De acordo com o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), a produção de cerveja sem álcool sozinha teve um aumento de 536,9% entre 2023 e 2024 no Brasil.

Anna diz que os drinques sem álcool que prepara atraem até mesmo pessoas que torciam o nariz para a abstenção. "É um jeito de quebrar esse tabu. As pessoas pensam que ou se tem dependência alcoólica ou não; não é 8 ou 80", diz.

Ruby alerta que o movimento não prega o consumo zero de álcool, e por isso não é voltado para quem enfrenta a dependência.

Quem suspeita ou sabe que tem transtorno por uso de álcool pode procurar uma das unidades do Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) na capital paulista. O serviço público do SUS (Sistema Único de Saúde) atende casos de uso prejudicial de álcool e outras substâncias de forma gratuita e sem necessidade de agendamento prévio.

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