‘O Sentido da Vida’ celebra as conexões humanas diante da lógica cruel do capitalismo

Prêmio do Público de Melhor Ficção Internacional na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, filme de Ryūsuke Hamaguchi transforma um encontro inesperado em uma reflexão sobre a vida
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva)
Desde que conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional por Drive My Car (2021), Ryūsuke Hamaguchi passou a ocupar um lugar de destaque no cinema contemporâneo. O diretor japonês tem demonstrado especial interesse pelas relações humanas, pelas dificuldades de comunicação e pelos conflitos entre as necessidades individuais e as estruturas sociais.
Agora, em O Sentido da Vida, seu novo filme exibido na 50ª Mostra de Cinema de São Paulo, o cineasta japonês retoma parte dessas questões ao abordar a importância do cuidado em uma sociedade cada vez mais orientada pela produtividade. Mais do que procurar uma resposta definitiva para a nossa existência, como sugere o título brasileiro, o diretor observa o que acontece quando duas pessoas se permitem enxergar uma à outra para além das convenções e expectativas sociais.
A história começa com um encontro inesperado em um parque. Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira, Benedetta), diretora de uma casa de repouso nos arredores de Paris, conhece Mari Morisaki (Tao Okamoto, A Sombra de uma Estrela), uma dramaturga japonesa com diagnóstico grave de uma doença. Embora tenham trajetórias distintas, as duas compartilham experiências que favorecem uma aproximação: uma francesa que já estudou no Japão e uma japonesa que foi à França em busca de conhecimento.
Em seu trabalho, Marie-Lou implementa o Humanitude, metodologia de cuidado centrada no indivíduo. A proposta, entretanto, encontra resistência de uma equipe acostumada a uma lógica de trabalho que prioriza a eficiência e a administração dos corpos em detrimento das necessidades particulares de cada residente. O que poderia parecer apenas uma mudança de procedimento acaba revelando um problema muito maior: como oferecer um tratamento verdadeiramente humano dentro de uma estrutura que não foi concebida para respeitar o tempo e a individualidade de cada pessoa?
É a partir desse conflito que Hamaguchi desenvolve um de seus principais dilemas. Em determinado momento, o filme dedica um longo debate, inclusive com explicações em um quadro branco, para discutir como o capitalismo depende de um ciclo permanente de consumo e crescimento, mesmo quando essa lógica se mostra autodestrutiva. O cuidado defendido por Marie-Lou não encontra espaço nesse modelo: exige tempo, atenção e disponibilidade para reconhecer cada indivíduo além de sua condição física ou utilidade social.
Por isso, a metodologia Humanitude soa quase utópica quando confrontada com uma sociedade que transforma até o envelhecimento em um problema administrativo. O diretor também evita restringir a discussão ao funcionamento da instituição — soaria panfletário demais. Aos poucos, a relação entre as protagonistas desloca o debate para questões mais íntimas, mostrando como nossas ideias sobre existência, morte e responsabilidade diante do outro são atravessadas pela maneira como organizamos a vida em sociedade. A dimensão política do filme, portanto, não está separada de sua dimensão afetiva: uma coisa depende diretamente da outra.
A direção de Hamaguchi é especialmente elegante na maneira como organiza os encontros entre essas duas mulheres. Sua câmera acompanha as personagens com atenção aos espaços, aos olhares e às pequenas mudanças de comportamento, sem recorrer a movimentos ostensivos ou soluções dramáticas para sublinhar aquilo que já está presente nas relações. Há uma naturalidade na condução das conversas que permite às personagens transitarem entre assuntos cotidianos e questões profundas sem que a narrativa perca sua unidade.
Marie-Lou e Mari não precisam compartilhar os mesmos valores ou encontrar respostas para todas as perguntas; é justamente o exercício de escuta, mesmo diante das diferenças, que fortalece a relação. A convivência também revela algo interessante sobre a intimidade: conhecer alguém não significa necessariamente dominar sua história, mas reconhecer suas necessidades, respeitar seus limites e estar disponível para compartilhar um pedaço do próprio tempo. Nesse sentido, a aproximação das duas mulheres representa, em escala individual, aquilo que Marie-Lou tenta construir na casa de repouso: um espaço em que ninguém seja reduzido à função que desempenha ou à condição que ocupa.
A escolha do título brasileiro, aliás, acrescenta uma pretensão que não existe no projeto original: em japonês, Soudain (De Repente, na tradução livre), nome que também inspirou o título internacional All of a Sudden, carrega uma simplicidade muito mais próxima da proposta de Hamaguchi. O cineasta não pretende oferecer uma grande resposta para uma pergunta tão clichê, tampouco construir uma fábula sobre como devemos viver. Seu interesse está justamente na impossibilidade de encontrar respostas definitivas e na beleza de continuar procurando por elas ao lado de outras pessoas.
O Sentido da Vida nos revela — e celebra — que podemos transformar instituições e lutar contra uma lógica que reduz a existência à produtividade, mas não podemos escapar da finitude. O que está ao nosso alcance é tornar essa passagem mais digna, afetuosa e humana. É daí que nasce a esperança serena do filme: sem ignorar as contradições do mundo ou oferecer soluções fáceis, Hamaguchi encontra nas relações humanas uma forma de resistir à lógica cruel do capitalismo. Em tempos de tanto individualismo, cuidar do outro se torna um dos gestos mais profundos de afirmação da própria vida.
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Angelo Cordeiro é repórter do núcleo de cinema da Editora Perfil, que inclui CineBuzz, Rolling Stone Brasil e Contigo. Formado em Jornalismo pela Universidade São Judas, escreve sobre filmes desde 2014. São-paulino, pisciano, paulistano do bairro de Interlagos e fanático por Fórmula 1, listas e rankings.
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