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Saturday, October 3, 2026

Como a canção de protesto no Chile sobrevive em meio à ascensão da direita no país

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Poucos países fizeram da canção uma ferramenta política de tanto peso como o Chile. Da campanha de Salvador Allende, em 1970, às músicas contra a ditadura de Augusto Pinochet, as composições de Víctor Jara, do Quilapayún e do Inti-Illimani embalaram uma vitória eleitoral, sobreviveram ao golpe e ao exílio e voltaram às ruas meio século depois, no chamado "estallido social", onda de protestos em 2019.

Agora, com o ultradireitista José Antonio Kast na presidência, os herdeiros de Jara, e também de Violeta Parra, bem como veteranos que dividiram o palco com eles e toda uma geração nascida depois do golpe, estão diante de uma pergunta. O que a tradição do cancioneiro chileno ainda tem a dizer e para quem?

Kast, que tomou posse em março deste ano, nunca escondeu a simpatia por Pinochet. Ele entregou os ministérios da Defesa e da Justiça e Direitos Humanos a dois ex-advogados do ditador, Fernando Barros e Fernando Rabat, e hoje analisa mais de cem pedidos de indulto, a maioria de condenados por crimes de lesa-humanidade, cometidos na ditadura.

O governo também recuou nas políticas de memória. Em setembro, pela primeira vez desde a volta da democracia, em 1990, não houve cerimônia oficial pelo aniversário do golpe. Antes, em abril, um decreto já havia cortado quase 10% do orçamento do Ministério das Culturas, a maior redução proporcional entre as pastas, e atingido o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, o Museu Violeta Parra, entre outros espaços do país.

Para a jornalista e pesquisadora chilena Marisol García, autora de "Canción Valiente", livro que percorre três décadas de canto social e político no Chile, a força da canção de protesto se mantém firme e vem de longe.

"Houve um momento especial, o da chamada nova canção chilena, que teve como principal inspiradora Violeta Parra. Ali houve exemplos magníficos, grandes expoentes e muita colaboração entre os músicos. Mas foi um momento particular", afirma ela.

"Mesmo que a música chilena não tenha hoje nenhum líder ou porta-voz, ela sempre tem uma sensibilidade que é provavelmente superior à média do pop, porque para os chilenos isso importa, e porque o Chile é um país de grandes poetas."

No "estallido", as ruas cantaram "El Derecho de Vivir en Paz", de Jara, e "El Baile de los que Sobran", que Los Prisioneros lançaram nos anos 1980 para falar da desigualdade na educação.

"Isso era vigente quando a canção foi composta, e continua vigente hoje. Mais do que nos alegrar pela qualidade da canção, às vezes a gente se deprime. Queria que pudéssemos superar essas canções, mas elas continuam aí", diz García.

Em janeiro deste ano, manifestantes cantaram "El Pueblo Unido Jamás Será Vencido", do Quilapayún, em espanhol, nos protestos contra a polícia anti-imigração de Donald Trump em Minneapolis. Bad Bunny tocou "El Derecho de Vivir en Paz", de Jara, no Estádio Nacional, em Santiago, na passagem de sua turnê pelo país.

Jara, preso após o golpe, foi torturado e assassinado em setembro de 1973, a poucos quilômetros dali, no Estádio Chile, que hoje leva seu nome.

É no Estádio Nacional, campo de prisioneiros nos primeiros meses do regime de Pinochet, que acontece nos dias 3 e 4 de outubro o Muda, festival de memória e direitos humanos com cerca de 40 artistas, do Inti-Illimani a nomes formados depois da ditadura, como Ana Tijoux, Camila Moreno e Candelabro.

Parte da bilheteria vai para antigos centros de detenção e tortura transformados em sítios de memória, com prioridade para os que funcionam sem verba do Estado.

Jorge Coulón, fundador do histórico grupo Inti-Illimani, define o papel da banda hoje como o de uma ponte. "Uma ponte entre gerações e uma ponte com a história. Se algo se acumula numa carreira longa como a nossa, de quase 60 anos, é a responsabilidade com a história vivida. A responsabilidade de transmitir, sem impor, de ser testemunha das mudanças que vivemos", diz.

Para o publicitário chileno Javier Sanfeliú, criador do programa musical Puro Chile, da emissora pública TVN, a Televisión Nacional de Chile, a tradição do protesto nunca saiu de cena.

"Esses fantasmas nunca deixaram de penar. Sempre que têm oportunidade, voltam a emergir. Quilapayún e Inti-Illimani continuam lotando estádios. São parte do patrimônio nacional", diz. "Víctor Jara é um ícone; ele continua presente como se estivesse vivo."

E ela chega às novas gerações. "O rock está voltando ao Chile, com bandas de gente de 20 anos que voltaram a tocar guitarra, a mostrar raiva, desalento, outra bandeira. O Candelabro retoma esse espírito", diz Sanfeliú sobre a banda formada em Santiago em 2021. "Os de 20 a 30 anos sentem uma responsabilidade, e a mudança sempre vem da juventude."

Eduardo Pavez, vocalista do Tenemos Explosivos, banda da nova safra do rock chileno que abriu o show do Linkin Park no país com suas canções sobre história e memória, no ano passado, afirma que a tradição passa de uma geração à outra pelo fato de o Chile ainda ser "um país mentalmente colonizado".

"Há uma tentativa de emancipação dessa colonização, que é um pouco do que já dizia o folclore mais tradicional, e que continua sendo dito hoje, porque seguimos presos na mesma coisa", afirma.

Essa "colonização" se reflete, hoje, na política externa de Kast, que se aproximou de Donald Trump. Quatro dias antes da posse, o presidente chileno participou do lançamento do Escudo das Américas, aliança de segurança contra o narcotráfico e o crime organizado criada pelo americano, da qual Brasil e México não fazem parte.

Para Pavez, festivais como o Muda, ao juntar expoentes da canção de protesto do hoje e do ontem, fazem uma provocação. "Nos obrigam a voltar a visitar certa música, certo espírito. E, ao voltar, nos obrigam a perguntar quanto disso havia, há ou poderá haver no futuro. A memória é sempre urgente, mas agora o mais urgente é não perder a esperança."

Para Marisol García, autora de "Canción Valiente", a resposta está no que sempre moveu essa canção. "A música política é a música que incomoda um pouco. E é isso que, no fim, transcende."

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