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Wednesday, October 21, 2026

Caro Bruno Nogueira, imagina-te crente por instantes

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Na hora em que Ele Se entregava, para voluntariamente sofrer a morte, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, todos e comei: isto é o meu corpo que será entregue por vós”; “Tomai, todos e bebei: este é o cálice do meu sangue”. Seguidamente, disse aos seus discípulos: “Fazei isto em memória de mim”. 

Caro Bruno Nogueira,                                                                                                                                                                       Imagina-te crente, por instantes; imagina-te perante a presença real de Jesus na eucaristia; imagina-te perante a certeza de viveres a mesma experiência que os apóstolos fizeram; imagina-te estares ali com Ele, na última Ceia a vê-lo a partir o pão e a dizer: “isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue”, “fazei isto em memória de Mim”. Imagina-te crente, por instantes! Consegues colocar-te no lugar do outro?

Caro Bruno Nogueira,                                                                                                                                                                          Para nós católicos, a missa é a renovação do sacrifício da cruz, o momento da entrega total de Jesus por nós (também por ti); a missa é o momento em que o céu e a terra se unem; Jesus está realmente presente. Presente, como quando nasceu em Belém, na manjedoura; presente, como quando estava pregado na cruz, como quando ressuscitado dos mortos e apareceu a Maria Madalena e aos apóstolos. E Jesus quer que todos nós façamos a mesma experiência que os apóstolos, e todos os que estavam presentes, fizeram. Jesus, quer que todos aqueles que acreditarem Nele sejam introduzidos nesta experiência extraordinária, sobrenatural, vital, fundante… que é a sua presença real na eucaristia.Para nós católicos, ir à missa e comungar, “é subir ao calvário para nos encontrarmos com Jesus”; ir à missa e comungar é estar lá, na última ceia; é estar lá, no calvário de Jesus crucificado; é estar lá e negá-lo três vezes; é estar lá e ajudá-lo a carregar a cruz; é correr ao sepulcro e encontrá-lo vazio. Ir à missa e comungar é entrar com Jesus numa relação directa e pessoal. Para um crente, a religião não é pertencer a um partido político, ou ser adepto de um clube de futebol. A religião é a base da sua identidade, é o centro e o grande propósito da existência, da sua atitude vital perante a vida, a morte, e o mistério da existência. Ridicularizar, humilhar, causar dano, profanar gratuitamente esse núcleo identitário causa sofrimento real nas pessoas.

Caro Bruno Nogueira,

Ir à missa e comungar, é comungar o corpo de Jesus, é fazer a experiência da Sua grandeza e santidade. E este é o maior milagre de que a igreja é depositária. Depositária e protectora; não há nada que se compare ao milagre da eucaristia, através do qual Jesus está presente. Imagina-te crente, por instantes. Imagina-te perante o desrespeito direto a um sacramento tão vital que atinge o coração da fé de milhões de pessoas. Imagina-te crente por instantes; percebes agora porque ficam tristes, magoados, indignados, revoltados os católicos?

Caro Bruno Nogueira,

Rejeitar um determinado tipo de humor ou uma intervenção artística em particular, por considerá-lo ofensivo ou desrespeitoso não significa querer cancelar o seu autor. Significa exercer o direito de resposta e de avaliação moral. Numa sociedade democrática, o público não é um mero receptor passivo; tem a legitimidade de qualificar o que consome. A liberdade de expressão não pode ser uma via de sentido único; se um artista tem a liberdade de chocar e desafiar práticas, valores, rituais, o público e os críticos têm o igual direito de manifestar o seu profundo desacordo, rejeição ou indignação. E tal exercício não configura qualquer reação de intolerância ou cancelamento; tal não é mais do que o cumprimento do dever de zelar pela dignidade da fé e de exigir o respeito básico que qualquer crença merece numa sociedade plural.

2. Face ao exposto, deveremos considerar que o debate público que se gerou em torno do sketch “Corpo de Cristo”, emitido no programa Ruído na RTP, ilustra perfeitamente por que razão a indiferença não é a reacção desejável e adequada neste caso. Pois, não se trata apenas de uma “piada de mau gosto”, abstrata ou de uma crítica à instituição clerical. Houve, objectivamente, uma utilização deliberada de um espaço de culto, paramentos e alfaias litúrgicas (quem forneceu, quem autorizou?) para simular de forma grotesca e desrespeitosa um dos momentos mais sagrados da vida cristã – a Sagrada Comunhão. Tudo isto foi transmitido em sinal aberto por uma televisão pública de grande impacto, correndo, assim, o risco de deixar de ser um mero ato privado de mau gosto para se tornar numa afronta pública organizada. Defender o silêncio perante uma profanação transmitida em horário nobre pode ser interpretada como aceitar a sua normalização.

3. Relativamente aos “católicos fofinhos”, ilustres pensadores (e escritores) da nossa praça e adeptos, frequentemente, do sempre conveniente “neutralismo superior”, intelectual, sofisticado, elaborado, ecológico e inclusivo (…) mas frouxo, tíbio, ambíguo, sem força… apraz-me dizer o seguinte:

– o dever de todo o católico perante a injustiça, o erro e o ataque à fé não deve ser o silêncio ou a indiferença, mas sim o testemunho firme, elevado e profético, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, que deu a Sua própria vida pela Verdade;

– erguer a voz contra o que se considera moralmente degradante ou injusto para com uma comunidade, recusando a conformidade com as tendências dominantes do meio cultural e mediático, deve ser visto não como qualquer tipo de intolerância ou cancelamento perante a crítica, mas sim como um sinal de fortaleza e fidelidade aos princípios e valores do legado da fé;

– o católico não se move por conveniências políticas ou popularidades efémeras e circunstanciais. Neste sentido, a sua atitude perante o escárnio, o “escândalo”, o insulto, a questões essenciais da sua fé, deve ser firme, inequívoca, sem ambiguidades, sem relativismos e sem ceder à pressão da cultura dominante (deve, naturalmente, ter conteúdo, ser elevada, evitando o insulto, ou o mero rancor). Recordemo-nos que Jesus não era um moderador de pluralismos, era o portador da Verdade; Era Ele próprio, a Verdade!

Já nos alertava o velho Dante, na sua obra-prima, A Divina Comédia, que os lugares mais quentes do inferno estão reservados para todos aqueles que em tempos de crise optaram pela neutralidade; será?

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