Por que o tomate está tão caro? Preço sobe 60% no ano e oferta cai 33%
O preço de R$ 19,90 pelo quilo do tomate chamou a atenção de Maria das Neves, moradora da Chácara Santo Antônio, na zona sul de São Paulo. Na feira livre realizada todas as sextas-feiras no bairro, ela encontrou o fruto R$ 5 mais caro do que na semana anterior, quando havia pago R$ 14,90.
O susto da consumidora reflete uma alta que vai além das bancas da feira. Em outubro, o preço do tomate subiu 24,54% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador da inflação oficial do Brasil.
Em setembro, o fruto já havia registrado aumento de 37,76%. No acumulado de janeiro a outubro, a valorização chegou a 58,70%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pressão sobre os preços está relacionada, principalmente, à redução da oferta nas regiões produtoras. Embora o abastecimento tenha apresentado alguma recuperação em outubro, o volume disponível ainda permaneceu abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.
“Em outubro de 2026, a oferta em relação a setembro de 2026 se recuperou, mas ainda continua inferior à de outubro de 2025, com uma redução na ordem de 33%. Sequer o aporte do tomate rasteiro, usado principalmente pela indústria, foi suficiente para suprir a demanda”, informou a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) à EXAME.
Mesmo com a recuperação parcial do abastecimento em outubro, a oferta de tomate permaneceu cerca de 33% abaixo da registrada um ano antes.
A sequência de altas reforça o comportamento atípico dos preços do tomateneste ano, que contrariou o padrão histórico de comercialização.
Tradicionalmente, os preços do fruto tendem a recuar no segundo semestre, com a entrada da safra de inverno e a melhora das condições de oferta. Em 2026, porém, a combinação de fatores climáticos e redução da área plantada contribuiu para manter a pressão sobre as cotações.
Por que o preço do tomate disparou?
A explicação começa no campo. A menor oferta de tomate ao longo de setembro elevou os preços recebidos pelos produtores e reduziu o volume disponível para comercialização, pressionando os valores cobrados nos diferentes elos da cadeia.
No Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), os preços variaram segundo a variedade comercializada. Em outubro de 2026, o tomate Carmem registrou preço médio de R$ 7,59 por quilo, alta de 30% em relação a setembro e de 134,3% na comparação com outubro de 2025.
O tomate Pizzadoro chegou a R$ 7,19 por quilo, avanço mensal de 24,4%, enquanto o Débora atingiu R$ 6,02 por quilo, aumento de 6,5%.
Os dados mostram que, embora as três variedades tenham registrado valorização, a intensidade dos aumentos foi diferente. O Carmem apresentou a maior alta mensal entre os produtos citados e mais que dobrou de preço em relação a outubro do ano passado.
Na semana encerrada em 30 de outubro, o tomate longa vida registrou preço médio de R$ 242,66 por caixa no atacado de São Paulo, alta de 34,8%. Em Belo Horizonte, a cotação chegou a R$ 224 por caixa, avanço de 40,7%.
No Rio de Janeiro, o produto foi comercializado, em média, a R$ 254,66 por caixa, aumento de 39,1%, enquanto Campinas registrou R$ 247,66 por caixa, valorização de 41,7%, segundo dados da Hortifrúti/Cepea.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a baixa disponibilidade de tomates nas regiões produtoras está associada às temperaturas mais baixas, que desaceleram a maturação dos frutos e impulsionam as cotações nos mercados atacadistas acompanhados.
Como o El Niño pode afetar o preço do tomate?
A preocupação do mercado agora se volta para os próximos meses em razão do El Niño. O fenômeno deve alterar os padrões de chuva e temperatura nessas regiões, com consequências para o desenvolvimento das lavouras, a produtividade e o ritmo de colheita.
No caso do tomate, cuja comercialização depende de um abastecimento regular e da qualidade dos frutos, as oscilações na oferta tendem a se refletir rapidamente nos preços.
O principal risco para os próximos meses é que a pressão sobre os alimentos não fique restrita ao tomate, mas alcance outros produtos agrícolas sensíveis às condições climáticas.
Apesar das incertezas, a Ceagesp aponta que o ciclo de produção relativamente curto do tomate pode favorecer uma recuperação do abastecimento à medida que novas colheitas chegam ao mercado.
“Por se tratar de hortaliça de ciclo curto, a tendência natural do mercado é de estabilização de preços e volumes, à medida em que as novas colheitas entrem no fluxo de comercialização. Em resumo, sazonalidade e clima são os fatores preponderantes”, afirma a Ceagesp.
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