Médicos sugerem modelo híbrido de consultas

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) analisaram mais de 180 consultas por vídeo e por telefone e concluíram que os doentes dos cuidados de saúde primários consideram as teleconsultas por vídeo mais úteis e satisfatórias.
De acordo com o estudo publicado no BMC Primary Care em julho, apenas 13,4% dos doentes tiveram necessidade de uma avaliação pessoal pelo médico após a teleconsulta.
“A grande maioria das consultas foi percebida como útil para os doentes, sobretudo os que tiveram consultas por vídeo (95% versus 92%)”, refere o primeiro autor do estudo Daniel Beirão.
Nesta investigação foram avaliadas 184 mil consultas por vídeo e por telefone registadas numa plataforma de telemedicina portuguesa, no setor privado, entre 2021 e 2023.
Destas, 55% foram por vídeo e 45% foram por telefone, correspondendo a 100 mil doentes (34% tiveram mais do que uma consulta).
O objetivo foi comparar indicadores de qualidade e reunir evidência sobre a aplicação das duas modalidades.
No resumo enviado à agência Lusa, a FMUP explica que este estudo surgiu porque, nos últimos anos, a telemedicina ganhou relevância devido aos avanços da tecnologia digital, ao maior acesso à internet, à conveniência e à redução das deslocações e de custos, sobretudo em áreas mais remotas, “mas faltava perguntar aos doentes qual a sua opinião”, lê-se.
Os resultados indicam que as mulheres recorrem mais às teleconsultas (54% das teleconsultas realizadas por vídeo e 66% das teleconsultas feitas por telefone).
A idade mediana é de 37 anos, sendo mais baixa nas consultas por vídeo (31 anos) e mais elevada por telefone (48 anos).
Os doentes mais velhos tendem a escolher o telefone, o que terá a ver com a maior dificuldade em lidar com as novas tecnologias e com a falta de internet em casa.
Os resultados indicam que o pedido de uma nova consulta no espaço de 24 horas foi menor no caso de consultas por vídeo (4,2%), quando se comparava com o telefone (7,4%).
Já o telefone deu acesso mais rápido à consulta e exigiu menos encaminhamentos para avaliação presencial (12,5% versus 14,4%).
Apenas 13,4% dos doentes tiveram necessidade de uma avaliação pessoal pelo médico após a teleconsulta.
Segundo Daniel Beirão, estes dados apontam para “a efetividade destas abordagens”, mas sugerem que “nenhuma das modalidades é universalmente superior à outra”.
E ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), o também professor da FMUP sugere que adote “um modelo híbrido de consulta”.
“Uma reforma do modelo e a implementação de um modelo híbrido que combine presencial, vídeo e telefone, com critério clínico, agenda própria e registo adequado, podem encurtar esperas e libertar consulta presencial para quem dela mais precisa”, defende, deixando outros alertas.
“Alargar a oferta e alargar o acesso não são a mesma coisa: sem investimento em literacia digital, corremos o risco de que quem mais beneficiaria da avaliação visual seja justamente quem menos lhe consegue aceder”, concluiu.
O estudo tem autoria de Daniel Beirão, Carlos Franclim Silva, Bernardo Sousa-Pinto, Ana Luísa Neves e Paulo Santos, da FMUP, e de João Magalhães e Filipe Freitas Pinto, da FMUP e Knok.
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