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Sunday, September 13, 2026

11 de Setembro: 25 anos

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O veredicto histórico não é assim tão difícil. Tirando o estruturalismo mais empedernido, ou os últimos crentes nas filosofias da história que indicavam uma corrente irresistível empurrando tudo e todos, quer quisessem, quer não, para um destino inelutável comum, é uma posição perfeitamente razoável atribuir a um acontecimento tão denso e violento como o 11 de Setembro o estatuto de um separador de águas. O mundo hoje – e não apenas a sociedade americana – é muito diferente do que teria sido na ausência do ataque terrorista a Nova Iorque e a Washington. A pergunta seguinte “quão diferente?” é também perfeitamente razoável e tem como única resposta razoável admitir que nem o 11 de Setembro, nem os múltiplos processos históricos que pôs em marcha, ocorreram do nada. Não há vazios históricos. E se há pontos de inflexão, como se diz no estudo das funções matemáticas, então, mantendo a linguagem matemática, é preciso reconhecer que não há descontinuidades.

Olhando para trás, para muito antes de o mundo saber quem era bin Laden, ou Zawahiri, ou George W. Bush, percebe-se que a situação geopolítica do Médio Oriente, incluindo a relação dos vários países com os EUA, assim como a formação teológica-ideológica que acabaria por constituir organizações terroristas da estirpe da al-Qaeda (ou do sucessor Daesh), teve no ano de 1979 um outro poderosíssimo momento histórico de inflexão. Basta pensar que foi o ano da invasão do Afeganistão pela União Soviética para proteger um governo comunista de uma insurreição nacional-islâmica. Poucos foram os acontecimentos mais formadores da consciência revolucionária de homens como bin Laden e da geração dele do que esse.

Mas 1979 foi também o ano do tratado de paz de Sadat com Israel, causando perplexidade, confusão e escândalo na região. Sadat pagaria com a vida dois anos depois, assassinado pela Irmandade Muçulmana, que veria a sua influência crescer na radicalização do mundo muçulmano – no Médio Oriente e no Ocidente. Embora em tempos um revolucionário herói do nacionalismo egípcio, Sadat morreu sem ser chorado pelo seu país, o que deu conta da fractura exposta. Mais a norte, Israel invadiria o sul do Líbano, no meio de uma horrível guerra civil que destruiria para sempre uma sociedade próspera, dinâmica, multirreligiosa – um paraíso naquela zona, fazendo esquecer que, em tempos, Beirute, décadas antes dos Dubais do nosso tempo, fora a Paris cosmopolita e moderna do Médio Oriente. Esta destruição criminosa teria o contributo de muita gente, sem excluir os Israelitas, mas em larga medida foi precipitada pela presença nefasta da OLP no país, depois de esta ter sido escorraçada da Jordânia.

Em 79 ocorreu o ataque terrorista ominoso à mesquita central de Meca, funcionando como libelo acusatório dos compromissos da casa de Saud que eram intoleráveis para as franjas radicais do islamismo jihadista. Depois disso, tornar-se-iam visíveis os fluxos de exportação de radicalismo teológico-político do reino da casa de Saud e da sua versão wahabita do Islão. A Arábia Saudita financiaria com milhares de milhões de dólares a pregação e evangelização das populações muçulmanas no estrangeiro, incluindo na Europa, numa das interpretações do Islão mais incompatíveis e conflituantes com o Ocidente. No entanto, a aliança da Arábia Saudita com mais de 80 anos com os EUA nunca vacilou. E a casa de Saud percebeu que a protecção prometida pelos EUA desde Roosevelt teria de se tornar cada vez mais concreta, não obstante a reivindicação de não se tolerar a presença de gentios em terra sagrada da peregrinação de Maomé. Quando veio a primeira guerra do Golfo, em 1990, os americanos chegaram. Bin Laden e os seus cúmplices não esqueceram, nem perdoaram.

Finalmente, 1979 trouxe a primeira revolução bem-sucedida do islamismo político na era dos Estados muçulmanos independentes a seguir à Segunda Guerra Mundial. Foi no Irão, pela mão dos minoritários xiitas, mas teve consequências que reverberaram por todo o Médio Oriente e pelo resto do mundo. Não foi só a violência e o radicalismo do novo regime. Foi a sua ofensiva aberta e explícita contra os EUA (e Israel), dando o exemplo a todos de um novo móbil político que se coadjuvava ao do retorno a uma imaginária comunidade religiosamente purificada – a guerra perpétua contra o “Grande Satã” apoiada pelo ressentimento anti-colonialista. Contudo, este movimento formou igualmente uma fractura terrível no seio do mundo muçulmano – a clivagem entre sunitas e xiitas ficaria agora expressa na relação belicosa entre os Estados e nas operações de subversão do poder político dos Estados inimigos. O estado de tensão permanente entre a Arábia Saudita e o Irão vem deste estado de coisas e assim se arrasta.

O 11 de Setembro foi suficiente para alterar profundamente a ordem internacional. Em 2026, podemos dizer que essa mudança veio, de facto, ainda que, como sempre acaba por acontecer, não nos termos dos seus protagonistas. Para trás ficou um período – os anos 90 – de grande optimismo do Ocidente. Na Europa, com Maastricht. Na América, com a derrota do comunismo e do “momento unipolar”. Nos dois lados do Atlântico, com uma fé inquebrável nas virtudes da globalização da economia e das migrações. Hoje, esse optimismo está enterrado como uma memória melancólica. Em contrapartida, no outro lado do mundo, em 2001, poucas semanas depois do 11 de Setembro, a China aderia à Organização Mundial de Comércio. E o resto, como se costuma dizer, é História.

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