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Saturday, October 17, 2026

Chissano para Mondlane: "Um não é mais povo do que o outro"

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O Presidente português, António José Seguro, elogiou o seu papel na construção da paz, da democracia multipartidária e na abertura da economia moçambicana e agradeceu-lhe por continuar a ser uma voz da paz e do diálogo. Ao olhar para o percurso de Moçambique desde que deixou a Presidência, que balanço faz? Revê-se neste país atual?
Sim, revejo-me. Precisamente neste momento, porque em Moçambique só se fala de diálogo nacional e inclusivo. E que é um diálogo que começou já há vários meses e que está progredindo, está tomando forma em vários escalões da população. Portanto, a busca não é apenas de consolidação da paz, mas também de reconciliação e de inclusividade, de espírito de tolerância.
Quando eu deixei a presidência estávamos em paz, embora houvesse alguns distúrbios localizados num ponto do país, que era um ponto no centro do país, mas todo o território estava tranquilo e continuou até agora. E agora esse tal ponto passou para o norte por outros motivos, que é um movimento estranho, novo, que aconteceu e que tem o nome de terrorismo.

Está a falar em Cabo Delgado.
Cabo Delgado. Mas o país está mesmo assim a marchar.

Mas já que fala em Cabo Delgado, é uma guerra que se prolonga há muitos anos, apesar das operações militares e apesar do apoio externo. O que é que, na sua opinião, falhou na resposta do Estado para que esta insurgência continuasse a encontrar condições para persistir?
Primeiro foi a surpresa. Penso que ninguém estava à espera de um movimento jihadista com características de extremismo islâmico em Moçambique. E [para encontrar as] formas de combater este mal, que era novo na zona, não só em Moçambique, mas em toda a região, foi preciso fazer um estudo e o que se encontrou foi a mobilização, primeiro das nossas populações e, segundo, pedir apoios externos.

Que existem…
Então tivemos os apoios externos primeiro da região e de um país amigo que é o Ruanda. E serviu para ir repelindo os ataques. E hoje os ataques já são muito brandos, pelo menos permitem o retorno das atividades económicas, mesmo aquelas que tinham fechado, que reabriram. Dou o exemplo dos projetos de gás com os franceses da Total, que reabriram em grande. O aparecimento da segunda plataforma dá confiança aos investidores e muito mais a nós próprios, moçambicanos.

Mas acha que é possível resolver este problema militarmente? Sem enfrentar a pobreza, a exclusão e a falta de oportunidades daquela população?
Não se deve pensar em resolver apenas militarmente. Por isso, saúdo os esforços que o Governo está a fazer, de mobilização das populações e da juventude, para que a luta contra o terrorismo seja levada a cabo por todos, em várias frentes.

O caminho que está traçado é o ideal? Não prevê ou não aconselha aqui nenhuma mudança de estratégia?
Bom, esta já é uma mudança de estratégia, no sentido de que realmente toda a gente está envolvida, as religiões todas [por exemplo]. Os muçulmanos, em particular, nas suas diferenças, juntam-se contra este mal. [Aposta-se] na educação das crianças, dos jovens, e [há] o esforço económico para melhorar a vida das próprias populações, [para] a criação de ocupação, para não dizer emprego, mas de ocupação, que possa aumentar rendimentos familiares e de jovens.

É uma coisa de que eles se queixam muito. Dizem que é uma zona rica em recursos naturais, que as grandes empresas estão lá, mas depois não sentem o reflexo disso na sua vida.
Sim, mas isso é a falta ainda da visão de como as empresas funcionam. São instaladas e têm que começar a funcionar, e [só] começam a dar rendimento a um dado momento. Pensa-se muito que é chegar e já ter o que distribuir… É preciso um bocadinho de paciência. E o Governo vai encontrando essas fórmulas para ir resolvendo o que pode, mas esperando que essas empresas, num futuro próximo, possam ter mais inputs para a própria população. Por exemplo, o projeto da Total estava encerrado, não estava a tirar dinheiro, o projeto está lá, mas não estava a tirar dinheiro nenhum. Agora vai tirar dinheiro para resolver vários assuntos essenciais, penso eu, que é o que deve ser, para que depois haja um ritmo maior de formação das pessoas, para arranjar emprego, alimentos, etc., melhores condições de vida.

O país está numa crise financeira e económica profunda, muito diferente daquela que deixou quando saiu da presidência. Nessa altura procurou reconstruir a economia depois da guerra, criou condições para o desenvolvimento, conseguiu muito apoio externo. Penso que no seu tempo a cooperação internacional chegou a significar 81 dólares per capita, em Moçambique, quando os outros países tinham apenas 27… Mas hoje o país enfrenta graves dificuldades económicas e a população sente que não beneficia da riqueza nacional. Onde é que se perdeu o rumo? Como é que explica que grandes empresas como a Mozal, por exemplo, tenham deixado Moçambique?
No caso da Mozal, eu penso que é a estratégia da própria Mozal [a maior indústria e o maior projeto de fundição de alumínio de Moçambique], que não funcionou como devia.

Não é um problema do país?
Eu penso que não, é um problema da empresa. A Mozal, por aquilo que eu oiço, não estou muito por dentro, depende da energia que compra na África do Sul. Nós fornecemos de Cahora Bassa [uma das maiores centrais hidroelétricas de África] energia para a África do Sul e a África do Sul vende energia à Mozal. Então é preciso criar as coisas de outra forma. É o que se está a discutir agora. Os que sucederem à Mozal certamente vão encontrar soluções, porque em Moçambique pode-se produzir ainda mais energia.
É um esquema da empresa e da política geral. A Mozal foi criada quando eu era chefe de Estado, e eu gostei muito porque foi um sinal de abertura para as empresas internacionais, sobretudo porque eles treinaram pessoal moçambicano que trabalhou na Mozal, mesmo em postos de direção, e depois criaram possibilidades de indústrias periféricas criadas para cooperar com a Mozal onde fosse necessário. Agora, a Mozal não está lá, mas as atividades das outras empresas continuam.

O FMI alertou recentemente para as dificuldades e vulnerabilidades da economia moçambicana. É um quadro muito diferente do que aquele que deixou, certo?
Sim, mas aquilo que eu deixei, já passou por várias fases. Moçambique já esteve na lista cinzenta e já saiu [lista do Grupo de Ação Financeira Internacional que inclui os países que estão sob monitorização reforçada devido a deficiências nos seus sistemas de prevenção e combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo. Moçambique entrou nesta lista internacional em outubro de 2022]. Neste Governo, já não está na lista cinzenta. Está a começar a fase ascendente de novo.

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