Comecei a sentir dor pélvica aos 8 anos e perdi um ovário por diagnóstico tardio, diz jovem com Somp
A estudante Mariana Soares, 23, começou a sentir dor pélvica na infância. Aos 8 anos, antes mesmo de menstruar, sentiu fortes cólicas pela primeira vez e entendeu que tudo poderia piorar na menarca.
Naquela época, aprendeu a lidar com as dores da mãe, que passava dias deitada ou desmaiava no trabalho. Também se acostumou a fazer compressas quentes na barriga.
Aos 11 anos, a primeira menstruação chegou sem cólica, mas com sangramento intenso e ciclos que se estendiam por semanas. Diferentes médicos da rede pública de saúde atribuíram o quadro à idade e prescreveram anticoncepcionais sem pedir qualquer exame. Aos 13, ela passou 50 dias seguidos sangrando e desenvolveu anemia.
Os anticoncepcionais não ajudaram muito, e as cólicas se tornaram incapacitantes, acompanhadas de dores, câimbras e enxaquecas.
Aos 17 anos, Mariana passou dias com uma dor atribuída a infecção urinária, mas tinha torção no ovário esquerdo. O diagnóstico tardio lhe custou o ovário e a trompa. Após a experiência, sonha cursar medicina para ouvir pacientes.
Leia abaixo o depoimento de Mariana.
"Minha mãe já tinha aqueles sintomas que hoje sei que eram de endometriose, só que não foi diagnosticada. Cresci acostumada a cuidar da dor dela.
Eu tinha uns 8 anos e sentia muita cólica, mesmo sem ainda ter menstruado. Menstruei com 11 anos. Não veio com cólica, mas com um sangramento muito intenso, que durava semanas. Às vezes eu ficava um mês sem menstruar, depois vinha um fluxo forte por dez dias seguidos.
Minha mãe me levou ao posto de saúde. A ginecologista disse que era normal da idade e que passaria quando eu me 'desenvolvesse sexualmente'. Comecei a tomar meu primeiro anticoncepcional aos 12 anos, sem que a médica pedisse exames. O remédio me dava câimbra, e minha mãe vivia com medo de trombose.
Voltamos à médica algumas vezes, mas ela nunca pediu exames, dizendo que eu era 'muito novinha'. Trocou o anticoncepcional, e os ciclos só pioraram. Passaram a durar 15, depois 30 dias, com intervalos de dois ou três meses.
Com 13 anos, fiquei 50 dias seguidos sangrando. Usava fralda geriátrica e mesmo assim vazava. Comecei a passar mal e fui parar numa maternidade de referência em Belo Horizonte. Contei todo o histórico para a médica, e ela só me passou um teste de gravidez. Fiz o teste, deu negativo, e ela trocou meu anticoncepcional de novo. Nenhum exame de sangue, nenhum ultrassom.
Foi um conhecido da família, que trabalhava em um hospital, que conseguiu um desconto para eu consultar um ginecologista particular. O médico foi o primeiro a perguntar quantos ultrassons eu já tinha feito. Nenhum, respondi. Foi então que fiz meu primeiro exame de imagem, aos 14 anos, e recebi o diagnóstico da então síndrome dos ovários policísticos.
Acho que, se houvesse médicos realmente dispostos a ouvir as pacientes, talvez eu não estivesse sofrendo tanto. Talvez não tivesse perdido um dos meus ovários ou passado por uma anemia profunda. Talvez não tivesse passado por tantas violências no sistema de saúde por simples falta de vontade de ouvir
O tratamento com o anticoncepcional certo fez as câimbras pararem e regularizou o ciclo, mas as cólicas continuaram. Ainda hoje sinto muitos sintomas que reconheço como possíveis sinais de endometriose, embora não tenha esse diagnóstico confirmado.
Aos 17 anos, em abril de 2021, na pandemia, acordei com uma dor insuportável, do nada. Fui ao posto de saúde, tomei remédio na veia, vomitei, recebi morfina. A médica suspeitou dos meus ovários e me encaminhou a uma unidade 24 horas.
Lá, ignoraram meu histórico e investigaram cólica renal. Tomei mais analgésicos, incluindo morfina e tramadol, e fui transferida para uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Fiquei o dia todo gritando de dor, sem que os exames de sangue e urina e o raio-X apontassem nada além de uma leve infecção urinária. Pediram um ultrassom, mas de rins e vias urinárias, não da região ginecológica.
Como o exame pelo SUS demoraria dias, minha mãe conseguiu uma vaga particular para dois dias depois. Passei esse tempo praticamente sem comer ou dormir. No exame, a médica notou que não conseguia visualizar meu ovário esquerdo e suspeitou de torção ovariana. Orientou minha mãe a me levar direto para o hospital de referência.
A cirurgia geral identificou algo suspeito e pediu uma tomografia, mas, por ser uma questão ginecológica, fui encaminhada à ginecologia. As médicas que me atenderam disseram que eu não tinha nada, que era só uma infecção urinária, e que a colega que viu a torção 'tinha ido olhar o que não era da conta dela'. Mandaram eu ir embora.
Como elas não formalizaram minha alta, passei a noite internada. Na manhã seguinte, me levaram para a tomografia, que confirmou a torção ovariana. Meu ovário esquerdo tinha um cisto de 8 centímetros, maior que uma laranja, que havia torcido. Já tinham se passado três dias, quando o prazo para reverter esse tipo de torção é de até 24 horas.
Fui operada no mesmo dia. Perdi o ovário e a trompa esquerdos. A recuperação física foi tranquila, mas a experiência toda foi desesperadora.
Depois da cirurgia, a médica do posto pediu ultrassons anuais de acompanhamento. O primeiro pedido ficou parado no sistema por cinco anos. Só consegui fazer o exame neste ano. Durante todo esse tempo, se algo tivesse dado errado, eu não teria como saber.
Hoje tenho dor de cabeça, enjoo, intestino preso, fadiga, e dor nas pernas, nos braços e nas costas. Nos dias mais fortes, a única solução é ir ao hospital tomar remédio na veia. Já fui parar lá umas três ou quatro vezes só neste ano. No trabalho, preciso faltar e levar atestado, e já ouvi da minha chefe que eu deveria 'descobrir um remedinho' para dor.
Minha mãe menstruou aos 9 anos e só foi diagnosticada com endometriose e adenomiose perto dos 40, depois de ter dois filhos. Um médico chegou a dizer a ela que, se tentasse engravidar de novo, teria que escolher entre a própria vida ou a do bebê. Ela precisou fazer uma histerectomia quase completa.
Ela era funcionária de supermercado e desmaiava no meio do trabalho porque estava morrendo de dor e o gerente falava que ela não podia sair.
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Hoje faço curso pré-vestibular e sonho em ser médica. Espero fazer alguma mudança no sistema de saúde porque, além da dor física, que é insuportável, é ruim quando você está passando mal e é invalidado. Eu sinto que essa dor foi muito invalidada por muito tempo.
Acho que, se houvesse médicos realmente dispostos a ouvir as pacientes, talvez eu não estivesse sofrendo tanto. Talvez não tivesse perdido um dos meus ovários ou passado por uma anemia profunda. Talvez não tivesse passado por tantas violências no sistema de saúde por simples falta de vontade de ouvir."
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