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Tuesday, October 27, 2026

Representação feminina: o avanço civilizatório das eleições de 2026

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As eleições de 2026 deixarão marcas importantes na história política brasileira, especialmente pelo crescimento da representação feminina nos espaços de poder. Os resultados revelam avanços expressivos tanto no Congresso Nacional quanto nos Executivos estaduais.

A partir de fevereiro de 2027, a Câmara dos Deputados contará com 109 mulheres entre seus 513 integrantes: 19 a mais do que em 2022. Um crescimento de 21,1%! No Senado Federal, 12 mulheres foram eleitas entre as 54 vagas em disputa. O maior número em um único pleito desde a redemocratização! Consideradas aquelas cujos mandatos prosseguem, a bancada feminina alcançará, 18 das 81 cadeiras da Casa.

O avanço também alcançou os Executivos estaduais. Nas eleições de 2026, três mulheres foram eleitas governadoras: Mailza Assis, no Acre; Celina Leão, no Distrito Federal; e Raquel Lyra, reeleita em Pernambuco. O resultado iguala o recorde de 2006, há duas décadas, e supera as duas governadoras eleitas em 2022. Embora ainda representem apenas três das 27 unidades da Federação, essas conquistas demonstram que a ampliação da participação feminina começa a alcançar também os mais altos postos de comando político.

Os números são históricos e merecem celebração!

O avanço da presença feminina nos espaços de representação política consiste em um movimento relevante para o amadurecimento da democracia brasileira.

Mais mulheres ocuparão o Parlamento brasileiro, em um importante passo na superação de uma realidade historicamente marcada pela presença majoritariamente masculina nos espaços de poder. Ouso dizer que os resultados das eleições de 2026 podem ser compreendidos como expressão de um avanço civilizatório.

A democracia não se esgota na realização periódica de eleições, tampouco na garantia formal de que todos possam votar e ser votados. Uma democracia verdadeiramente representativa pressupõe que diferentes parcelas da sociedade tenham condições concretas de acessar os espaços de decisão.

Sob essa perspectiva, ampliar a presença feminina na política não constitui uma agenda de mulheres para mulheres. Trata-se, antes, de respeito à qualidade e à própria representatividade da democracia.

Esse avanço tampouco surgiu espontaneamente. Nas últimas décadas, o Brasil construiu, não sem resistência, mecanismos destinados a enfrentar obstáculos históricos à participação feminina na política. Após a política de cotas de candidaturas seguiram-se regras destinadas à distribuição de recursos e de tempo de propaganda.

A Emenda Constitucional nº 117/2022 consolidou a destinação mínima de 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e da parcela eleitoral do Fundo Partidário às candidaturas femininas, além de assegurar percentual correspondente do tempo de propaganda eleitoral gratuita.

Paralelamente, a Justiça Eleitoral passou a enfrentar com maior rigor práticas que transformavam a política afirmativa em mera formalidade, especialmente com as candidaturas fictícias utilizadas para o cumprimento artificial da cota de gênero.

Há, portanto, uma construção institucional por trás desse crescimento, a demonstrar que desigualdades historicamente consolidadas dificilmente são superadas apenas pela passagem do tempo. A abertura dos espaços de poder exige a identificação das barreiras existentes e a construção de mecanismos capazes de reduzi-las.

Os números mostram que esse processo começa a produzir frutos concretos. As mulheres representarão 21,2% da Câmara e 22,2% do Senado. No cenário internacional, o Brasil deverá avançar, em projeção, da 135ª para a 120ª posição no ranking da União Interparlamentar (IPU).

Mais do que estabelecer novos recordes, esses números revelam uma trajetória de ampliação da participação feminina na política brasileira.

Mas não é suficiente. Precisamos avançar mais e rápido. Ainda não alcançamos sequer os 30% trazidos pela legislação. Lembrando que a meta é a paridade de 50%, anseio de, ao menos, mais da metade do eleitorado brasileiro, já que as mulheres representam 52,8%.

A presença crescente das mulheres no Parlamento contribui para que aquilo que durante décadas foi excepcional se torne, progressivamente, parte natural da vida política do país. Há momentos em que os números deixam de ser apenas números para revelar transformações mais profundas — e o crescimento da representação feminina nas eleições de 2026 parece ser um deles.

*Luciana Lóssio é advogada, ex-Ministra do Tribunal Superior Eleitoral e ex-Conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos.

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