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Friday, November 6, 2026

Em viagem, Leão 14 deve encarar antagonistas, revisitar raízes e pagar dívida de Francisco

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A decisão de continuar enfrentando uma maratona de viagens (três países, numa média de um novo voo por dia, ao longo de 11 dias) menos de um mês depois da retirada de um tumor de pulmão parece uma demonstração de força por parte do papa Leão 14.

Se alguém ainda esperava algo diferente de uma vontade férrea por trás da fala mansa, provavelmente caiu do cavalo. Mas a visita do pontífice ao Uruguai, à Argentina e ao Peru também tem uma série de outras dimensões simbólicas e práticas.

A combinação de destinos confirmada pela comitiva papal deve funcionar, ao mesmo tempo, como 1) um microcosmo dos desafios que o papado enfrenta nos últimos anos, 2) o retorno triunfal de um filho adotivo ao lar e 3) uma espécie de pagamento das dívidas deixadas pelo papa Francisco, antecessor e mentor do primeiro pontífice estadunidense.

Começando pelo último item, Jorge Bergoglio jamais voltou ao seu país natal depois de se tornar o primeiro papa argentino (e também o primeiro oriundo do continente americano) em 2013. As razões para que o retorno não tenha ocorrido nunca ficaram totalmente claras, mas caberá ao americano Robert Prevost, seu sucessor, pagar parte dessa dívida pontifícia.

Além disso, até agora, Leão 14 não se desviou de grande parte da agenda ditada pelo papado de Francisco. A começar pela preocupação com as comunidades pobres criadas pelo que o pontífice argentino apelidava de "globalização da indiferença": Leão deve ir ao encontro delas nos três países, incluindo uma visita ao bairro de Montevidéu que responde por quase metade dos homicídios da cidade, patrulhado por equivalentes dos blindados "caveirões" do Brasil.

Outro compromisso estabelecido por Francisco, o da aliança entre a Igreja e os povos tradicionais da Amazônia em favor do "cuidado com a casa comum" da humanidade, ou seja, o ambiente global, também será honrado pelo atual papa. Ele vai se encontrar com missionários e indígenas na cidade de Pucallpa, a algumas centenas de quilômetros da fronteira peruana com o Acre, em plena zona de floresta tropical.

Mas, além da mata, os outros dois grandes cenários da complexa geografia do Peru —a planície costeira, representada por Lima, e o antigo centro político e ritual dos incas nas montanhas dos Andes, em Cuzco— também serão revisitados pelo papa.

Naturalizado peruano, Prevost passou lá seus anos mais importantes antes do papado, como missionário agostiniano (a ordem religiosa inspirada pelo santo e filósofo Agostinho de Hipona) e, mais tarde, como bispo de Chiclayo, região desértica da costa.

O bom filho à casa torna? Provavelmente será esse o clima quando ele reencontrar seus antigos fiéis e colaboradores mais próximos em Chiclayo, que deixou há apenas três anos.

Mas os conservadores mais ferrenhos da Igreja peruana talvez não tenham lembranças tão positivas de Prevost, considerando a maneira peremptória como lidou com acusações de abuso sexual e espiritual envolvendo o outrora poderoso movimento católico Sodalício de Vida Cristã, extinto pelo Vaticano.

Quanto aos desafios que o papado enfrenta ao longo destes anos, basta pensar no vindouro encontro de Leão 14 com dois chefes de Estado alçados à sua presente posição pelas ondas da direita radical (Javier Milei na Argentina e Keiko Fujimori no Peru) —uma onda que acabou fazendo de Leão um de seus antagonistas globais.

Talvez mais importante ainda, ao pisar no Uruguai, o pontífice encontrará a nação menos cristã da América do Sul. Quase metade dos habitantes se declara "não religiosa", e, em 2025, apenas 2.200 dos 30 mil uruguaios nascidos naquele ano foram batizados. É um cenário não muito diferente da França ferrenhamente secular na qual, apesar disso, o papa teve recepção de gala.

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