Faculdade de engenharia civil, vocalista de banda e carreira solo: a trajetória de Netinho até se tornar ícone do axé no Brasil

O cantor morreu na terça-feira (13), aos 60 anos, em um hospital da capital baiana. O velório e a cremação serão nesta quarta (14), em cerimônia reservada. A família optou por não divulgar local nem horário.
Ele enfrentava um câncer do sistema linfático havia mais de um ano. Com o agravamento do quadro de saúde, teve falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
Dono de hits como “Beijo na Boca”, “Estrela Primeira”, “A Vida é Festa” e “Milla”, Netinho construiu uma trajetória que se confunde com a história do axé music e com a popularização do gênero para além da Bahia.
Da infância no Recôncavo aos primeiros acordes
Netinho (1966 – 2026) deixa discografia que alcançou o auge entre 1988 e 1996 — Foto: Divulgação
Netinho nasceu em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo baiano, em 12 de julho de 1966. Aos 10 anos, mudou-se com a família para Salvador, onde começou a se aproximar da música.
O primeiro violão chegou aos 14 anos, como presente da mãe. Dois anos depois, o jovem ingressou no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica do Salvador (Ucsal).
Enquanto estudava, Netinho já demonstrava interesse em seguir o caminho artístico. Ele fazia apresentações em escolas e, posteriormente, começou a tocar profissionalmente em bares da capital baiana.
Na época, o repertório era voltado principalmente à música popular brasileira (MPB) e à bossa nova. Aos poucos, as apresentações deixaram de ser apenas uma atividade paralela aos estudos e passaram a ocupar espaço central em sua vida.
‘Beijo na Boca’ projetou cantor no Brasil
Netinho — Foto: Ricardo Matsukawa/UOL
O grande salto aconteceu em 1988, quando Netinho estreou como vocalista da Banda Beijo durante o Carnaval de Salvador.
No mesmo ano, o grupo alcançou projeção nacional com “Beijo na Boca”, música que se tornou um dos primeiros grandes sucessos da carreira do artista.
A repercussão abriu caminho para outras canções, como “Estrela Primeira”, “Barracos” e “A Vida é Festa”. Com apresentações marcadas pela energia do Carnaval, Netinho conquistou espaço entre os nomes que ajudaram a ampliar o alcance do axé music no país.
A experiência à frente da Banda Beijo foi fundamental para a formação do cantor e para a construção de uma base de fãs que acompanharia seus passos nos anos seguintes.
Carreira solo e o fenômeno ‘Milla’
Cantor Netinho — Foto: Washington Nery
Em 1993, Netinho iniciou a carreira solo. Três anos depois, lançou “Milla”, música que se tornaria um dos maiores sucessos de sua trajetória.
O hit ajudou a consolidar o cantor como um dos principais representantes do axé music e ultrapassou as fronteiras da Bahia. Netinho passou a ser conhecido em diferentes regiões do Brasil e também realizou apresentações no exterior, em países como Itália e Chile.
Com “Milla” e outros sucessos, o artista estabeleceu uma ligação duradoura com o público. Suas músicas passaram a fazer parte do repertório de festas, shows e carnavais, mantendo sua presença na memória de diferentes gerações.
Além dos palcos, Netinho investiu no mercado musical
Netinho — Foto: Acervo TV Globo
A atuação de Netinho não ficou restrita às apresentações. O cantor também investiu na estrutura da indústria musical e abriu um estúdio de gravação e mixagem no Rio de Janeiro.
Ele também criou um selo musical com o objetivo de lançar novos artistas baianos, ampliando sua atuação para além da carreira de intérprete.
Problemas de saúde marcaram trajetória
O período foi marcado por internações, perda da voz em algumas ocasiões e depressão. Os problemas o afastaram do Carnaval de Salvador por quatro anos.
Netinho — Foto: Redes sociais
Durante os últimos meses de tratamento, segundo a assessoria, o artista costumava falar sobre a própria trajetória com gratidão.
“Partirei feliz, realizado, pois a vida me deu muito mais do que eu sonhei. Levarei comigo o sorriso de cada fã que foi feliz com a minha arte”, dizia.
Vida pessoal e passagem pela política
Entre 1997 e 2003, Netinho foi casado com a jornalista Mariana Trindade, com quem teve uma filha, Bruna Trindade.
Em 2010, o cantor falou publicamente sobre sua bissexualidade. Dois anos depois, em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, afirmou que preferia não se prolongar sobre o assunto.
Em 2022, candidatou-se a deputado federal pelo Partido Liberal (PL), mas não conseguiu se eleger. Recebeu aproximadamente 31 mil votos e ficou como suplente da sigla. O artista também declarou apoio ao então presidente Jair Bolsonaro e participou de manifestações favoráveis a ele — posicionamento que gerou críticas.
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