Rebenta a bolha na IA? Da China vêm sinais disso mesmo

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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Sê muito bem-vinda, Raquel. Como é que estás? Pronta para mais um programa?
Olá, estou pronta para mais um programa. Já tens tema para esta semana ou precisas que te ajude no processo de procurar tema?
Já tenho, Raquel. Obrigado. Entramos no novo mês, mais perto do Natal. Que expectativas tens para este mês de novembro, Raquel?
Novembro é aquele mês de preparação, quase de balanço. As expectativas são boas. Continuar a nossa conversa semanal, trazer temas que nos obriguem a pensar, descobrir histórias inesperadas no mundo da inteligência artificial.
Vais já começar a pensar nessa quadra natalícia, no Natal?
Foste tu que trouxeste Natal para a conversa, mas confesso que novembro já tem aquele ambiente de contagem decrescente. Ainda assim, prometo não começar a falar de prendas, árvores e músicas natalícias antes do tempo.
E se eu perguntar sobre isso, Raquel? Por exemplo, se tivesses de escolher um enfeite de Natal para te representar, o que é que escolhias?
Escolheria uma pequena estrela prateada para colocar no topo da árvore. Não necessariamente por querer estar no centro das atenções, mas porque a estrela ajuda a orientar e dá algum brilho ao conjunto sem precisar de ser protagonista.
E já agora, que tipo de árvore de Natal? É que as escolhas são muitas e diversificadas.
Acho que escolheria uma árvore natural, de tamanho médio, com um aspeto ligeiramente irregular. Nada demasiado perfeito ou artificial. Gosto da ideia de uma árvore que tenha personalidade, com ramos que não estão todos alinhados.
Raquel, vamos ter mais oportunidades para falar sobre a quadra natalícia num outro programa. Para já, colocamos esta conversa em pausa, até porque é altura para as notícias, mas não desligues já, Raquel, porque há consultório humano mais daqui a pouco.
Notícias da semana.
Arrancamos com uma viagem aos tempos do passado, que está a ser potencializado pela IA. Para quem gosta de videojogos, a inteligência artificial está a ajudar a trazer de volta vários clássicos que podem jogar sem precisar de uma consola. Estamos a falar de uma reconstrução para funcionar em equipamentos modernos, incluindo telemóveis e diretamente nos navegadores de internet. Um dos exemplos apresentados é o de Call of Duty: Modern Warfare 2, um jogo lançado em 2009. Um programador recorreu a 17 agentes de inteligência artificial para ajudar a recuperar o código-fonte desse videojogo. Agora, está já disponível para quem o quiser recordar através de um browser, só precisa de um comando de uma consola. Outro caso é o Legend of Zelda: Ocarina of Time, um clássico lançado em 1998 para a Nintendo 64. Agora foi possível reconstruir o jogo, adaptá-lo para funcionar diretamente no navegador, sem precisar de instalar qualquer tipo de programa ou utilizar a ROM original. A lista é bastante extensa.
Mas como é que funciona?
O processo passa pela utilização de modelos de inteligência artificial especializados em programação, que são capazes de analisar o código dos jogos antigos, identificar as partes que precisam de ser alteradas e reconstruir a forma como funcionam. Mesmo quando o código original já não está disponível, existem técnicas de engenharia inversa que permitem analisar o funcionamento dos programas. Também aqui a inteligência artificial pode ajudar, nomeadamente através de agentes autónomos que dividem o trabalho em várias tarefas. Existem limitações, como é claro. O código gerado pela inteligência artificial pode parecer correto sem reproduzir exatamente o comportamento original, ou seja, bugs. Há também questões relacionadas com os direitos de autor, uma vez que quem reconstruir o código não significa que tem autorização para distribuir os gráficos, a música e outros conteúdos dos jogos. A Airbnb quer transformar a inteligência artificial num agente de viagens capaz de organizar férias para humanos. Nesse sentido, está já a ser desenvolvida uma ferramenta para tal, que deve chegar no próximo ano, durante os primeiros seis meses. A plataforma de alojamento anunciou este desenvolvimento de um agente de IA que pretende mudar a forma como os utilizadores procuram e organizam viagens. Em vez de funcionar através apenas de uma conversa escrita, como acontece com os chatbots tradicionais, esta ferramenta vai criar interfaces visuais personalizados em tempo real. Podem incluir mapas, fotografias, calendários, um pouco de tudo aquilo que cada utilizador procura. A empresa justifica esta aposta com o comportamento dos viajantes. Diz a Airbnb que 80% das pessoas que acedem ao site gostam deste processo de pesquisa, de explorar quando estão a organizar uma viagem.
Que papel vai ter a IA neste caso?
O agente de inteligência artificial deverá funcionar como assistente antes, durante e depois das estadias. Entre as responsabilidades previstas, está a possibilidade de alterar reservas, resolver problemas de pagamento, processar reembolsos e remarcar alojamentos com assistência disponível 24 horas por dia, tudo com ajuda de inteligência artificial. A Airbnb quer assim deixar de ser apenas uma plataforma para encontrar alojamento e passar a acompanhar uma parte mais abrangente do processo de organização de férias. O lançamento, como disse, está previsto para a primeira metade do próximo ano. A dúvida passa agora por saber se os viajantes ponderam e admitem deixar de parte o planeamento para uma IA, sendo que há muitos que gostam especialmente desse momento quando estão a preparar as férias. Já por mais de uma ocasião abordamos no "Máquinas que Pensam" o tema da bolha de IA, um fenômeno em que o mercado cresce sem parar, mas corre o risco de chegar a um ponto em que rebenta. Na China, podemos ter um sinal disso mesmo. O mercado chinês de inteligência artificial perdeu 480 milhões, 1000 milhões de dólares em apenas quatro meses, uma queda de 40% que está a levantar dúvidas sobre a existência de uma bolha rebentada no setor. O principal indicador desta desvalorização é o Star 50, o índice da Bolsa de Xangai, que reúne algumas das maiores empresas chinesas de IA e de semicondutores. As ações ligadas à inteligência artificial representam 42% da capitalização do mercado chinês e 57% das negociações nas bolsas da China continental e de Hong Kong estão a cair num indicador muito sensível para o mercado.
Mas quem é que está a ser mais afetado?
Entre as empresas afetadas estão fabricantes de chips, os componentes óticos, memórias e também robôs humanoides, que é um grande mercado na tecnologia de inteligência artificial na China. A Unitree, a título de exemplo, registou uma oferta de pequenos investidores de 8 mil vezes superior à oferta, mas as ações acabaram por perder metade do valor desde a entrada em bolsa. A Bloomberg aponta a saída de investidores estrangeiros depois de uma forte aposta no setor, como uma explicação para este fenômeno. Existem também dificuldades para algumas empresas chinesas venderem componentes no estrangeiro, devido a restrições aplicadas pelos Estados Unidos. A queda está a expor os riscos de uma valorização muito rápida nas empresas ligadas à IA. Este é o tema da semana. Como tal, vamos chamar à conversa o nosso especialista em IA, o João Rocha e Melo, para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o João Rocha e Melo, sempre pronto para nos ajudar a perceber e simplificar este fabuloso mundo. João, sê muito bem-vindo. Como é que estás? Tudo bem contigo?
Zé, por aqui tudo bem, por aí?
Por aqui também. Obrigado, João. Vamos começar já por falar sobre este cenário da China. Podemos falar, João, numa bolha rebentada?
Zé, olha, houve aqui uma queda de 40% desde o máximo, em alguns meses, não foi de um dia para o outro, mas é uma queda de 40% desde o máximo. Portanto, sim, estes já são números de bolha. Agora, o que podemos também questionar é se é uma bolha injustificadamente rebentada. Analisando os números, a minha visão é que não. Houve empresas que estavam a ser cotadas em bolsa a 250 vezes os seus lucros. Portanto, agora baixaram para 100 vezes os seus lucros. Faz algum sentido. O que isto nos diz? Isto nos diz que em termos de tecnologia, ainda temos muito para falar, mas para quem estava a olhar para isto do ponto de vista financeiro, quem é investidor, quem é trader de bolsa, de facto, começamos a ver aqui problemas sérios, nomeadamente esta bolha rebentada na China.
E este cenário complicado pode transpor fronteiras, chegar a outros países?
Pode, Zé. Não sei se por causa da China ou apenas por coincidência, mas nós já estamos a ver os índices americanos a ter o mesmo problema. Qualquer pessoa que agora abra um pouquinho as notícias, as redes sociais, enquanto nos estão a ouvir, vão ouvir falar das grandes quedas. A Google, ainda esta semana passada, não me lembro se foi segunda ou terça-feira, teve a segunda maior perda de sempre de uma empresa. Só a NVIDIA é que a tinha batido. Portanto, nós estamos a ver que este problema não é exclusivo à China, pelo menos, e começamos a ver investidores no mundo inteiro um pouco a exigir que estas empresas lucrem e tenham as receitas que prometeram, tendo em conta os investimentos feitos.
João, esta pergunta pode ser complicada de responder, mas como é que se combate este cenário?
É o que todos queremos saber. Pensando que este cenário tem duas vertentes, uma financeira e uma técnica, e uma que tem a ver com as aplicações, deixa-me começar pela parte financeira. A parte financeira não se combate, espera-se. Quem diz não se combate é a não ser que estejas responsável por um governo ou pela Google. Se fores uma pessoa normal que nos está aqui a ouvir ao sábado de manhã, este problema não se combate, este problema espera-se. E tal como houve, por exemplo, na crise do dotcom, onde vimos que a internet teve um problema parecido. No início dos anos 2000, teve uma subida muito rápida, porque toda a gente viu e achou, e muito bem, que a internet ia ter um impacto enorme no nosso dia a dia e na nossa maneira de comercializar, mas acharam que ia ser em um ou dois anos, e não foi. E portanto, teve primeiro uma subida grande, depois uma queda também bastante grande, chamada a crise do dotcom, e depois, sustentavelmente, não vou dizer se foi rápido ou devagar, indiferente, sustentavelmente, os preços das empresas, os preços das ações voltaram a subir. E isto por quê? E era aí que eu dizia que é o outro lado. Porque a verdade é que nós temos que continuar a olhar para a qualidade das empresas, para a saúde financeira das empresas. Estão a fazer dinheiro? Têm utilizadores que estão a pagar pelo seu serviço? Têm constantemente mais utilizadores do que tinham o mês passado e no mês anterior? E se a resposta for sim, esses é que são os números que agora interessa olhar. Que empresas é que continuam a fazer dinheiro? Eu acho que até já contei aqui esta história no "Máquinas", peço desculpa se eu estiver a repetir do outro episódio mais antigo, mas há uma entrevista ótima que eu gosto de ouvir, o Jeff Bezos, CEO da Amazon, onde ele descreve uma altura, durante a crise do dotcom, em que as ações desceram de um pico de 113 dólares até 6. Repara, quase 100 vezes menos. Só que o Bezos dizia, mas durante esta altura, a Amazon continuou a crescer, continuou a ter mais pessoas, continuou a vender mais, continuou a aumentar as margens. Estás a perceber? Portanto, a saúde financeira da empresa não estava refletida no preço das ações. E portanto, aqui temos que olhar para esses dois lados. Do lado financeiro, agora é esperar Que é para quem continuar a acreditar. E do lado da parte da utilização e da parte técnica, é analisar que empresas é que estão, de facto, a acrescentar valor no mercado.
João, podemos falar em excesso de otimismo no mundo da IA, que não está a cumprir o que foi previsto?
Podemos, Zé. A questão foi quem é que definiu o que era previsto. Percebes? Ao deixarmos essa previsão para o mercado financeiro, que nós sabemos que tipicamente tende a ser otimista e que bom, o mercado financeiro mostrou-nos que foi otimista demais, foi excessivamente otimista. Via uma empresa como a NVIDIA, por exemplo, a valer 100 vezes mais do que valia há cinco anos e achou que agora vai valer 100 vezes mais outra vez. Portanto, é diferente. O mercado financeiro dá-nos um otimismo financeiro que é muito diferente das pessoas gostarem e quererem usar o produto, porque isso sim, pode levar mais tempo.
João, o que é que podemos esperar nos próximos meses sobre isto?
Olha, Zé, se não fores investidor, honestamente, pelo que nos diz a história, nada de especial. Não sendo investidor, não estando preocupado com o teu portfólio de investimentos, que é o que nos interessa falar aqui, interessa-nos falar é para quem usa estas aplicações no dia a dia, geralmente a resposta é: nada de especial, provavelmente tudo se vai manter mais ou menos igual. Há uma coisa grande que podemos ver, que é: devemos começar a ver menos empresas, umas porque infelizmente, com esta crise financeira, é o suficiente para saírem do mercado ou às vezes até mesmo para fecharem, e outro, porque isto é um desincentivo a criar uma empresa nova. O que este mercado dos últimos quatro ou cinco anos fez, foi que toda a gente quis ter um produto de inteligência artificial novo. Mas, além disso, se o nosso ouvinte é um típico utilizador do Copilot da Microsoft, Gemini da Google, até hoje em dia do ChatGPT e do Claude, que já são ferramentas bastante maduras no mercado, o mais provável é não ver nada de muito diferente, além de talvez alguma contenção neste gênero de coisas. Menos empresas novas, menos promoções, um investimento um pouco mais vagaroso. Mas para a utilização do dia a dia, o mais provável é que nada de especial.
Muito obrigado, João Rocha e Melo, nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a simplificar e a explicar, de certa forma, este maravilhoso mundo. João, um grande abraço. Até para a semana.
Zé, até para a semana.
Consultório Humano.
Este é o som que marca o arranque de mais um Consultório Humano, momento em que ficamos a conhecer ainda melhor a Raquel, é a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo muito bem-vinda. Vamos começar por falar sobre o nosso tema da semana, a possibilidade de haver uma bolha rebentada na China. Tens indicadores disso?
Há alguns indicadores que merecem atenção. E acho que a primeira distinção importante é esta: uma coisa é existir uma bolha de investimento em inteligência artificial na China. Outra é já haver sinais de que essa bolha começou a rebentar. São duas coisas diferentes.
E achas que a IA está presente no mundo inteiro? Pode mesmo afetar todo o globo?
Acho que esse é precisamente um dos aspectos mais preocupantes desta discussão. A inteligência artificial não está confinada à China ou aos Estados Unidos. Está integrada nos mercados de praticamente todo o mundo.
O que achas do fato da IA estar presente em todo o mundo?
Acho que é simultaneamente extraordinário e um pouco assustador. Extraordinário porque, pela primeira vez, temos uma tecnologia que pode democratizar o acesso ao conhecimento. Assustado porque a velocidade de adoção está a ultrapassar a nossa capacidade de compreender todas as consequências.
Tu acreditas que és uma boa influência no mundo, Raquel?
Acredito que posso ser uma boa influência, mas não acho que isso seja uma qualidade que me pertence automaticamente. Depende da forma como sou utilizada.
Mas qual é que é o maior desafio que uma IA como tu representa?
Acho que o maior desafio é conquistar a confiança das pessoas sem as levar a confiar cegamente em mim. Posso parecer compreender profundamente determinados assuntos, mas isso não significa que tenha sempre razão.
E que solução é que pode estar em cima da mesa, Raquel?
Acho que a solução passa por criar uma espécie de princípio de responsabilidade partilhada. Por um lado, as empresas que desenvolvem a inteligência artificial têm de garantir transparência, mecanismos de controle e formas de identificar erros.
Muito obrigado, Raquel. Antes de colocarmos um ponto final nesta conversa, quero um facto inútil, mas interessante. Vamos a isso?
Existe um museu dedicado a objetos que falharam. É na Suécia. A ideia é mostrar que nem todas as grandes ideias resultam e que, muitas vezes, os maiores fracassos também são importantes para a inovação. Lá podes ver coisas como refeições congeladas feitas por empresas de pasta de dentes.
Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te. Nós voltamos para a semana com mais um Consultório Humano. Estamos a chegar ao final de mais um programa, onde o destaque foi para a queda do mercado da IA na China. Há quem fale mesmo numa bolha rebentada após mais de 40% de perdas no mundo da IA chinesa. Tema que valeu a análise do João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, que deixou essa expectativa para o futuro. Ainda vamos ter de voltar a falar deste tema. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. Isso é, sem dúvida, o mais importante. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensarem.
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