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Sunday, October 25, 2026

Tarifaço dos EUA: como Lula e Flávio Bolsonaro se posicionam sobre Trump no 2º turno

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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam visões distintas sobre a relação do Brasil com os Estados Unidos no segundo turno das eleições de 2026. Lula defende a soberania nacional, aposta na negociação comercial com Donald Trump e critica a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas pelo governo americano. Flávio propõe maior aproximação com Washington, adesão ao Escudo das Américas e uma atuação mais alinhada à estratégia americana de combate ao narcotráfico.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) têm visões diferentes sobre a relação do Brasil com os Estados Unidos, tema que ganhou espaço na campanha do segundo turno das eleições de 2026.

Enquanto Lula enfatiza a soberania nacional, defende a negociação com Washington e critica o que considera interferência externa, Flávio propõe uma aproximação com o governo de Donald Trump e uma política externa orientada pelos interesses econômicos e de segurança do Brasil.

A disputa ocorre em meio às tensões comerciais entre os dois países, à atuação do deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e à decisão americana de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

O que Lula e Flávio dizem sobre o tarifaço americano?

Em 2026, as relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos foram marcadas por novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros.

Em 22 de julho, uma sobretaxa de 25% entrou em vigor após uma investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. Dois dias depois, uma tarifa adicional de 12,5%, relacionada a uma investigação sobre trabalho forçado, elevou a cobrança para até 37,5% sobre parte das exportações brasileiras. O governo Lula contestou as medidas e iniciou procedimentos para avaliar contramedidas com base na Lei da Reciprocidade Econômica, além de recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC).

O tarifaço passou a ser um dos temas da campanha presidencial, com Lula defendendo a negociação com os Estados Unidos e a diversificação dos parceiros comerciais, enquanto Flávio Bolsonaro procurou se distanciar da decisão americana e afirmou ter atuado para defender as empresas brasileiras.

Na sabatina ao Jornal Nacional, em 15 de outubro, Lula disse acreditar em um acordo com Washington, mas não descartou uma reação brasileira caso as negociações fracassem.

“Não quero fazer. Eu quero continuar negociando. Mas, se for necessário fazer, nós vamos fazer”, afirmou, ao comentar a possibilidade de adotar medidas de reciprocidade comercial.

O presidente também argumentou que o Brasil ampliou suas relações comerciais com outros países apesar da redução das trocas com os Estados Unidos. Segundo Lula, o comércio entre os dois países caiu 9%, enquanto as transações com China, Indonésia, Alemanha e Vietnã cresceram, assim como as relações com outros mercados.

No debate da Band, realizado em 18 de outubro, Lula criticou a atuação de Flávio junto ao governo americano e questionou se o senador pretendia entregar aos Estados Unidos a exploração de terras raras brasileiras.

“Vocês têm pretensão de entregar isso para os Estados Unidos?”, perguntou, em referência aos minerais críticos utilizados na fabricação de baterias, chips e celulares.

No debate da Globo, realizado na última sexta-feira, 23, Lula voltou a criticar a relação do adversário com Trump e afirmou que o Brasil conseguiu ampliar as exportações apesar das barreiras comerciais americanas.

“Nunca se exportou tanto nesse país. É por isso que, quando o meu adversário ficou lambendo o Trump para taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado. Se o Trump não quiser comprar do Brasil, eu vou vender para outros lugares”, declarou.

Flávio, por sua vez, negou ter trabalhado para impor tarifas às empresas brasileiras. No debate da Band, afirmou que viajou aos Estados Unidos para defender os interesses comerciais do país.

“Ninguém trabalhou para tarifar a empresa brasileira. Eu fui até lá, os Estados Unidos, para defender as empresas dos produtos brasileiros”, disse o senador.

Em sabatina ao Jornal Nacional, Flávio também afirmou que seu irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, errou ao agradecer a Donald Trump pelas tarifas impostas aos produtos brasileiros.

A família Bolsonaro e Trump

A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos tornou-se um ponto de confronto entre os candidatos. O deputado, que vive no país, defendeu medidas do governo Trump contra o Brasil e agradeceu ao presidente americano pela imposição de tarifas sobre produtos brasileiros.

Na entrevista à Globo, Flávio afirmou que Eduardo errou ao agradecer pelas tarifas, mas defendeu a atuação do irmão nos Estados Unidos. Segundo o senador, Eduardo não pediu a imposição das sobretaxas, cuja responsabilidade atribuiu ao governo americano. Flávio também responsabilizou Lula pela escalada das tensões com Trump.

Lula, por outro lado, associou a atuação de Eduardo no exterior ao risco de subordinação do Brasil aos interesses americanos. No debate da Band, declarou: “É notável, e é notado pelo povo brasileiro, que a família Bolsonaro está subordinada aos interesses americanos”.

Em 17 de setembro, o senador também rejeitou a hipótese de receber ajuda do governo americano para vencer a eleição. “Não existe ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar, desculpa. Quem resolve a eleição é a gente aqui”, afirmou.

Em maio, após visitar Trump, Flávio disse ter sido recebido com “enorme cordialidade” e afirmou que o convite havia partido diretamente do presidente americano. O senador sustentou que a viagem tinha como objetivo defender pautas brasileiras, e não buscar apoio eleitoral.

Como é a relação de Lula com Donald Trump?

Apesar das divergências comerciais e diplomáticas, Lula afirmou, durante sabatina ao Jornal Nacional, em 15 de outubro, que conseguiu estabelecer uma relação de diálogo com Donald Trump.

“Eu acho que minha relação com Trump foi a relação mais civilizada que ele teve com outro presidente da República. Ela começou muito tensa”, afirmou o presidente.

Lula disse ter defendido que os dois países buscassem entendimento, apesar das diferenças. “Eu disse ao Trump que era importante que dois homens de 80 tivessem juízo e se entendessem, porque não era possível a gente ficar passando desavença com as duas maiores democracias do Ocidente”, declarou.

Sobre o tarifaço, o presidente demonstrou confiança em um acordo comercial. “Acho que vamos chegar ao acordo”, disse. Ao mesmo tempo, afirmou que o Brasil não deixaria de considerar medidas de reciprocidade caso as negociações fracassassem.

“Temos coisas que eles precisam mais do que preciso deles”, afirmou Lula, ao argumentar que o país possui alternativas comerciais além dos Estados Unidos.

Lula e Flávio divergem sobre o PCC e o CV

A decisão do governo Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas também expôs diferenças entre os candidatos sobre a cooperação internacional no combate ao crime organizado.

O governo Lula criticou o enquadramento americano e questionou a necessidade de classificar as facções como terroristas para combater suas atividades. Na sabatina ao Jornal Nacional, o presidente distinguiu a violência praticada pelos grupos criminosos no Brasil do terrorismo contra Estados.

“Quando os Estados Unidos falam em terrorismo, eles falam em terrorismo de Estado, como aqueles que atentaram contra as duas torres americanas, como aquele que quer dar golpe de Estado. Não é o caso das facções e do crime organizado do Brasil, que só querem o dinheiro”, afirmou.

Lula reconheceu que PCC e CV aterrorizam comunidades brasileiras, mas argumentou que isso não equivale à definição de terrorismo utilizada pelo governo americano. O presidente também disse ter enviado a Trump uma proposta de cooperação no combate ao crime organizado, baseada na experiência da Polícia Federal brasileira.

Flávio defende uma postura mais próxima à de Washington. Na entrevista à Globo, afirmou que pretende classificar PCC e CV como organizações terroristas já no início de um eventual governo. O senador também defendeu a entrada do Brasil no Escudo das Américas, iniciativa de cooperação regional liderada pelos Estados Unidos para combater o narcotráfico.

No debate da Band, Flávio apresentou o Escudo como um mecanismo de cooperação entre países para compartilhar informações e asfixiar financeiramente organizações criminosas. “Não é só com os Estados Unidos, não. É com a Argentina, é com a Bolívia, é com vários países da América Central”, afirmou.

Lula, por outro lado, criticou a possibilidade de participação americana direta no combate ao narcotráfico em território brasileiro. “Quando ele fala do narcotráfico, é porque ele quer entregar para o Trump cuidar daqui. Ele quer entregar para o Trump. E eu quero cuidar do território aqui”, declarou no debate da Globo.

Propostas para soberania nacional

As diferenças entre os candidatos também aparecem nos documentos apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O programa de Lula defende uma política externa baseada na autonomia do país e na oposição à subordinação a interesses estrangeiros. O documento afirma que o Brasil deve rejeitar alinhamentos automáticos e preservar sua capacidade de decisão diante das disputas internacionais.

“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica”, diz o programa.

O texto também defende uma política externa independente, a integração regional e a ampliação de parcerias comerciais. A proposta é diversificar mercados e responder a medidas comerciais consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros com base nas normas internacionais e no multilateralismo.

Já o programa de Flávio Bolsonaro propõe reaproximar o Brasil de parceiros tradicionais, entre eles Estados Unidos, Israel e Argentina.

O documento critica a condução da política externa durante o governo Lula e defende uma diplomacia orientada pelos interesses econômicos do país. “Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, afirma o programa do senador.

O texto também sustenta que o Brasil deve negociar com diferentes mercados e ampliar as oportunidades para produtores e trabalhadores brasileiros.

“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”, diz o documento.

No capítulo sobre o agronegócio, Flávio promete buscar soluções diplomáticas contra sanções comerciais impostas pelos Estados Unidos, pela China e pela Europa aos produtos brasileiros.

O que o governo Trump diz sobre as eleições brasileiras?

O governo americano acompanhou publicamente a eleição brasileira, mas as declarações de Donald Trump não representaram um endosso formal à candidatura de Flávio Bolsonaro.

Em 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno, Trump afirmou que estava acompanhando a disputa “muito de perto” e disse que o Brasil era um país importante e que a eleição era relevante. Na ocasião, não declarou apoio a nenhum dos candidatos.

Após o primeiro turno, Trump elogiou a rapidez da apuração brasileira e comparou o resultado com o processo eleitoral dos Estados Unidos. Também comentou o desempenho de Flávio, classificando-o como uma “grande vitória — apertada, mas uma vitória muito grande”, e disse que a disputa seria acirrada.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, também comentou a eleição e afirmou que todos esperavam que a disputa chegasse ao segundo turno.

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