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Sunday, September 27, 2026

“Estamos a perder a capacidade de ter um olhar tolerante"

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Dá-me mesmo muita ansiedade e eu tenho me debruçado um pouco sobre essa ideia. Às vezes tu abres um post qualquer, por exemplo, do Observador, e abres o post e vais aos comentários. E regra geral, a quantidade de comentários muito negativos é muito superior à quantidade de comentários positivos. É mesmo muito superior. E as pessoas escrevem com um ódio. A mim perturba-me muito, porque eu acho que estamos a perder às vezes a capacidade de ter um olhar otimista ou tolerante. Não estou a falar de todos os posts, como eu vou ver posts muito abjetos e muito questionáveis e as pessoas também se revoltam com isso e também se fazem ouvir. Está tudo certo. Mas sinto que isto, em geral, na vida, temos muito mais facilidade de olhar para as coisas negativas do que para as coisas positivas. Temos muito mais facilidade de criticar e de mandar alguém abaixo do que elogiar e puxar para cima ou, no limite, de nos absteremos de comentar para não ferir alguém. Eu acho é que é mesmo o exercício mais difícil, lá está, novamente, no meio de uma vida que às vezes é difícil e com dificuldades e com a crise da habitação e todas estas questões com as quais nós temos que lidar hoje em dia, às vezes é muito difícil ser solar e ser otimista. Tenho 26 anos só, ainda, mas acredito que isto passe num instante, porque eu olho para trás e passou realmente num instante. E acredito que os anos que eu tenho pela frente também vão passar num instante. E se nós passarmos uma vida inteira a focarmo-nos nas coisas negativas e nas coisas más e nas coisas tristes, o que é que realmente levamos daqui?

Há pessoas que trazem consigo uma combinação rara, uma determinação à prova de bala e uma sensibilidade quase desconcertante. Quem a conhece garante que tem os pés assentes na terra, uma curiosidade insaciável pelas pessoas e uma maturidade que não pede licença à idade. É uma trabalhadora até o limite, minuciosa no detalhe, mas deixou sempre que fosse o trabalho a falar mais alto, cresceu a ver o teatro por dentro. Constrói cada papel com rigor, sem atalhos e traz uma generosidade para a cena que desarma quem está desse lado, ganhou prêmios, rasgados elogios, a admiração de um país inteiro, mas a sua verdadeira força não está no aplauso fácil. Está na coragem daquela que protege o seu espaço, na generosidade com que se entrega a cada papel e na maturidade com que sabe exatamente quem é quando as luzes se apagam. Bárbara Branco, bem-vinda ao "Em 40 Minutos". Estamos aqui a dizer em off e esta é uma conversa que já tivemos há um ano e meio.

Cerca de um ano e meio, já.

Muito mudou, com certeza, na tua vida e vamos falar também sobre essas mudanças, mas antes de mais, sê muito bem-vinda aqui ao "Em 40 Minutos", da Rádio Observador. Esta aqui é tua casa também agora.

Obrigada, é a minha casa, estamos a falar sobre isso, já me sinto super confortável aqui.

Vamos contar essa história em off. Um dia estava aqui eu no Observador, sabia que a Bárbara Branco ia ser a nova narradora do novo podcast do Observador, já lá vamos falar sobre isso, e ela aparece-me do nada e eu: "Bárbara, estás aqui?"

Super ambientada, já tipo: "Olá, colega de trabalho."

Sim, já somos, no fundo, agora também somos.

Agora também somos.

Um ano e meio se passou. Eu lembro-me perfeitamente de termos terminado essa conversa a dizer: "Nós ainda vamos falar mais vezes." Não esperava que fosse em tão pouco tempo. O que é que mudou na tua vida até agora e o que é que tens aprendido essencialmente com este ano e meio que passou?

Eu não me lembro muito bem em que sítio é que estava há um ano e meio, concretamente. Sinto-me, em geral, mais calma, mais tranquila, mesmo a nível profissional, tentando ter o rigor de sempre e tentando agarrar o trabalho como sempre agarrei, porque também não sei fazer de outra forma, mas sinto-me mais tranquila e sinto que também tenho atraído projetos diferentes. Acho que o que estou a fazer neste momento é um pouquinho representativo disso.

Tens dois em mão agora, não é?

Sim. Estou numa fase muito boa. Já estava na altura, sinto isso.

Naquela altura estavas a gravar "A Herança".

Portanto, estava muito cansada, certamente.

E lembro-me também de falares dessa calma. Eu lembro-me até da citação que foi título desse episódio, e é muito interessante falarmos sobre isso, em que tu dizias-

Tenho muita raiva acumulada. Eu lembro-me de ter dito isso.

É possível que tenhas dito, mas tu disseste que estavas finalmente a ganhar liberdade a fazer aquilo que estavas a fazer, ou seja, a encontrar o teu espaço e o teu propósito naquilo que é o teu trabalho enquanto atriz.

Já não me lembrava disso, mas sim, 100%. E acho que estou cada vez mais alinhada com uma ideia qualquer de estar conectada com a minha essência e com o meu propósito a fazer o que faço. É isso, posso escolher, tenho a sorte de poder escolher os trabalhos que quero fazer. Tenho a sorte de continuar a trabalhar com pessoas que são maravilhosas e que me estimulam e a fazer projetos interessantes e humanamente interessantes com pessoas boas. É isso, estou numa fase ótima.

Tu ouves isto muitas vezes: "A Bárbara é tão nova e já tão talentosa, já fez tanta coisa". E é verdade, já fizeste muita coisa para tão pouca idade que tens e ainda o que tens pela frente O que te tem feito verdadeiramente feliz nestes últimos tempos? Daquilo que tens feito, não só ao nível profissional, porque tens tido papéis muito diferentes e sei que há aí outros desejos de coisas que queres fazer, porque fui investigar tudo. Sou uma pessoa muito curiosa, mas o que te tem deixado verdadeiramente feliz ultimamente?

Sinto que por ter começado a trabalhar muito cedo, rapidamente a minha vida se tornou muito focada no trabalho. Para o bem e para o mal. Não teria tido a oportunidade de fazer imensas coisas se não tivesse começado tão cedo e se não me tivesse fechado tanto para o trabalho tão cedo, mas também acho que perdi outras coisas, nomeadamente da minha vida pessoal e de vivência com a minha família, com os meus amigos. E acho que já há um tempo para cá tenho vindo a tentar recuperar isso. Aproveitar os prazeres da vida. Sempre me fechei tanto no trabalho que me era muito difícil sair do trabalho e perceber quem eu sou sem ser atriz, que faz teatro, que faz novelas, que faz não sei o quê. Quem é que eu sou? Imagina, se eu não tivesse o meu trabalho, quem é que era esta pessoa?

Esse é um exercício fácil de se fazer.

Para mim não foi, não tem sido, porque foram muitos anos muito fechada, muito focada numa coisa só.

E as pessoas, quem te conhecem e apreciam o teu trabalho, conhecem-te enquanto atriz. Tu também és uma pessoa que, e já vamos falar disso mais à frente, seleciona muito bem aquelas partes que quer passar para o público, o lado mais pessoal. É uma forma também de te protegeres. Ou seja, acredito que esse exercício seja ainda mais difícil por isso.

Eu acho que é precisamente nesse resguardo e nesse fechar-me um bocadinho para o mundo mais público, é nesse espaço que eu me descubro. Ou seja, foi a partir do momento em que eu decidi resguardar-me e fechar-me um bocadinho mais que comecei a perceber que há muitas coisas na minha vida que ficaram por descobrir ao longo destes anos. O que eu gosto de fazer? Que músicas eu gosto realmente de ouvir? O que eu gosto de ler? Gosto de ler todos os dias? Gosto de ler determinadas coisas em determinados dias? Hoje apetece-me ouvir que tipo de música? E isto é muito estúpido, se calhar, mas até aqui na minha vida, eu não tinha aberto espaço para isto. E agora começo a abrir e começo a perceber o que me apetece fazer. Qual é que seria a minha vida ideal? Qual é o ritmo do meu corpo? Gosto de acordar a que horas? Um dia ideal para mim seria fazer o quê? Seria ir fazer exercício físico, tomar o pequeno-almoço em casa, depois ir para o ensaio à tarde e depois à noite conseguir jantar com os meus pais? O que eu gosto? O que me move na minha vida à parte do meu trabalho?

Sentes que és agora uma pessoa mais de pessoas e de ligações profundas com essas pessoas que gostas. Falaste aqui dos teus pais, dos teus amigos.

Sim, tenho sentido muita falta dessa rede de apoio. Agora já não, que já começo outra vez a voltar a essas relações e a nutri-las com mais tempo. Eu sinto que antes me refugiava muito no trabalho. O trabalho era muito uma fuga para mim. "Não posso, tenho ensaio, desculpa." E às vezes, se calhar, não me apetecia tanto, ou se calhar apetecia-me, mas não me forçava a ir. E eu acho que agora estou numa fase em que, às vezes, mesmo que não me apeteça fazer um desvio no caminho, ir visitar uma amiga ou ir visitar a minha avó, faço esse esforço. Porque se calhar, daqui a uns anos, imagina, se eu deixar de trabalhar nesta área, eu não quero olhar para trás e perceber que estes anos foram todos só dedicados ao trabalho e dedicados à vida profissional. E sinto, se calhar, que no início da minha carreira abdicava muito dessas relações em prol de um percurso, de projetos e de coisas que obviamente queria conquistar e continuo a ter essas ambições e a querer muitas coisas, mas faz-me sentido nutrir também a nível pessoal estas relações e estes gostos e cultivar-me, porque isso também alimenta o meu trabalho de alguma forma.

O tal tempo de qualidade. Porque eu também acredito nisso, que o facto de termos uma boa rede de segurança, uma rede de apoio, termos vida além do trabalho, também nos permite ter mais histórias e poder contá-las, mesmo sendo tu uma atriz. Dá-nos riqueza, enriquece-nos perante os nossos pares, as pessoas com quem lidamos todos os dias. Isso é ótimo.

Sim, e acabo por me conhecer melhor também. Já conheço as minhas manhas, quando eu estou a fugir de alguma situação, quando eu estou realmente a aproveitar e feliz. E eu acho que todas estas coisas, tudo aquilo que eu vivo, que eu sinto, que eu descubro e que eu exploro, enriquece o meu trabalho. E acredito que seja assim em todas as profissões. Tudo o que tu tens a capacidade de viver e de experienciar vai acabar por nutrir o teu trabalho de alguma maneira. E acho que no meu trabalho é muito evidente isso, porque eu trabalho com o meu corpo, com as minhas emoções e parto sempre de quem eu sou. Mesmo que depois manipulo o meu corpo e a minha voz para ser outras coisas, eu parto sempre desta pessoa que sou eu e que tenho a minha vida e que passo pelas minhas tristezas, pelas minhas alegrias e pelo meu entusiasmo, e depois canalizo todas essas coisas que eu sinto para o meu trabalho e para as personagens que interpreto.

És uma pessoa que não faz frentes. Estamos aqui a falar de tempo de qualidade. Eu estou a tirar essa conclusão de que Bárbara Branco é aquela pessoa que se não gosta de estar num sítio, ou se não quer ir a um determinado evento, ou se não quer ir a uma determinada apresentação, não vai.

É assim Confesso que há alguns fretes que têm de ser feitos. Não dá para fugir a tudo. Mas eu vou ser muito sincera, eu se pudesse, mesmo estar com amigos, eu preferia estar com os meus amigos em casa, fazer um jantar em casa com amigos. Sempre num ambiente mais caseiro, diria. Sou um bocadinho mais bicho do mato, nesse sentido. Não lido sempre muito bem com estar em público e com eventos com muita gente, principalmente quando não estou confortável.

Tirando paredes de coura.

Tirando paredes de coura, mas eu amo paredes de couro, é diferente. Mas eu não me sinto muito à vontade nesses ambientes. Agora, também estou a aprender a conseguir arranjar uma forma de estar confortável para conseguir ser quem eu sou, porque eu senti durante muito tempo, em eventos mais públicos ou em que há muita gente, que eu ficava assoberbada porque havia sempre muitas preocupações e depois é a roupa, porque nunca estás com a roupa certa.

Parece que estás sempre no momento em que tens que estar sempre a agradar, entre aspas, ou a pensar em tudo aquilo que está a acontecer.

Eu pelo menos sentia isso. Acredito que haja muita gente que consegue estar nesses ambientes super confortável. Eu durante muito tempo estive muito desconfortável. E acho que começo agora a perceber como é que eu consigo ir a essas coisas, ou seja, não fugir desse tipo de eventos, porque também faz parte da profissão ir a alguns e estar com essas pessoas todas, mas conseguir estar de forma confortável e conseguir, ainda assim, ser quem eu sou e trazer a minha essência e rir-me à vontade e estar bem disposta em ambientes que, se calhar, são um bocadinho hostis muitas vezes. E então também estou a fazer essa descoberta agora.

Tu há bocadinho tocaste em um gatilho, que para mim é muito sensível, a questão da música, as músicas que gostas de ouvir, que queres ouvir, o que é que tu tens andado a ouvir ultimamente?

Olha, muito sinceramente, Chico da Tina. Traz-me muita alegria.

A ti e a toda a gente, não é?

Super.

É um fenómeno.

Mas olha, traz-me mesmo muita alegria. Não em relação ao Chico da Tina. Mas eu durante muito tempo, eu adoro ouvir música pimba. Adoro! Eu adoro ouvir Mónica Sintra.

Eu acho que nós portugueses temos muito preconceito e vamos a qualquer país e percebemos que há muito orgulho nas raízes de cada um. A música inglesa está por todo lado, a música americana. Mas quando falamos de música portuguesa, nós às vezes temos algum pudor de dizer: "Eu ouço Fernando Daniel". Estou a dar aqui um exemplo, como podia dizer Bárbara Bandeira, qualquer outro. Falaste em Chico da Tina também. E eu acho que nós estamos a desconstruir finalmente essa ideia.

Não é?

Acho que sim.

Para mim o gatilho para isso foi o Chico da Tina. Eu acho que o Chico da Tina está a tornar muito cool.

E que aqui há uns anos, não é preciso ir muito atrás, era um ser altamente estranho. As pessoas ouviam o Chico da Tina e diziam: "Esta pessoa não..."

Ya. Olha, eu digo-te, uma vez fui ao Festival do Crato com o meu irmão Guilherme. O meu irmão tem menos sete anos do que eu. E o Chico da Tina estava no cartaz, e eu estava responsável pelo meu irmão.

Modo babysitter.

Estava em modo babysitter. O meu irmão ainda era miúdo, ainda não tinha feito 18 anos. E ele vira-se para mim e diz assim: "Mana, posso ir ao mosh pit do Chico da Tina?" Eu tipo: "Não te vou deixar ir ao mosh pit do Chico da Tina". E eu própria estava meia desconfiada. Foi um concerto tão fixe. Não, não deixei o meu irmão ir para o mosh pit, obviamente, mas acho que está a dar uma volta. E eu também, em relação a mim e aos meus gostos, eu acho que deixei de ter vergonha de alguns gostos que tenho. Porque eu sempre adorei ouvir Mónica Sintra, por exemplo. Claro que há contextos e claro que há momentos, mas eu sempre adorei uma data de coisas que eu achava assim: "Foga, é muito ridículo se eu assumir que eu gosto de X ou de Y ou de Z". E agora estou muito mais confortável com esses gostos todos. E gosto de Mónica Sintra, gosto de Chico da Tina e ouço Ana Malhoa, mas também ouço Silly, também ouço L'Impératrice, também ouço Olivia Dean. Sei lá, nós somos feitos de tantas coisas e acho que temos mesmo de perder os pudores em relação a estas coisas, os guilty pleasures. Por que é guilty se gostas?

Eu lembro-me que na última conversa que tivemos falámos sobre isso.

Meu Deus, eu estou-me só a repetir.

Não, guilty pleasures no sentido em que muita gente atribui essa questão de ouvir música portuguesa, para muitas pessoas é um guilty pleasure, do gênero não quero que as pessoas saibam que eu ouço este tipo de música.

Sim, eu ouço, adoro ouvir, põe-me muito bem disposta. E se nos faz feliz, só temos mais é que fazer coisas que nos façam feliz. Não é? Acho eu.

Eu acredito muito nisso também. Voltando aqui para a tua área, a representação. Toda a gente que convive contigo e de entrevistas, de pessoas que falam sobre ti, falam de uma pessoa boa. É fácil ser uma pessoa boa num meio onde há tantos pares, tantos egos, às vezes competição. Não sei se já testemunhaste isso na primeira pessoa.

Não, acho que não. Eu acho que isto transcende o meu meio de trabalho, isto transcende o trabalho de atriz. A vida é difícil para toda a gente, para umas pessoas mais, para outras menos, mas acho que no fim do dia, tu tentares fazer um esforço para sorrir ao outro e para não seres desagradável, acho que isso é só o mínimo. Sei lá, é muito estranho estarmos a falar de tratar bem os outros. O que é ser uma pessoa boa? Pressuponho eu que seja uma pessoa cujo trato é agradável, diria. Te cumprimenta, que te sorri.

Ou seja, isso para ti não é algo que seja negociável.

Eu acho que isso para mim é o mínimo de ser humano. Não é sobre sequer o meio dos atores e da representação e o meio artístico, não é sequer sobre isso. Às vezes tu teres a capacidade de, apesar das tuas frustrações e das dificuldades que passas no teu dia a dia e na vida, porque a vida é cheia de altos e baixos, tu teres a capacidade de não mandar para cima dos outros as tuas frustrações. E eu acho que hoje em dia é muito difícil fazer isso. Estamos cada vez mais fechados em nós próprios, mas isso é o mínimo para mim nas relações humanas, é tu seres uma pessoa que não é intratável.

Sim. O digital, se calhar, veio aqui abrir uma porta, porque ao mesmo tempo parece que estamos todos mais conectados. Porque estamos todos à distância de uma mensagem, de uma simples chamada, o que for. Mas ao mesmo tempo, e não sei se tu sentes isso, porque eu também sinto que tu és uma pessoa que tem o teu digital, mas tu não és uma pessoa que liga muito a isso, no sentido de te preocupar realmente com aquilo que é feito. Ou seja, não és uma pessoa que faça as coisas com um propósito de ter mais audiência no digital, falando propriamente do digital. Tu tens amigos, com certeza.

Eu acho que sim, eu espero que sim.

Que se calhar até estão mais voltados e ligam mais a esta questão das redes sociais. Como é que tu, uma pessoa da Gen Z, nós temos os dois a mesma idade, lidas com esta questão das redes sociais? Hoje em dia é muito fácil cancelar alguém na internet, quer seja por opiniões, quer seja por posições. Como é que a Bárbara Branco, fora deste prisma de atriz, enquanto pessoa, lida com essa parte?

Vou lhe perguntar, espera aí.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Sim. A minha relação com as minhas redes sociais, pelo menos, é QB. É como tudo na vida, é assim, é QB. Vou, promovo o meu trabalho, publico algumas coisas sobre a minha vida pessoal, sobre as coisas que eu faço, sobre o que ouço, o que leio, o que vejo, mas tento sempre manter alguma distância. Mesmo com os meus amigos. Eu falo muito com os meus amigos pela internet, mas não há absolutamente nada que substitua ir jantar com uma amiga minha ou ir tomar um café com alguém de quem eu gosto muito. Portanto, a minha relação com as redes sociais, já me expus um bocadinho mais. Agora estou numa fase em que vou lá, vejo as coisas que eu quero ver, publico aquilo que eu quero publicar e saio. Até porque eu já percebi que me faz mesmo muito mal quando me envolvo muito. Não que eu sinta na pele, ódio ou que receba muitas mensagens, não estou mesmo em uma fase em que isso aconteça, e ainda bem.

Tu sentes que é um local cada vez mais ativista, no sentido de termos cada vez mais vozes. Não digo diretamente a defender causas, mas mais, ou és do A ou és do B. Não sei se tu sentes isso, hoje em dia.

Sim, está tudo muito polarizado. Acho que as redes sociais são um veículo importante para tu te posicionares, se sentires que o deves fazer, para tu chamares a atenção para esta ou para aquela causa, se sintas que o deves fazer. Mas só terminando aquilo que eu estava a dizer em relação às redes sociais, dá-me mesmo muita ansiedade e eu tenho me debruçado um bocado sobre essa ideia. Às vezes tu abres um post qualquer, por exemplo, do Observador, e abres o post e vais aos comentários. E regra geral, a quantidade de comentários muito negativos é muito superior à quantidade de comentários positivos. É mesmo muito superior. E as pessoas escrevem com um ódio. A mim perturba-me muito, porque eu acho que estamos a perder às vezes a capacidade de ter um olhar otimista ou tolerante. Não estou a falar de todos os posts, como eu vou ver posts muito abjetos e muito questionáveis, e as pessoas também se revoltam com isso e também se fazem ouvir. Está tudo certo. Mas sinto que isto, em geral, na vida, temos muito mais facilidade de olhar para as coisas negativas do que para as coisas positivas. Temos muito mais facilidade de criticar e de mandar alguém abaixo do que elogiar e puxar para cima ou, no limite, de nos absteremos de comentar para não ferir alguém.

Mas isso depois, e permite-me dizer-te isto, para as pessoas que o fazem, e se tu questionas essas pessoas, vão te dizer: "Mas eu tenho liberdade para eu fazer."

Pois, claro que sim, e está tudo certo.

Como é que se lida com essa dualidade, hoje em dia?

Eu não estou a pôr em causa a liberdade de nos expressarmos. Não é isso, de todo. Aliás, eu seria a última pessoa a pôr em causa a liberdade do que quer que seja. Estou mesmo a falar de uma questão de ponto de vista, de estarmos a perder, às vezes, uma capacidade de olhar para a vida, olhar para as pessoas, primeiro como pessoas, como seres humanos que estão do outro lado. E que vão ler, ou vão ouvir, ou vão ter acesso a certas coisas que são ditas e que pode ferir. Podem, aliás. E mesmo uma perspectiva em relação à vida, parece que temos muito mais facilidade em olhar para as coisas más, para as coisas negativas. E eu contra mim falo porque muitas vezes também sou assim.

São aquelas que nos impactam mais também, se calhar. No meio de 100 comentários, se tivermos um negativo, se calhar temos mais tendência a olhar para aquele. A maior parte das pessoas, digo eu, não sei.

Se calhar, sim. Pegares nisto, nessa ideia, e a transpuseres para a vida, eu acho que é mesmo o exercício mais difícil. Lá está, novamente, no meio de uma vida que às vezes é difícil e com dificuldades, com a crise da habitação e todas estas questões com as quais nós temos que lidar hoje em dia, às vezes é muito difícil ser solar e ser otimista. Mas acho que é um exercício bom, tanto nas redes sociais como na vida, tentarmos não desumanizar a pessoa que está do outro lado do ecrã, seja ela quem for. E na vida tentarmos mesmo procurar as coisas boas, porque tenho 26 anos só, ainda, mas acredito que isto passe num instante, porque eu olho para trás e passou realmente num instante. E acredito que os anos que eu tenho pela frente também vão passar num instante. E se nós passarmos uma vida inteira a focarmo-nos nas coisas negativas, nas coisas más e nas coisas tristes, o que é que realmente levamos daqui? Então esta ideia das redes sociais, e por isso é que eu mantenho uma relação um bocadinho mais-

É uma relação higiênica

Sim. Bom termo, é exatamente isso. É tipo, estou lá e falo quando preciso de falar, quando tenho essa necessidade de falar. Comento, publico, mas também me retiro, porque prefiro olhar para outras coisas e prefiro pôr o foco em outras coisas e ser um bocadinho mais solar e mais positiva. E as redes sociais nem sempre me trazem essa alegria, essa leveza.

Estamos mesmo aqui a terminar a nossa primeira parte, só para te perguntar quais são esses temas que te fazem querer intervir?

Muita coisa. Falávamos agora precisamente da liberdade. Tudo o que implique aniquilar a liberdade de expressão de alguém, a liberdade de sermos quem somos, a liberdade de nos expressarmos, seja a nível de imagem física. Estou a falar de identidade.

Direitos.

Direitos. Sim, sou muito apaixonada por usar a minha voz a favor dessa liberdade. É muito geral isso, foi supergenérico, mas acho que cabem uma data de coisas aqui dentro.

Sim. E cabe a cada um de nós também fazer da nossa voz e da nossa pegada digital o melhor que sabemos, não é?

Sim.

Isso depois está na cabeça de cada um. Há pessoas que se calhar preferem fazer comentários negativos e há outras que tentam canalizar isso para o bem. Primeira parte já está, já voltamos para a segunda. Esta semana com Bárbara Branco. Até já.

Até já.

Bárbara Branco é a convidada desta semana do "Em 40 Minutos". Já te conhecemos mais um bocadinho na primeira parte, coisas que entretanto não me lembrava, não conhecia sobre ti. É sempre bom podermos conhecer.

Descobrir.

Humanizar, acima de tudo, a pessoa que estamos a ouvir, os nossos ouvintes, neste caso, e a pessoa que eu tenho à minha frente. Vamos falar de projetos, que é uma palavra que se usa muito.

Sim, socorro. Nós temos que arranjar outra palavra para designar as coisas que fazemos, porque estamos sempre a dizer projetos.

É um novo projeto.

Novo projeto.

Mas o que é que é esse projeto?

Pausa entre projetos.

Sim.

O teu projeto é sobre o quê?

É que eu digo sempre, não sei se tu sentes isto, projeto, algo relacionado com arquitetura.

Arquitetura, óbvio. Sim, percebo.

Precisas de uma nova-

Queremos usar que palavra agora?

Não sei, vamos pensar até o final do episódio.

Trabalho. Espetáculo, espetáculo podes usar.

Sim.

O próximo espetáculo.

Sim, mas não sei bem, que espetáculo é mais-

Sim, é bem uma coisa-

Depois vamos entrar aqui numa questão de semântica.

Pronto, projeto.

Tu és a narradora do novo podcast plus do Observador, os escândalos de uma revolucionária.

Sim.

Falamos aqui de uma mulher e esta história é muito interessante, porque no final desta nossa primeira parte, aliás, para quem nos ouve em rádio, este final da nossa primeira parte está só disponível em podcast, mas eu e a Bárbara estávamos a falar da questão da liberdade. E aqui falamos de uma história, a Anicila Paz, filha do último diretor da PIDE, que no fundo desafiou, no meu entender, e tu podes-me dizer isso melhor, essa questão da liberdade. Falamos de alguém que viveu a sua vida de uma forma muito independente e esse ideal de liberdade está muito presente.

E que acima de tudo foi muito desafiador, principalmente porque acredito que toda a educação dela fosse profundamente conservadora. Tinha o pai que era o diretor da Polícia Política e, portanto, ela ficar profundamente fascinada com o Che Guevara, com o regime cubano, é uma pedrada no charco. Numa família profundamente conservadora, esta mulher afastou-se de todos esses ideais e foi literalmente para o polo oposto.

Exato.

Sim, é uma revolucionária. E eu acho que a história dela é fascinante, principalmente por causa disso. Por essa coragem de seguir o ideal dela. Ou seja, ela acreditava em um regime, ela acreditava em uma coisa qualquer que ela decidiu seguir apaixonadamente contra tudo e contra todos. Há muita coisa a dizer, isto é muito tricky. Há muitos contornos na história da Ani que são muito problemáticos por parte a parte, mas a verdade é que é uma mulher de convicções que decidiu mudar o rumo da vida dela. E a verdade é que é incrível. Antes de mais, quero dizer que eu adorei mesmo gravar este podcast.

Possivelmente em tempo recorde, porque é assim: tu chegaste cá a uma segunda-feira, era quinta-feira, estávamos a contar isso na primeira parte, eu estava aqui e tu apareces e eu: "Estás aqui, estás a gravar o novo podcast+. Já acabaste? Ou ainda falta muito?" E tu: "Já acabei".

Foi, foi muito rápido.

Foi muito rápido.

Eu acho que o que demorou mais no podcast foi, e acredito que seja comum a todos os outros, que é encontrares um tom. Como é que contamos esta história?

Porque tem que ser um tom neutro, não é? No sentido em que tu não podes tomar uma posição na história.

Eu gosto de pensar assim. Se calhar, se falares com outro narrador de outro dos episódios, das histórias, vai ter outra perspectiva e vão-te dizer: "Não, eu acho que o narrador é quem impõe o ritmo da história", e é verdade, mas que deve comunicar as intenções. O que eu acho que deve acontecer, e foi isso que tentamos fazer na minha história, foi contá-la de forma neutra o suficiente para que as pessoas que a ouvissem pudessem tirar o que lhes servisse, mas ao mesmo tempo tentar contar a história com princípio, meio e fim. Com as intenções certas. Porque eu imagino a Ani, uma mulher muito comum.

Tu criaste essa imagem na tua cabeça, da Ani.

De alguma maneira. A Inês, o João e a Tânia foram incríveis e fizeram um trabalho-

É que o João falou disso. O João Santos Duarte disse que, de certa forma, imaginou tu a seres a Ani. E isso é muito interessante. Para alguém que é o narrador, ele poder formular essa imagem na cabeça daquilo que tu queres que sejas.

O narrador é a via que tu tens para conhecer aquela história. E de alguma maneira, tu vais começar a associar as imagens que crias na tua cabeça àquela voz. E o que eu achei engraçado explorar muitas vezes. Eu acredito que a Ani fosse uma mulher muito desafiadora e provocadora, às vezes.

Aliás, só por esta sinopse dá para perceber que deveria ser uma mulher super provocadora.

Mas assim uma coisa um bocadinho, às vezes, eu chegava a me arrepender de usar este adjetivo, mas às vezes um bocado marota na voz. Tipo provocadora. E então tentei trazer isso algumas vezes, porque acho que isso enriquece algumas partes da história. Mas é isso, ou seja, é um balanço entre contares o que está a acontecer e leres aquele guião, mas de forma a deixar alguma liberdade, para as pessoas imaginarem sem estarem super condicionadas com aquilo que estão a ouvir. Quase como se estivesses a ler um livro. Tu estás a ler aquelas palavras e a tua cabeça vai construindo imagens e era um bocadinho o que eu queria passar com isto. E atenção, eu estava a gravar e não tinha a menor ideia do resultado final. Eu estava a ler, nós repetíamos algumas vezes cada parágrafo, mas eu não tinha a menor ideia do resultado final. E quero mesmo dar os parabéns à sonoplastia e ao Franky Chaves.

Banda sonora.

Casa tudo tão bem. Estive ali no outro dia com ele e com o João a falarmos sobre o podcast no dia da estreia, e o Franky começou a explicar como é que surgiram os primeiros acordes e as primeiras linhas e de repente ele começa a tocar. E é muito engraçado, porque estás lá. Transporta-te logo para a história.

A música também tem esse poder, de nos levar até aos lugares.

Super. Falamos de música outra vez, mas sim. E foi super assertivo tudo. Fiquei muito contente e gravar foi uma maravilha, porque a equipa é excelente. E foi muito fácil.

Tu falaste muito da questão dos guiões, ou seja, de estarem muito bem escritos a ponto de simplificar muito o teu trabalho. Tu enquanto atriz estás habituada a isso. Quer seja no teatro ou em televisão, tens a questão dos guiões. Tu disseste nessa entrevista que foram poucas as mudanças que vocês fizeram porque tudo estava muito bem montado e oleado para que corresse bem.

Sim, e a verdade é que a base do meu trabalho é a palavra. Se eu vou fazer uma novela, eu tenho um guião com as cenas que tenho que decorar e tenho que dizer. Vou fazer um espetáculo, tenho aquela peça que é a base do meu trabalho. Portanto, eu parto sempre da palavra. E então desenvolves uma sensibilidade, quando as coisas não estão a fluir bem, tu sentes. E o que eu senti logo quando li este guião em casa e tive que o ler em voz alta em casa, porque como era uma coisa narrada, às vezes há coisas escritas que quando são narradas não fluem tão bem. E o que eu sinto é que estes guiões foram super assertivos logo à partida. E uma coisa muito fixe que a Inês, o João e a Tânia fizeram muito bem, foram os ganchos dos episódios. Eu acho que acabas sempre o episódio com vontade de ouvir o que vem a seguir. E é preciso um talento muito grande para fazer isso e para escrever bem. São seis episódios. Eram muitas páginas de texto. Nós lemos muitas páginas de texto. Eu não escrevo, nunca escrevi nada, nem de ficção, nem do que quer que seja, para que seja lido ou para que seja representado. E acredito que seja um trabalho muito difícil, muito complexo. E foi bom. Foi muito bom. Foi uma boa experiência.

Tu falaste aqui da questão da Ani Silva Pais, mas tu estavas a ser aqui a narradora. O que é que há da Bárbara Branco aqui neste podcast+? A tua voz, claro.

Para além da minha voz. Na história em si, que paralelismos é que eu encontro?

Sim.

Se calhar este impulso da Ani, às vezes meio inconsequente, de se mandar para uma coisa na qual ela acredita. Eu nunca fiz nada que se equiparasse a estas decisões que ela tomou e a esta viragem.

Não sabes o dia?

Não sei o dia.

Pode ser um ensaio.

Ora bem, também é verdade, tens razão. Mas esta coisa de te mandares por uma convicção qualquer que tu tens, seja ela qual for, e viveres alinhada ou alinhado com uma ideia qualquer daquilo que tu acreditas. Ela mudou-se para Cuba. Ela era muito mais radical, às vezes, do que até os próprios cubanos.

Sim.

Mas sempre muito privilegiada. Ela tinha senhas de refeições, vivia como os cubanos, mas depois através das malas diplomáticas recebia algumas coisas que os pais lhe mandavam. Portanto, ela nunca deixou de ter alguns privilégios. No fim do dia, o que eu acho que é impressionante e que trago um bocadinho para a minha vida, não se calhar a nível político, mas nesta coisa de crença. Eu vou muito atrás das coisas em que acredito e luto muito por elas e às vezes até de forma inconsequente mando-me para as coisas, porque sinto que é para ali. E acho que ela, de alguma maneira, fez isso com a vida dela.

E têm isso em comum, de certa forma. Para alguém que é muito expressivo, que está habituado a ter a imagem na televisão, sabemos como é que é, no teatro também, no cinema a linguagem é diferente, mas a imagem está sempre presente. Aqui não há imagem. Temos os vídeos nas redes sociais em que tu explicas a história.

Eu a fazer carinhas. Não viste a gravar ainda.

Não.

Pois, vais ver essas carinhas, essas expressões que estás a falar, vais vê-las todas.

Ia-te perguntar isso mesmo. É nas expressões que tu exageras, naquilo que nós não vemos?

Mesmo num trabalho de narração, eu agora estou a falar contigo.

Porque tu nunca tinhas feito nada deste género com esta densidade, não é?

Não com esta dimensão. Eu tinha feito um podcast, mas não como narradora. Era um bocadinho narradora, mas era ficção mesmo. Era uma tradução do "Academia Ingônish", do John Carpenter. E eu na altura fiz a protagonista, mas era uma personagem que eu estava a interpretar. Aqui não, aqui há uma narração. E eu acho que nessa narração, e tendo em conta essa distância da história, ou seja, não é uma personagem que está a contar a sua própria história, há uma distância, mas ao mesmo tempo tem que haver uma proximidade qualquer para tu sentires que não está completamente desfasado, que é aquela pessoa que tu estás a conhecer, seja a Ani Silva Pais, seja quem for. Mas a verdade é que eu aqui a falar contigo, se calhar as pessoas só estão a ouvir a nossa voz, mas o nosso corpo está a comunicar também. E mesmo num trabalho como este, em que é só a voz que tu estás a usar, todo o corpo está convocado a contar a história e toda a tua cara está convocada a contar a história. Agora, tens tudo aquilo que tu não podes fazer ou com os olhos ou com as mãos, que poderia ser um recurso usado em cinema ou no teatro ou na televisão, aqui tens que canalizar tudo para a voz, mas o corpo está todo a trabalhar. É quase como se estivesse a fazer teatro, é quase como se estivesse a narrar uma peça de teatro. Para mim é a mesma coisa, no sentido em que está o meu corpo todo convocado, apesar de ser só a minha voz que está a ser ouvida.

Nós neste podcast, e falávamos disso aqui há bocadinho, a questão de termos aqui uma mulher revolucionária por si só, e é ouvir a história, ouvir estes seis episódios que vão perceber, com certeza. Na tua vida diária e o facto desta tua geração de atrizes, o que tu hoje consideras um gesto verdadeiramente revolucionário para a tua geração?

Sinceramente, e pegando naquilo que estávamos a falar há pouco, tratares bem os outros, sorrires e teres a capacidade de ver as coisas bonitas da vida, acho que é um gesto super revolucionário hoje em dia. Tendo em conta que o caminho está a ser oposto.

Evidentemente, não é? Ou seja, é estranho acharmos isso revolucionário hoje em dia.

Não há nada mais revolucionário hoje em dia do que um gesto de amor, um sorriso a alguém que tu se calhar não conheces, mas por quem passas de manhã ou dizeres bom dia. Se calhar não há nada mais revolucionário que isso. O tu realmente olhares para o outro, prestares atenção aos outros, cuidares dos outros. Não sei, pelo menos neste momento da minha vida, eu sinto que é isso que faz a diferença, tanto no meu trato com os outros como nos outros em relação a mim.

"Os Escândalos de uma Revolucionária", novo podcast Plus do Observador, narração da Bárbara Branco, a banda sonora, como dizíamos há pouco, é do Franky Chaves, está muito boa, casa tudo muito bem.

Eu acho que sim. Eu sou suspeita.

Nesta série de seis episódios.

Se calhar é um bocado chato estar a dizer isto, mas eu acho mesmo que está um trabalho muito bem feito.

A ouvir em observador.pt e nas plataformas de podcast. Entretanto, a Bárbara Branco é uma pessoa que não sabe estar parada e está neste momento também em cena naquela que é uma reabertura histórica do Teatro Nacional Dona Maria II.

Também diria que sim, histórica.

Achei muito engraçado o facto de teres uma entrevista há muito pouco tempo, em que disseste que é um edifício imponente na cidade de Lisboa e que muita gente olha para ele e se sente intimidado. Eu próprio sinto isso e achei muito engraçado fazeres essa comparação. O que traz esta peça que tu estás a interpretar, Macbeth, em que estás ao lado do Zé Raposo, estás com o Pedro Penim, que é uma pessoa que eu também sei que tu gostas muito de trabalhar. E esta história é muito curiosa porque, pelo que eu percebi, tu não ias fazer este papel.

Não. Eu às vezes tenho um bocado de reticência em falar sobre estas coisas.

É o destino.

Inicialmente, a pessoa que tinha sido convidada era a Rita Blanco, só que entretanto surgiram outras coisas, a Rita acabou por não conseguir fazer e o Pedro convidou-me. E, como é óbvio, eu aceitei, não havia sequer questão em relação a isto. Era o Macbeth, na reabertura do Teatro Nacional, uma mega produção. Atenção, o teatro foi remodelado, há muitas coisas que as pessoas não conseguem ver, porque foi muito mais uma mudança técnica e nos escritórios.

Ou seja, vocês vão sentir muito mais esta mudança.

E nas condições para os trabalhadores do que para o público. Há a livraria, a livraria foi remodelada e vão sentir essa diferença, mas na sala em si manteve-se tudo igual. E como é óbvio, é um edifício histórico, toda a traça do edifício tem de ser mantida e preservada. Mas, por exemplo, as plataformas rotativas do palco foram todas mexidas, foram adicionados sistemas de segurança e todas essas plataformas estão a ser usadas no espetáculo. Portanto, é um espetáculo que tecnicamente é uma loucura absoluta, super ambicioso, tens as plataformas todas a mexer. Vou dizer, temos fogo no espetáculo. A logística que é preciso para ter fogo num espetáculo, eu não sonhava. Pronto, então o Pedro decidiu encenar esta peça na reabertura, por quê? Porque a 2 de dezembro de 64.

Há aqui uma ligação, não é?

Exatamente.

Vamos a isso.

Vamos a isso. A 2 de dezembro de 64, o teatro ardeu, o Teatro Nacional ardeu, esteve não sei quantos anos em obras, não sei se foram 12 anos, foi uma coisa louca. E que peça é que estava em cena quando o teatro ardeu? Macbeth. Portanto, o Pedro decidiu desafiar as odes e desafiar os maus presságios e pôr esta peça em cena nesta altura, nesta reabertura do Teatro Nacional. E cá estamos nós a fazer este espetáculo, que é muito ambicioso, é muito cansativo, principalmente para o Zé Raposo. Não sei se já tiveste cá o Zé, mas se tiveres em breve.

Também já vai em 40 minutos, já há algum tempo.

De certeza que te vai falar disso. São duas horas e meia em que ele e todos, mas ele principalmente, está ligado à ficha. A partir do momento em que o espetáculo começa, a máquina Macbeth começa a matar e só termina no fim. Mas estou muito feliz, eu adoro trabalhar com este grupo e adoro mesmo de coração trabalhar com o Pedro. Não me canso de dizer isto, porque é mesmo raro encontrar num encenador a medida certa entre o rigor a trabalhar, e o Pedro é super rigoroso e sabe o que quer do espetáculo, mas abre espaço suficiente para descobrir o espetáculo conosco também e dá-nos muita liberdade para experimentar e para propor e para rir. Nós rimo-nos muito, somos um elenco, também acredito que tenha a ver com este elenco, sim, mas com o espaço que o Pedro nos dá.

E estamos a falar aqui de um texto de Shakespeare, ou seja, não nos podemos esquecer disso.

Claro, é o Macbeth de Shakespeare. É uma peça violentíssima.

Tu és uma vilã?

Sim, diria que sim, de alguma maneira. Não, mas ou seja, é uma peça tão violenta e tão pesada que poderia não haver espaço para brincarmos com o que estamos a fazer. E há esse espaço. Agora, este espetáculo, atenção, o Pedro normalmente faz adaptações. Neste caso, é mesmo o texto original, traduzido pelo Pedro. Portanto, estamos mesmo a fazer a peça Macbeth. E tem sido um desafio interessante, também acredito para o Pedro e para todos nós, levar esta tragédia a sério e levá-la ao limite, levá-la até ao fim. Mas tem sido um processo muito giro. Em relação à Lady Macbeth, especificamente. Como é óbvio, é uma vilã. Ela instiga a morte do rei. Para quem não conhece a história, basicamente há um rei no trono, que é o rei Duncan, e o Macbeth é um soldado, escocês também, que consegue coisas incríveis na batalha e acaba por ser promovido pelo rei, entre aspas, assim que ele chega à Escócia de volta da batalha, encontra três bruxas que lhe dão uma profecia relacionada com a ascensão dele ao trono da Escócia. E basicamente, ele e a mulher decidem construir um plano para matar o rei. Isto é a história muito resumidamente. Agora, há aqui muitas questões em relação à Lady Macbeth e quanto tempo é que tens para falar sobre isto?

Temos, vamos a isso.

Pronto. Em relação à Lady Macbeth, como é óbvio, ela é uma vilã, e o Macbeth é um vilão também. Eles matam, fazem coisas horríveis, planeiam e sonham com coisas horríveis.

Ou seja, só por aí, já temos aqui uma grande densidade dramática da história.

Super, muito mesmo. Mas eu, como pessoa que vai ter que interpretar a Lady Macbeth, não me serve de muito categorizá-la à partida como uma vilã. Como é óbvio, eu leio o texto e percebo, é uma pessoa que eu não gostaria de ter como amiga.

Exato. Ou seja, isso para o teu trabalho não é necessariamente importante.

Sim, sei lá, eu não me posso agarrar muito a essa ideia, porque eu acho que depois qualquer humanidade que ela possa ter, é-lhe retirada. Não que ela tenha que ter uma redenção, e eu durante muito tempo procurei uma redenção na Lady Macbeth. E tive que fazer as pazes com o facto de se calhar ela é só uma mulher muito má, que não se safa, é mesmo uma pessoa ruim. Mas não sei, na construção da personagem custa-me um bocadinho pô-la logo nessa categoria, porque eu acho que podemos perder muitas coisas no processo se dissermos logo que ela é uma mulher má. Se calhar há outras coisas nela que podem saltar à vista e pelas quais eu posso puxar, que se calhar a humanizam um bocadinho. Se calhar ela é só uma mulher muito ambiciosa, se calhar é uma mulher inconformada. Não sei, pode ser divertida. Ela pode ser uma mulher divertida, pode ser uma mulher alegre, apesar de tudo. E depois, como é óbvio, a história vai-se desenrolando e isso vira. Mas não sei, tem sido muito enriquecedor trabalhar este texto, porque a cada ensaio, a cada vez que Que eu leio, agora já estamos no palco, mas assim que volto ao papel, há sempre coisas novas a descobrir. E é um texto que não se esgota e por isso é que o estamos a representar centenas de anos depois.

Com esta ligação histórica.

Sim.

Ao dia 2 de dezembro.

Até agora nós temos sido muito sortudos. Tendo em conta tudo que nós estamos a desafiar ao nível da maldição Macbeth, porque não sei se sabem, mas Macbeth é uma peça conhecida no meio teatral como a peça escocesa, dizem que não se pode dizer o nome. Há imensos mitos à volta disto, e o Pedro também explica isso no prólogo da peça. Diz-se que o Shakespeare usou mesmo feitiços reais e as bruxas não gostaram e amaldiçoaram a peça. Há sempre uma data de mitos à volta disso.

Tu és uma pessoa supersticiosa, que acredita nesse tipo de coisas, ou não é bem isso?

Eu costumo ser.

É?

Sim, eu sou muito de energias, de alguma maneira. Mas não estou nada supersticiosa em relação a esta peça. Não estou nada supersticiosa em relação a esta peça. Estou muito confiante. Posso engolir isto tudo que eu estou a dizer. Atenção, pode de repente acontecer alguma coisa e eu penso assim: não devíamos ter nos metido nisto. Não, mas até agora está a correr muito bem.

Macbeth, no Teatro Nacional D. Maria II.

Até 31 de outubro.

Exatamente. E veremos se não temos aqui um prolongamento.

Eu adorava, mas é um espetáculo mesmo ambicioso para transportar. Ou seja, tudo que seja digressão é mesmo muito complexo. E é um espetáculo que exige um palco muito específico, um teatro com condições muito específicas. Temos o fogo, portanto, não é qualquer teatro que pode ter espetáculos com fogo. É difícil, mas espero que sim, eu vou lutar por isso.

Contigo, Bárbara Branco, José Raposo, mais atores, não é?

Somos muitos, somos 12.

Muitos.

Queres que diga toda a gente?

Eu acho isso sempre ingrato, sabes por quê? Porque depois tenho medo de pedir e tu não te lembrares de algum.

Eu ia abrir o cartaz, mas espera, vamos tentar. Bárbara Branco, Zé Raposo, Stella, June João, Ana Tang, Hugo van der Ding, Vítor Silva Costa, Ana Coimbra, Sandro Feliciano, Bernardo Lacerda, João Grosso e José Neves. E já estamos todos.

Muito bem, esta memória está aqui.

Sonoplastia de Filipe Batista.

Está impecável.

Pronto, é o que temos até agora.

Podemos ouvir-te no novo podcast+ do Observador, Em Cena, no Teatro Nacional D. Maria II. Estamos aqui a terminar o nosso Em 40 Minutos. No fundo, este programa revela muito dos nossos convidados aos nossos ouvintes. Aquilo que gostam, aquilo que não gostam, aquilo que os tira do sério. O que te inquieta, Bárbara Branco? Em relação ao futuro, tu és muito jovem. Tu deves te cansar de ouvir isto. Aliás, eu acho que é daquelas coisas que se ouve mais.

Mas vai-se ouvindo cada vez menos, não é? Porque vais deixando de ser tão jovem. Isso é uma coisa que se vai esgotando. Tu és tão jovem até que idade? Até que idade é que se deve ouvir isso?

Isso aí já estamos a entrar em pequenos apartados.

Mas será que se ouve a vida toda? Imagina, depende da pessoa que te está a dizer. Depende de uma pessoa com 80 anos. Tu tens 40 anos.

Que te está a entrevistar.

Mas tens 40 anos. Se uma pessoa de 80 anos te disser: "Tu és tão jovem", estás a ouvir isso até quando?

Não, mas eu acho que como tu apareceste tão cedo, tu vais ser, durante muito tempo, a jovem.

Pronto.

O que te inquieta, Bárbara Branco?

Não sei, neste momento, eu se calhar estou muito monotemática.

Nós já falámos aqui de várias coisas quando tocámos no tema das redes sociais, tu falaste da questão da habitação, por exemplo.

Isso, super. Mas eu tenho muita sorte. Eu este ano consegui comprar a minha primeira casa, ao fim de muitos anos de muito trabalho. Consegui comprar uma casa para remodelar, para fazer obras, tenho que partir a casa toda e remodelá-la. Gosto muito desta ideia, e se calhar isso é um bocadinho transversal à minha vida também. Gosto desta ideia de, neste caso específico da casa, pegar num espaço que está velho e que está, de alguma forma, a precisar de amor e carinho, e de perceber o potencial que ele tem, investir nesse potencial a nível de ideias e de criatividade e transformá-lo numa casa, na minha casa. E talvez isto seja transversal à minha vida. Não sei se é bem uma inquietação, mas se calhar esta coisa de pegar em um texto, em situações, pôr-lhes amor em cima e transformá-las em coisas bonitas, é uma coisa que eu tenho tentado fazer na minha vida a vários níveis. E se calhar isso é uma coisa que me inquieta, essa possibilidade de haver tanta coisa tão difícil de gerir no mundo e nas vidas de cada um de nós, mas se calhar se lhe pusermos amor em cima, conseguimos colher outro tipo de amor, de alegria e de felicidade. E estou um bocadinho nessa fase, de tentar transformar as coisas menos fixes num diamante. Não sei.

Que bonito.

Que lindo! Olha, que lindo.

O que te inspira todos os dias?

Diria a possibilidade de a vida poder ser muitas coisas e muitas delas nós não imaginamos sequer. Há coisas incríveis que nos podem acontecer e que nós não temos ainda sequer a capacidade de sonhar ou não temos capacidade de olhar para elas e ver coisas incríveis. Eu acho que isto desliga um bocadinho com o que eu estava a dizer ainda agora. Às vezes somos mesmo surpreendidos pelas coisas que nos acontecem, pelas pessoas que encontramos. Se nós abrirmos espaço para isso e se dermos uma chance para que essas coisas nos visitem e nos surjam. E isso inspira-me, essa possibilidade de tudo que ainda há para conhecer e tudo que ainda há para ver e tudo que ainda há para ouvir e para ler e as pessoas que ainda há para conhecer. Essa surpresa inspira-me.

Bárbara Branco, é sempre muito bom falar contigo.

Igualmente. Obrigada.

E vamos voltar ao tema da juventude. Tens uma densidade e um mundo, que para alguém tão jovem, talvez não seja tão comum. E portanto, muito obrigado por isso. Muito obrigado por teres vindo ao Em 40 Minutos e és sempre bem-vinda. Esta também é a tua casa agora.

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