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Friday, September 18, 2026

Cármen Lúcia frustra quem previa uma atuação exemplar

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O pedido de desculpas de Cármen Lúcia na sessão da terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal sensibilizou os que defendem os direitos da mulher, mas frustrou os que esperavam dela uma intervenção firme para interromper o tumulto provocado pelos colegas ministros. Todos homens.

"Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente", ela disse.

As magistradas de todo o país se reconhecem na fala da ministra Cármen Lúcia, diz uma juíza membro de 1 dos 12 coletivos feministas que lhe enviaram flores.

A lei veda ao juiz se manifestar sobre processos pendentes de julgamento. Mas não o impede de sugerir leituras. Uma magistrada de outro coletivo diz que a newsletter Todas, na Folha, no dia 16, corresponde muito ao que as juízas pensam.

Na newsletter, a jornalista Angela Boldrini trata da revelação de que ministros do STF estavam entre os convidados para a festa de Daniel Vorcaro no Madame Satã.

Ministras e juízas não frequentam esse clubinho, diz a magistrada.

"Cármen Lúcia foi a voz de toda a sociedade", diz a advogada Maria Berenice Dias, primeira mulher magistrada no Rio Grande do Sul.

"O triste espetáculo que todos assistimos na mais alta corte do país apequenou a imagem da instituição que deve ser o esteio de um Estado Democrático de Direito", afirma Berenice.

"A ministra Cármen Lúcia, com a autoridade de quem já presidiu o Supremo e integra aquela corte há duas décadas, expressou mal-estar cívico não apenas como lamento, mas sobretudo como uma convocação à corte para que atue imediatamente para trazer paz e justiça ao país", diz Raquel Dodge, ex-procuradora geral da República.

"Cármen Lúcia é uma mulher digna e que entrou no Supremo querendo acertar. Não é fácil uma mulher sobreviver em uma corte de predominância masculina", diz Eliana Calmon.

"Na luta pelo reconhecimento de seus pares, aderiu aos mais fortes politicamente. Tornou-se um deles, guiada por um fiel escudeiro: Gilmar Mendes. Tornou-se refém. Votou com ele e seus adeptos durante os quase 20 anos em que está na corte."

"Promoveu-se como feminista. Esqueceu-se, ou não teve a força suficiente para lutar pela instituição à qual pertencia e que precisava de uma voz lúcida para defendê-la. Silenciou."

Eliana agradece a Cármen "por ter resistido e não ser cooptada pela insensatez dos colegas, o que se tornou possível diante da sua vida de moral ilibada".

"Por isso mesmo tem ela o meu perdão de cidadã brasileira, espectadora política e sobretudo mulher", diz.

Eliana, uma feminista, em 2023 combateu a instituição das cotas. Diz que foi convencida a mudar de posição ao ouvir "a verdadeira história de como foi aprovada a tese das listas de paridade".

Uma desembargadora do TJ-SP guarda a imagem da Cármen desafiadora, que assumiu o cargo de calças compridas. Ela fez o mesmo no tribunal paulista há 40 anos. Diziam que era proibido, mas não havia regra escrita.

Ela não aceita as desculpas de Cármen, um pedido tardio e ineficiente. Segundo ela, a ministra assistiu calada a uma encenação estrategicamente combinada para não julgar o caso, criando-se questões de ordem totalmente descabidas. Cármen poderia ter feito um aparte.

Ela lembra que Cármen presidiu sessões em que houve debates violentos e determinou a suspensão do julgamento.

FolhaJus

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Cármen Lúcia não foi a primeira a pedir desculpas por desacertos do Supremo.

Em 2019, a ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, pediu desculpas às pessoas que moravam em barracos, depois da queda de imóveis em Pernambuco e Santa Catarina, e aguardavam a indenização do programa Minha Casa, Minha Vida.

Essas pessoas estavam morando em casas de madeirite e, por não terem local para morar, construíram seus barracos ao redor do prédio que está caindo.

"Há três anos estamos tentando julgar esses processos, mas não conseguimos. Eles merecem uma explicação, e a explicação é esta: nós estamos nos sujeitando à ordem que veio do Supremo, que mandou paralisar", disse Andrighi.

Em outubro de 2025, em culto ecumênico na Catedral da Sé, em memória do jornalista Vladimir Herzog, Maria Elisabeth Rocha, presidente do STM, pediu desculpas por mortes e torturas no regime militar.

O então presidente do TJ-SP Ricardo Sartori pediu desculpas, em nome do Judiciário, a advogados que denunciaram o desembargador Arthur Del Guércio. O juiz foi acusado de pedir dinheiro a advogados.

Sartori isentou de culpa os PMs da chacina do Carandiru. Anulou as condenações, alegando legítima defesa. "A imprensa fez uma clara defesa dos bandidos que se rebelaram. Por isso, foi necessária nossa ação para que os policiais fossem inocentados", disse.

A absolvição dos policiais antecedeu o indulto natalino aos PMs decretado pelo então presidente Jair Bolsonaro.

Nenhum PM saiu baleado, enquanto 90% dos mortos receberam tiros na cabeça. As vítimas foram eliminadas de cócoras, em posição de rendição.

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