Suíça investe para capacitar 100 PMEs brasileiras diante das novas exigências ESG do mercado global
O avanço do acordo de livre comércio entre o Mercosul e o bloco europeu EFTA abriu novas oportunidades de cooperação econômica com o Brasil.
Maior economia e um dos principais produtores agropecuários do mundo, o país passou a ser visto pelo governo suíço como um parceiro estratégico para o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.
Em um mercado global cada vez mais exigente quanto à origem dos produtos e às práticas ESG, comprovar responsabilidade ambiental e trabalhista se tornou um fator de competitividade para os negócios.
É nesse contexto que a Suíça, por meio de sua Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECO), financia a expansão do Programa de Negócios Competitivos (PNC), da Global Reporting Initiative (GRI), organização responsável pelas normas de sustentabilidade mais adotadas no mundo.
O lançamento no Brasil está previsto para quarta-feira, 4 de novembro, e marca o retorno da atuação local da GRI ao país após sete anos. A meta inicial é capacitar pelo menos 100 pequenas e médias empresas (PMEs) na elaboração de relatórios, com o diferencial do apoio da inteligência artificial.
Em entrevista à EXAME, Hanspeter Mock, embaixador da Suíça no Brasil, alerta para as consequências do descumprimento das exigências internacionais.
"Quem não produz conforme as regras não vai poder exportar", afirma.
O financiamento suíço para o programa global é de pouco menos de 4 milhões de francos, o equivalente a quase R$ 27 milhões, entre 2025 e 2028. O Brasil receberá uma parcela desses recursos, ainda não detalhada, assim como a Argentina, onde a iniciativa também conta com apoio da SECO.
O avanço do acordo de livre comércio entre o Mercosul e Europa abriu novas oportunidades de cooperação econômica com o Brasil. Maior economia do bloco e um dos principais produtores agropecuários do mundo, o país passou a ser visto pelo governo suíço como um parceiro estratégico para o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.
Em um mercado global cada vez mais exigente quanto à origem dos produtos e às práticas ESG, comprovar responsabilidade ambiental e trabalhista se tornou um fator de competitividade para os negócios.
É nesse contexto que a Suíça, por meio de sua Secretaria de Estado para Assuntos Econômicos (SECO), financia a expansão do Programa de Negócios Competitivos (PNC), da Global Reporting Initiative (GRI), organização responsável pelas normas de sustentabilidade mais adotadas no mundo.
O lançamento no Brasil está previsto para quarta-feira, 4 de novembro, e marca o retorno da atuação local da GRI ao país após sete anos. A meta inicial é capacitar pelo menos 100 pequenas e médias empresas (PMEs) na elaboração de relatórios, com o diferencial do apoio da inteligência artificial.
Em entrevista à EXAME, Hanspeter Mock, embaixador da Suíça no Brasil, alerta para as consequências do descumprimento das exigências internacionais.
"Quem não produz conforme as regras não vai poder exportar", afirma.
O financiamento suíço para o programa global é de pouco menos de 4 milhões de francos, o equivalente a quase R$ 27 milhões, entre 2025 e 2028. O Brasil receberá uma parcela desses recursos, ainda não detalhada, assim como a Argentina, onde a iniciativa também conta com apoio da SECO.
Segundo Mock, a aproximação comercial entre os dois blocos foi uma das motivações para o apoio ao programa. O embaixador, porém, ressalta que ampliar o comércio bilateral não é o objetivo direto do investimento, mas uma possível consequência do fortalecimento das empresas brasileiras.
"A Suíça faz isso não na perspectiva de negócios. É uma iniciativa de cooperação para o desenvolvimento econômico sustentável. Se esse é um efeito colateral, ninguém vai ficar triste", destaca.
Por que a Suíça está de olho no Brasil
O Brasil ocupa uma posição relevante nas cadeias globais de fornecimento de matérias-primas e produtos agropecuários.
Para Mock, o país já possui experiência e capacidade produtiva para atender compradores internacionais, mas ainda enfrenta desafios para demonstrar, especialmente entre pequenos negócios, a conformidade com padrões de sustentabilidade.
A necessidade de comprovação ganha importância em mercados como o europeu, onde consumidores e grandes companhias demandam informações sobre toda a cadeia de produção, desde a origem dos insumos até as condições de trabalho.
O embaixador cita o café e o cacau utilizado na fabricação do chocolate suíço como exemplos de produtos em que a trajetória é acompanhada por compradores preocupados com questões ambientais e sociais.
Segundo ele, o desafio brasileiro não é apenas melhorar as práticas produtivas, mas também torná-las conhecidas e comprováveis no exterior.
"A grande indústria já sabe e até promove as normas de qualidade para poder exportar. Só que às vezes, nos países europeus, isso não é tão conhecido pelo público. Há um certo preconceito também", explica.
Nesse cenário, relatórios padronizados podem ajudar fornecedores a demonstrar como operam e reduzir a assimetria de informações entre produtores brasileiros e compradores estrangeiros.
Como o programa pretende preparar as pequenas empresas
A chegada do programa pretende enfrentar uma dificuldade recorrente entre pequenas e médias empresas: a falta de recursos, conhecimento técnico e estrutura para elaborar relatórios de sustentabilidade.
Embora grandes companhias já tenham equipes dedicadas à gestão ESG, fornecedores menores frequentemente precisam responder a diferentes questionários e exigências de clientes sem contar com profissionais especializados.
Na prática, a iniciativa busca simplificar esse processo por meio de capacitações e ferramentas adaptadas à realidade das PMEs, permitindo que elas comecem a identificar, organizar e divulgar informações sobre seus impactos ambientais, sociais e econômicos.
"A vantagem é propor modelos que cumpram várias exigências de diversos países ou parceiros em um só relatório, sem ter que fazer dez para dez destinos de exportação", exemplifica o embaixador.
Além da formulação do documento, as empresas também poderão identificar riscos e oportunidades de melhoria em sua gestão.
No Brasil, a iniciativa será conduzida pela GRI sob a liderança de Danielly de Andrade Mello Freire, engenheira ambiental e especialista em clima, ESG e impacto.
"O relatório de sustentabilidade é, hoje, uma ferramenta de gestão interna e uma licença comercial para operar, por isso a GRI está investindo esforços neste retorno ao país", afirmou a executiva, em comunicado.
O programa terá dois modelos de participação. No primeiro, grandes companhias, chamadas de empresas âncoras, convidam seus fornecedores para participar das capacitações.
No segundo, parceiros implementadores, como federações, associações, câmaras empresariais e consultorias, mobilizam grupos de interessadas.
A Natura e o Hcor estão entre as primeiras empresas confirmadas como âncoras. A proposta é que utilizem as ferramentas da GRI para apoiar o desenvolvimento de fornecedores de suas respectivas cadeias de valor.
As PMEs participantes passarão por etapas de sensibilização, treinamento e acompanhamento técnico, com sessões de uma hora e meia conduzidas por especialistas.
Outra novidade será o lançamento de um agente de inteligência artificial desenvolvido pela GRI em parceria com a EcomindsAI. A ferramenta deverá auxiliar as empresas na elaboração dos relatórios e na estruturação de uma matriz de prioridades, identificando os temas mais relevantes.
Os resultados do programa no exterior
Embora esteja chegando agora ao Brasil, o programa já possui experiência em outros países da América Latina, incluindo Colômbia, Peru e México, e também está em andamento na Argentina.
Segundo dados divulgados pela GRI, os países participantes produziram mais de 3,5 mil relatórios de sustentabilidade em um período de quatro anos.
Os resultados apresentados pela organização também indicam mudanças na gestão das empresas participantes.
Entre as pequenas e médias empresas avaliadas, 100% afirmaram ter incorporado critérios de sustentabilidade que não adotavam anteriormente. Outros 89% implementaram planos de ação para melhorar a gestão ambiental e social após a elaboração dos relatórios.
Além disso, 66,7% relataram melhorias na eficiência da gestão e no desempenho geral.
Os indicadores são apresentados pela GRI como evidências de que a elaboração de relatórios pode funcionar como um ponto de partida para mudanças nas práticas empresariais, indo além do atendimento a demandas de clientes e investidores.
A previsão é que o trabalho financiado pela SECO no Brasil e na Argentina continue até dezembro de 2028.
Boas práticas e diferencial competitivo
A aposta da GRI ocorre em um momento no qual relatórios de sustentabilidade ganham espaço nas relações entre grandes empresas e suas cadeias de fornecedores.
De acordo com a organização, 90% das principais companhias que divulgam essas informações utilizam as Normas GRI. Anualmente, mais de 14 mil publicam relatórios com base nesses padrões.
As normas também são referenciadas por políticas nacionais ou jurisdicionais em 128 países.
Mock afirma que a Suíça pretende avaliar os resultados do programa principalmente pela capacidade de reduzir a complexidade burocrática. "Com certeza não vamos medir o sucesso em porcentagem de negócios, mas no aumento da eficiência dos relatórios", afirmou.
Para o GRI, o objetivo é que a transparência deixe de ser uma exigência restrita às grandes corporações e passe a integrar a gestão de empresas menores, justamente aquelas que formam parte importante das cadeias globais de fornecimento.
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