Lula é o primeiro a conseguir virada entre o primeiro e segundo turnos


A virada histórica de Lula começou a ganhar forma nas redes sociais, cresceu nas ruas e terminou de ser consolidada na reta final da campanha. Na véspera da eleição, o presidente reuniu uma multidão na avenida Paulista, em São Paulo, numa demonstração de força que contrastou com a campanha pouco mobilizadora do primeiro turno. Ao mesmo tempo, a militância digital organizada pelo chamado "Exército de Lula", impulsionado pelo deputado André Janones (Rede-MG), ampliou a presença do petista nas redes. A participação no último debate, na TV Globo, completou uma reação que levou Lula a reverter a derrota do primeiro turno e conquistar a reeleição.
O ato deste sábado (24) sintetizou a mudança de ambiente na campanha. Lula percorreu a avenida Paulista em carro aberto, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, da primeira-dama Janja e dos ex-ministros Fernando Haddad e Simone Tebet. No trajeto, exibiu a Constituição, a bandeira do Brasil e cartazes entregues por apoiadores, entre eles "Mais livros, menos armas" e "Perdi meus pais na pandemia".
A imagem de uma campanha cercada por apoiadores foi muito diferente daquela vista no primeiro turno.
Lula chegou à eleição de 4 de outubro confiante de que poderia resolver a disputa ainda na primeira etapa. Subestimou Flávio Bolsonaro e repetiu publicamente que esperava vencer sem necessidade de segundo turno. Sua propaganda apostava em vídeos sobre o passado e a trajetória do presidente, mas tinha poucas propostas voltadas para o futuro e não conseguiu mobilizar a militância.
O resultado mostrou o tamanho do erro de cálculo. Lula terminou atrás de Flávio, com uma diferença de quase dois pontos percentuais.
Nos primeiros dias do segundo turno, a situação chegou a piorar. Pesquisas ampliaram a vantagem do candidato do PL. A reação começou a aparecer primeiro nas redes sociais e depois ganhou as ruas.
Da campanha tradicional aos vídeos de selfie
Uma das principais mudanças foi digital.
Depois de uma campanha de primeiro turno mais convencional, Lula passou a aceitar a centralidade das redes sociais na disputa. Começou a publicar vídeos no formato de selfie e adotou uma comunicação mais direta.
Janones convocou o "Exército de Lula", numa tentativa de estimular apoiadores a produzirem e distribuírem conteúdo espontaneamente. Manifestações organizadas no modelo "faça você mesmo" começaram a aparecer em diferentes regiões do país.
A campanha também reorganizou seu comando. Lula promoveu mudanças dentro do QG e tentou dar mais agilidade à operação eleitoral.
A transformação ajudou a reanimar uma militância que havia passado o primeiro turno sem o mesmo nível de mobilização. Nas duas últimas semanas, a vantagem de Flávio nas pesquisas começou a cair até chegar ao empate numérico registrado pelo Datafolha na quinta-feira anterior à votação. No sábado, Flávio aparecia numericamente à frente, em situação de empate técnico.
Governo entrou na campanha
Outra diferença entre os dois turnos foi a utilização mais intensa das ações de governo.
Lula antecipou em alguns dias o pagamento do reajuste do Bolsa Família para que todos os beneficiários recebessem antes da votação. O governo também anunciou um novo Desenrola, lançou um pacote de benefícios no Prospera MEI e apresentou a proposta de ampliar o Pé-de-Meia para universitários. Na reta final, Lula ainda prometeu tarifa zero no transporte público aos finais de semana.
No Congresso, conquistou uma vitória política com a aprovação, no Senado, do fim da escala 6x1.
Debate mudou agenda da campanha
No debate da Band, o senador atacou Lula com acusações de corrupção e levou para a linha de frente figuras historicamente associadas ao antipetismo, como Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Lula respondeu lançando um desafio para que os dois candidatos abrissem seus sigilos fiscais, bancários e telefônicos.
A iniciativa passou a dominar a campanha nos dias seguintes. Houve troca de acusações e apresentação de documentos ao TSE. O assunto deslocou parte da disputa para o terreno escolhido por Lula e obrigou as duas campanhas a responderem diariamente sobre a abertura dos dados.
As Big Techs também entraram no conflito. A campanha petista apresentou denúncias à Justiça e a organismos internacionais sobre a atuação das plataformas.
Depois de terminar o primeiro turno em segundo lugar, Lula chegou ao segundo pressionado pelo antipetismo, pela rejeição ao governo e por um ambiente regional de punição aos governantes.
Terminou, porém, com uma vitória inédita: pela primeira vez, um candidato derrotado no primeiro turno de uma eleição presidencial brasileira conseguiu virar a disputa e vencer no segundo.
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