'Superbancada' do PL tem ex-esquerdistas e só 8% de novatos na política

O levantamento do UOL cruzou dados das candidaturas, votos e bens declarados ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2026 com o histórico eleitoral, biografias oficiais e informações publicadas na imprensa sobre cada eleito.

Dois puxadores de votos
Os 121 eleitos somaram 20,6 milhões de votos, média de 170,7 mil por deputado.
Os dois mais votados, Nikolas Ferreira (MG) e Lucas Pavanato (SP), responderam por 29,8% dos votos. Ajudaram a eleger 21 deputados em Minas e 19 em São Paulo, respectivamente.
A distância para o terceiro colocado é grande: André Fernandes (CE) teve 684.372 votos. Na ponta inferior, Júnior Betão (AC) se elegeu com 13.732 apoios.
Quase metade foi eleita no Sudeste (57), região que têm 34,9% das cadeiras da Câmara (179).
No Nordeste, única região em que Lula liderou em todos os estados no primeiro turno, o PL elegeu 19 deputados em seis estados. Não conquistou cadeiras em Alagoas, Piauí e Sergipe.

Estreantes são 36,4%
Dos 121 eleitos, 63 (52,1%) já haviam sido vitoriosos como deputados federais em 2022. Outros 14 passaram pela Câmara em mandatos anteriores, e 44 (36,4%) chegam à Casa pela primeira vez. A proporção de estreantes é próxima à da Câmara inteira: 183 deputados (35,67%), a menor em quatro eleições.
Entre os que retornam, estão Alfredo Nascimento (AM), Wladimir Garotinho (RJ), Izalci Lucas (DF) e Delegado Francischini (PR).
Francischini foi o primeiro parlamentar cassado pelo TSE por desinformação contra as urnas eletrônicas. Em 2021, perdeu o mandato de deputado estadual e ficou inelegível por oito anos, prazo que terminou em 7 de outubro de 2026, três dias depois da eleição —seu registro aparece como "deferido com recurso" na base consultada, ou seja, há uma decisão favorável ainda sujeita a revisão.
<embeduol component="video-embed" data-idyoutube="vCPcNri3tDg" data-related="false" data-share="false" data-autoplay="true" data-mute="false" data-btnfollow="false">embeduol>
Estreantes, mas não novatos
Estrear na Câmara não significa começar na política. Dos 44 que chegam pela primeira vez, 34 já ocuparam cargo eletivo —mais de um, em alguns casos.
Pavanato (SP) é vereador em São Paulo. Jair Renan Bolsonaro (SC), filho do ex-presidente, ocupa o mesmo cargo, mas em Balneário Camboriú (SC). Gil Diniz (SP) está no segundo mandato na Assembleia paulista.
Para dez eleitos, não foram identificados mandatos anteriores:
- Doutora Raissa Soares (BA)
- Fred Rodrigues (GO)
- Rodrigo Tavares (MG)
- Thiago Ganem (MG)
- Vinicius Diniz (MG)
- Thiago Boava Hey Roy (MT)
- Julia de Castro (RJ)
- Daniel Trindade (RR)
- Perondi (RS)
- Wesley Cezar Lelinho (SP)
Thiago Boava Hey Roy é viúvo da deputada Amália Barros (PL-MT), morta em maio de 2024. Sua campanha teve o apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), eleita senadora pelo Distrito Federal.
Outras trajetórias iniciaram décadas antes do bolsonarismo. Bibo Nunes (RS) ingressou na política como secretário de Turismo de Cruz Alta em 1980; Alfredo Nascimento foi secretário extraordinário da Prefeitura de Manaus em 1983; Osmar Terra (RS) começou como superintendente do antigo Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) em Porto Alegre em 1986; e Joaquim Passarinho (PA) foi vereador em Belém a partir de 1989.
Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, foi eleito em São Paulo com 379.312 votos. Antes, concorreu em nove eleições desde 1994, por sete partidos diferentes (PPR, PPB, PFL, PTB, PSL, PR e PL). Venceu apenas a de 1996, para vereador de Praia Grande (SP), pelo PMDB. A derrota mais recente foi em 2024, quando ficou em segundo lugar para prefeito de Registro (SP).

Uma bancada de ex-filiados
Dos 116 eleitos que foram candidatos antes, apenas 23 concorreram sempre pelo PL. Ou seja, 93 já passaram por outras legendas.
A mais frequente, com 24 deputados, é o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu presidente em 2018 —ele se filiou ao PL em 2021. Depois aparecem União Brasil (20), PSDB (16), MDB (15), PTB (13), PSD (13), DEM (12, incluindo o antigo PFL) e PDT (11). As contagens se sobrepõem: um mesmo deputado pode ter passado por várias dessas legendas
Considerando apenas a eleição de 2022, 87 dos 116 (75%) já estavam no PL. Os outros 29 vieram principalmente de União Brasil (6), PSDB (5) e MDB (3). Estão nesse grupo o Sargento Fahur, do Paraná, eleito pelo PSD, e Coronel Assis, de Mato Grosso, pelo União Brasil.
Ex-filiados à esquerda
Uma das principais bandeiras do PL é o antipetismo, mas parte dos eleitos já passou por partidos de esquerda no passado. Veja exemplos:
- PT - Altineu Côrtes (RJ)
- PCdoB - Dr. Orlando (MA), Thiago Surfista (SP) e Osmar Terra (RS)
- PDT - Giovani Cherini (RS), Subtenente Gonzaga (MG), Jefferson Campos (SP), Bibo Nunes (RS), Ricardo Arruda (PR), Nina (RN), Wesley Cezar Lelinho (SP), Mara Caseiro (MS), Soraya Santos (RJ) e Zé Vitor (MG)
- PSB - Jefferson Campos (SP), Emidinho Madeira (MG), Rosana Valle (SP), Capitão Augusto (SP), Rosângela Reis (MG) e Daniel Trindade (RR)
- PV - Rosângela Reis (MG) e Fabinho Ramalho (MG)
Ex-ministro de Lula e Dilma
Também há deputados eleitos que já integraram governos petistas. É o caso de Alfredo Nascimento (AM), que comandou o Ministério dos Transportes entre 2004 e 2011, nos dois primeiros mandatos de Lula e no início do governo Dilma Rousseff (PT).
O PL, ao qual Nascimento já era filiado, fez parte da coligação que elegeu Lula em 2002. O vice-presidente, José de Alencar, era do partido.
Outro que atuou no governo Lula é Thiago Martins Milhim, o Thiago Ganem (MG), que foi secretário nacional de Esporte Amador, Educação, Lazer e Inclusão Social em 2023.
Fabiana Vilar (MA) foi secretária de Agricultura do Maranhão de 2019 a 2020, na gestão de Flávio Dino, então no PCdoB.
Farda e púlpito
Policiais, militares e bombeiros estão entre os eleitos, e muitos levaram a patente ou o cargo no nome de urna.
É o caso de General Pazuello (RJ), ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, General Girão (RN), Coronel Chrisóstomo (RO), Coronel Fernanda (MT), Delegado Paulo Bilynskyj (SP) e Sargento Fahur (PR).
Na ocupação declarada ao TSE, 38 se apresentam como deputados, 16 como empresários, 12 como advogados, dez como vereadores e oito como médicos. O campo não abrange todas as atividades já exercidas.
Entre os pastores estão Sóstenes Cavalcante (RJ), Marco Feliciano (SP) e Lincoln Portela (MG). Sóstenes é líder do PL na Câmara e ex-presidente da Frente Parlamentar Evangélica.
Fábio Sousa (GO) é bispo da Igreja Fonte da Vida. No campo católico, Eros Biondini (MG) integra a Renovação Carismática, e Chris Tonietto (RJ) é ligada ao Centro Dom Bosco.
Herdeiros e sobrenomes
Dani Cunha (RJ) é filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG), que também concorreu, mas perdeu.
Wladimir Garotinho (RJ) é filho dos ex-governadores do Rio Anthony Garotinho e Rosinha Matheus.
Rosangela Moro (PR) é mulher do senador e ex-ministro de Bolsonaro Sergio Moro (PL), eleito governador do Paraná.
Outros parentes de políticos são Rogerio Barra (PA), Vinicius Diniz (MG), Matheus Noronha (CE), Marcelo Moraes (RS), George Morais (PB), Lafayette Andrada (MG), Roberta Roma (BA), Dr. Jaziel (CE), Aldir Júnior (MA) e Fabiana Vilar (MA).
Patrimônio
Os bens declarados pelos eleitos somam R$ 329,4 milhões. Os maiores são:
- Magda Mofatto (GO): R$ 62,9 milhões
- Fabinho Ramalho (MG): R$ 20 milhões
- João Bacelar (BA): R$ 13,5 milhões
- Rodolfo Nogueira (MS): R$ 13,4 milhões
Julia de Castro (RJ), de 24 anos, não tem bens registrados. Thiago Medina (PE) declarou R$ 17,5 mil, e Lucas Pavanato, R$ 43,7 mil.
Os valores são autodeclarados; a falta de registros não comprova ausência de patrimônio.
Dos movimentos às bandeiras
Parte dos eleitos chegou à política por movimentos de direita. Nikolas Ferreira coordenou o Direita Minas. Lucas Pavanato integrou o MBL, antes de romper com o grupo e se aproximar do bolsonarismo. Zé Trovão (SC) foi um dos líderes da mobilização de caminhoneiros pró-Bolsonaro de setembro de 2021, marcada por bloqueios de rodovias e ataques ao STF (Supremo Tribunal Federal).
Uma das principais bandeiras dos eleitos é a segurança pública, com propostas como redução da maioridade penal e aumento de penas.
Na pauta de costumes, se posicionam contra a linguagem neutra e o aborto, inclusive nos casos hoje legalizados (estupro, anencefalia do feto e risco à vida da mãe).
KioskNews shows a cleaned-up reading view extracted from the publisher’s page — the original always lives on their site, not ours.