Márcio Canella e ex-secretário da Polícia Civil são presos em operação contra lavagem de R$ 7 bilhões
A nova fase da Operação Unha e Carne também cumpriu 16 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito revela a vida de luxo dos investigados e aponta que, quando os policiais federais chegaram para cumprir os mandados, um dos suspeitos tentou comer uma planilha que registrava a contabilidade do crime.
Na quinta-feira (15), agentes fortemente armados entraram na mansão de Márcio Canella na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. A organização criminosa investigada é apontada pela PF como vinculada à milícia, ao narcotráfico e à política no estado. Entre o patrimônio identificado pelo grupo, estão uma casa à beira-mar em Niterói avaliada em R$ 22 milhões, outro imóvel em Itaipava com academia e jardins, além de uma residência em um resort na Flórida, nos Estados Unidos. A polícia apreendeu 20 carros de luxo, 49 joias e relógios, R$ 90 mil em espécie e mais de 30 armas com munições.
Dono da mansão na Barra, Márcio Canella é ex-prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e acaba de se eleger deputado estadual com quase 200 mil votos. Durante a campanha, ele chegou a ser flagrado e preso com um fuzil dentro do carro, mas foi liberado.
Em vídeo nas redes sociais celebrando a votação, declarou: "Vocês podem ter certeza vocês terão na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro um deputado que irá defender vocês, defender as famílias, defender o cidadão de bem da Baixada Fluminense".
Segundo a PF, Canella atuava como articulador político do esquema armado, que movimentou mais de R$ 7,6 bilhões desde 2020. O setor de combustíveis foi escolhido pela quadrilha pela alta liquidez, intenso fluxo em dinheiro vivo e facilidade de simular faturamento. A apuração aponta que o grupo contava com informações privilegiadas para escapar do Procon. Em mensagem de áudio interceptada, um integrante alerta: "Amanhã vai ter fiscalização do PROCON Rio, em São Gonçalo. Ele não sabe quais postos que vão fazer. Mas, de antemão, pra todo mundo ficar em alerta, tá?".
O relatório policial afirma que "é indiscutível a participação de Canella nas atividades criminosas, seja atuando para impedir ações de fiscalização por órgãos de controle ou investigações criminais". Canella também foi o responsável por indicar Marcus Vinícius Amim para a presidência do Detran-RJ e, em junho de 2023, trabalhou pela nomeação de Amim como secretário da Polícia Civil na gestão de Cláudio Castro, cargo em que permaneceu por dez meses antes de ser preso.
Laranjas e operador institucional
A PF sustenta que Amim operava institucionalmente para blindar o grupo e era sócio de laranjas. Ele possui vínculo com duas mulheres formalmente registradas como donas de mais de vinte postos em Niterói, São Gonçalo e Região dos Lagos — uma delas tinha salário de R$ 1,8 mil, mas movimentou mais de R$ 60 milhões.
Amim é sócio das duas na JR Conveniência Ltda e recebeu R$ 911 mil da ADM Oil Prestadora de Serviços, uma das 112 firmas fechadas na operação. Na mesma empresa, duas funcionárias com salários de R$ 4,8 mil depositaram quantias que superam R$ 300 milhões para abastecer os postos.
Entre os detidos estão ainda os irmãos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes, inspetores da Polícia Civil apontados como sócios ocultos de postos. Em mensagens interceptadas, o grupo indicava a adulteração de combustíveis. Um dos áudios registra: "Aí, vamos lá: cadê o respeito ao contrato, cadê, entendeu? Se eu fosse o santinho, eu estava com os postos todos secos ou falidos. Pô, complicado!".
A gravação é do policial civil José Carlos Alves de Souza Júnior, apontado como gestor do fluxo financeiro e da lavagem de dinheiro da quadrilha. Dono de uma cobertura de mais de 500 metros quadrados em Camboinhas, Niterói, ele guardava R$ 40 mil na adega e um Cadillac na garagem. Apesar do salário de R$ 9 mil na corporação em setembro, documentos achados no imóvel mostram gastos de quase R$ 1,5 milhão em fevereiro de 2026, incluindo R$ 400 mil na fatura do cartão da mulher e R$ 54 mil na manutenção da casa na Flórida.
Papel mastigado e negociações com facção
Durante o flagrante, policiais resgataram da boca de um dos investigados um papel mastigado com anotações que ligavam repasses a "Márcio Canella" a partir de um dos postos. Dados de inteligência financeira apontam que o parlamentar movimentou quase R$ 2,6 milhões em créditos entre 2025 e 2026.
Canella também é investigado por elos com milícia e tráfico. A representação da PF cita áudios em que um capitão da PM intermedia interesses com chefes do Comando Vermelho.
A polícia suspeita que o oficial atuava a favor da gestão de Canella em Belford Roxo, onde o então prefeito comemorava ações públicas: "Quando se faz a coisa certa, com amor, dedicação e com coragem, a gente avança. Criei o Barricada Zero em Belford Roxo. Retirei todas as barricadas colocadas pelos criminosos".
O que dizem as defesas
A defesa de Márcio Canella afirmou, em nota, que ele "jamais integrou, apoiou ou se beneficiou de qualquer organização criminosa". O texto diz causar estranheza que "a medida tenha sido decretada apenas dez dias depois de Márcio Canella ser consagrado como o segundo deputado estadual mais votado do Rio de Janeiro, com base em fatos que já haviam sido objeto de fase anterior da mesma operação", reforçando confiança na Justiça.
O advogado do ex-secretário Marcus Amim informou que não vai se pronunciar. A defesa dos inspetores Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes declarou que não teve acesso aos autos e não comentará. Não foi possível contato com a defesa do policial civil José Carlos Alves de Souza Júnior.
A prisão preventiva de Canella não tem prazo determinado. O deputado eleito enfrenta ainda ações no Ministério Público Eleitoral, cabendo à Justiça definir se ele poderá ou não assumir a cadeira na Alerj.
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