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Monday, October 19, 2026

Açaí a 25 libras, cacau na seca e vidro reciclado: as finalistas do Norte no Prêmio Na Prática

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As paraenses Brenda Nascimento, 21 anos, e Maria Paula Bastos, 27, e a amazonense Marcelly Câmara, 30, disputam nesta terça-feira, 20 de outubro, o título da Região Norte no Prêmio Na Prática 2026.

As três estão entre os 15 finalistas escolhidos entre mais de 9 mil inscritos, e quem vencer ganha uma imersão de uma semana na China.

Elas trabalham no mesmo território, com problemas diferentes. Os projetos vão da irrigação de cacau à reciclagem de vidro, passando por uma startup que quer aproximar as duas pontas da cadeia do açaí.

Como funciona o Prêmio Na Prática

Criado em 2025 pelo Na Prática, plataforma de carreira da Fundação Estudar, o Prêmio Na Prática Protagonismo Universitário reconhece estudantes que se destacam dentro e fora da sala de aula à frente de projetos com impacto econômico, social ou tecnológico. A segunda edição recebeu mais de 9 mil inscrições de todo o país.

A seleção é feita por região, de acordo com o estado onde o candidato estuda. Cerca de 1,6 mil inscritos passaram pela triagem inicial e 500 seguiram para entrevistas e testes de raciocínio lógico. Uma banca regional com 50 candidatos definiu os 15 finalistas, três por região. Treze deles estudaram em escola pública ou em escola particular com bolsa.

Nesta semana, os finalistas participam de uma imersão em São Paulo, com curso de liderança, visitas a empresas parceiras e apresentação a uma banca de especialistas e executivos. Cada região terá um vencedor, e um dos cinco recebe também o título nacional. Os premiados viajam por uma semana à China, com custos pagos, para conhecer o ecossistema de inovação do país. Os vencedores da primeira edição passaram por Pequim e Xangai, com visitas a empresas como a Alibaba e a centros de saúde e robótica.

O prêmio tem apoio do BTG Pactual e da Suzano. A EXAME é parceira de mídia da premiação.

O açaí que vale 25 libras em Londres

Maria Paula nasceu em uma comunidade ribeirinha, onde a avó criou o pai dela colhendo mandioca e vendendo tacacá. Foi a primeira da família a entrar na universidade e se formou em Economia na Universidade Federal do Pará.

Passou pela Procter & Gamble e pela Ambev antes de trocar o mundo corporativo pelas comunidades amazônicas. Na COP30, em Belém, coordenou a Global Youth Statement da ONU, documento com contribuições de mais de 30 mil jovens de 150 países entregue à presidência da conferência.

“Quando juntei esses dois mundos entendi como sorvetes de açaí podem ser vendidos por 25 libras no Reino Unido enquanto quem sobe na árvore para colher o fruto na Amazônia recebe menos de uma libra”, diz Maria Paula.

Para reduzir essa distância, fundou a Uiro, startup que combina dados, inteligência artificial e conhecimento tradicional das comunidades para prever safras e medir mercados. A ideia é diminuir o risco das cadeias de suprimento e atrair empresas para produtos com insumos amazônicos. A Uiro foi validada com três clientes, tem impacto estimado em cerca de 200 famílias extrativistas e já captou R$ 200 mil.

Um pote de barro contra a seca

Brenda vem de uma família de baixa renda e estuda Ciência da Computação no Centro Universitário do Pará. A ideia da Kitembu surgiu numa visita à Vila Jutaí, a 120 km de Belém, onde 120 famílias produtoras de cacau viam as safras ameaçadas pela seca.

A Kitembu é uma iniciativa estudantil que usa potes de barro porosos e sensores conectados para irrigar as mudas. O sistema funciona sem internet, é alimentado por energia solar e orienta os produtores sobre o que fazer antes, durante e depois da estiagem. A estimativa é reduzir em mais de 90% o investimento em relação às soluções convencionais. O projeto ficou em 3º lugar no Amazon Hacking.

Brenda também trabalha na Prefeitura de Belém, onde estruturou a base tecnológica do Belém Legado, que reúne dados municipais em um só ambiente. Sobre a final, ela recorre a uma imagem da infância.

“Sinto como se tivesse voltado a ser criança e estivesse numa loja de doces sozinha”, diz.

Brenda Nascimento, 21 anos

Brenda Nascimento, 21 anos (Divulgação)

Tecnologia social a 107 km de Manaus

Natural de Urucará, Marcelly atua há seis anos no interior do Amazonas. É cofundadora do Coletivo Casa Verde Itinerante, criado em 2019 em Presidente Figueiredo, a 107 km de Manaus, onde vive.

No coletivo, lidera o Vidros da Amazônia, que já reciclou mais de 27 mil garrafas, e o Cine Cult Social Itinerante, que leva cinema a comunidades rurais e ribeirinhas de difícil acesso.

Aos 28 anos, entrou no curso de Agroecologia da Universidade do Estado do Amazonas para criar tecnologias baratas e adaptadas à região. Na graduação, integrou a equipe que desenvolveu um desidratador de frutas com automação e energia solar, com apoio da Fapeam, para reduzir o desperdício nas feiras da cidade. O projeto ficou em 15º lugar entre 200 selecionados na primeira fase do Programa Centelha.

“Penso nos desafios enfrentados ao longo dessa trajetória e na importância de mostrar que também produzimos conhecimento, inovação e soluções a partir do interior”, diz Marcelly.

As três chegam à final pelo mesmo caminho: começaram pelo que viram de perto.

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