Será que o mundo mudou mesmo com o 11 de Setembro de 2001?

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Um ano depois dos ataques às Torres Gémeas e ao Pentágono, V. S. Naipaul, um Prémio Nobel da Literatura, disse que nos arquivos da história o 11 de setembro de 2001 acabaria por ser recordado como um acontecimento menor, um epifenómeno que em nada alterou o rumo da humanidade. Hoje, no dia em que passam 25 anos sobre essa manhã que parecia ter despertado o mundo para uma nova realidade, o Contracorrente parte de uma pergunta: será que V. S. Naipaul tinha razão ou se enganou profundamente? Bom dia, Zé Manuel. Sabes dar aqui uma resposta?
Olha, não é fácil dar a resposta, porque enfim, que louco pareça, 25 anos é pouco tempo para fazer esse julgamento. E há um detalhe na frase de V. S. Naipaul que eu acho muito interessante, e esse detalhe é o rumo da humanidade. E de facto, desse ponto de vista, se calhar o 11 de setembro não alterou assim tanto o rumo da humanidade como nós às vezes pensamos. A discussão é muito saber se nessa altura já não estávamos, mesmo antes do 11 de setembro, a chegar ao fim de um tempo, que era um tempo quase ilusório, que foi aquele tempo que mediou entre a queda do Muro de Berlim, no final de 1989, e precisamente o 11 de setembro. Que foi um tempo em que havia um pouco a ilusão de que todo mundo ia evoluir na direção da ordem liberal, que as ditaduras iam acabar por desaparecer todas, que o crescimento econômico iria implicar a democracia para todos, que durante esse período havia uma espécie de uma ordem mundial unipolar, muito central nos Estados Unidos, mas que com as outras Nações Unidas, acabariam por impor de alguma forma um governo no mundo. E verdadeiramente, a questão é saber se esse mundo era prolongável no tempo ou se era uma ilusão. E essa discussão vale a pena ter, porque no fundo é aquilo que permite distinguir se tudo o que aconteceu no 11 de setembro, portanto, o ataque às Torres Gémeas, o que ele significou em termos de jihadismo islâmico, era inevitável ou não, se podia ou não ser contrariado. O que é que aconteceu depois? Repara, isso não acabou logo. O jihadismo não acabou logo, verdadeiramente, podemos dizer que ainda não acabou. Está bastante mais controlado, mitigado, mas não acabou. E depois temos a questão de saber se também a ordem unipolar central nos Estados Unidos era prolongável no tempo. E há quem diga que o dia importante não é o 11 de setembro de 2001, mas o dia 11 de dezembro de 2001 também. E eu digo isto porque foi no dia 11 de dezembro de 2001, estamos a falar de uma coisa que aconteceu três meses depois do 11 de setembro, que a China entrou para a Organização Mundial do Comércio. E a partir daí, de alguma forma, tudo começou a mudar. Talvez mais do que aquilo que mudou com as guerras que os Estados Unidos promoveram no Afeganistão e no Iraque, que acabaram por ter um impacto mais local do que global. E mesmo muitas das coisas que hoje estamos a viver na Europa e nos Estados Unidos, no que respeita ao refluxo da globalização, à ascensão de forças populistas ou revolta contra a desindustrialização, esquecimento de algumas classes sociais que noutro tempo eram vitais nas nossas sociedades, esta perceção, este descontentamento que grassa um pouco, quer pelos Estados Unidos, quer pela Europa, e que pode até minar as nossas democracias mais consolidadas. Tudo isso tem muito a ver com esta alteração, mais do que com o 11 de setembro, com a alteração do equilíbrio econômico global e com a entrada da China no comércio global da forma que entrou, com a deslocalização de fábricas para a China e com tudo o que isso significou. E a questão é saber se poderia ser diferente, se teria sido diferente, se foi o 11 de setembro que mudou isso ou não mudou isso. Nós às vezes temos muita tendência a isolar acontecimentos únicos, e o 11 de setembro é seguramente um desses acontecimentos únicos. Uma pergunta que vale sempre a pena fazer aos mais velhos é perguntar onde estavam no 11 de setembro, quando é que souberam, como é que souberam, como é que assistiram, como é que viveram. E isso também nos ajuda a perceber muito o mundo que era. Mas há uma coisa que nós também temos que ter a perceção. Essa perceção é: hoje em dia, a idade mediana da população mundial é 31 anos. Mediana quer dizer que metade da população tem mais de 31 anos, metade tem menos de 31 anos. O que significa que metade da população mundial ou não tinha nascido, ou tinha no máximo seis anos no 11 de setembro. Portanto, essa população não viveu, na prática, quem é mesmo com seis anos, dificilmente viveu intensamente esses momentos. O que significa que isto começa a fazer parte do passado e da história. Até que ponto é que isso também influencia o mundo que somos? A humanidade, os povos, nós temos memória muito curta e tendemos muitas vezes a ver as coisas de acordo com alguns acontecimentos basilares, mas também com aquilo que é a nossa experiência atual E a forma como foram as reações ao 11 de setembro, aquilo que se passou depois, o fato de, por exemplo, na Europa, terem ocorrido depois muitos outros atentados terroristas e continuar a haver uma ameaça jihadista, porventura não com a mesma dimensão, porque nós temos hoje sistemas de segurança completamente diferentes e nós já nem nos apercebemos disso. Viajar de avião hoje é diferente. Entrar em muitos edifícios hoje é diferente. Portanto, isso também mudou muito a nossa vida, isso tem muito a ver com o 11 de setembro, mas tem sobretudo a ver com este papel que desempenham os radicalismos religiosos, particularmente o radicalismo islâmico, mas que se calhar, num mundo em que toda a economia se transformou radicalmente. Se calhar, olhando pra trás, o 11 de setembro não foi tanto um momento de viragem na história recente da humanidade. Se calhar, foram mais outros momentos próximos disso. E há um outro, que nós agora vivemos muito, falamos muito dele, mas que se calhar precede, de alguma forma, o 11 de setembro, mas talvez o determine, e que percebemos que é um tema que foi há quase 50 anos, foi há 47 anos, e que foi a revolução islâmica no Irão em 1979, portanto, muito antes. E desse ponto de vista, a partir daí é que muita coisa ficou diferente e que não está, de alguma forma, resolvida hoje. Bem, mas vamos falar um pouco disso tudo. Recordar que há medos que nós hoje temos, por exemplo, o medo da ameaça nuclear, que logo a seguir ao 11 de setembro, tínhamos muito medo que isso pudesse acontecer, mas protagonizado por jihadistas. Portanto, vamos tentar recapitular tudo isso, passar um pouco em revista o que está a passar nos vários continentes e tentar ver até que ponto aquele momento foi ou não um momento de viragem na história da humanidade.
Até já, José Manuel.
Até já.
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