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Sunday, September 13, 2026

África entra no mapa das exportações de quase 200 empresas brasileiras

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Lusaca, da Zâmbia; Maputo, em Moçambique; e Adis Abeba, na Etiópia* — Um total de 198 empresas começou a exportar para algum país da África em 2025, segundo dados divulgados pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) em primeira mão à EXAME.

O movimento ocorre em meio a uma nova ofensiva comercial brasileira no continente africano para mitigar os efeitos do tarifaço dos Estados Unidos.

Em agosto, a ApexBrasil liderou uma missão empresarial por cinco países — Angola, África do Sul, Zâmbia, Moçambique e Etiópia — com empresas e entidades interessadas em ampliar negócios na região. A agência identificou milhares de oportunidades comerciais no continente, incluindo 784 possibilidades nos mercados visitados durante a viagem.

A entrada dessas companhias ocorre em diferentes setores da economia. A maior quantidade de novas exportadoras está concentrada em produtos alimentícios e animais vivos, com 44 empresas que começaram a vender para a África em 2025. Na sequência aparecem obras diversas, com 41 empresas, máquinas e equipamentos de transporte, com 37, e artigos manufaturados classificados, com 30.

Os dados consideram apenas empresas atendidas pela ApexBrasil e não representam o universo total de exportadoras brasileiras. Ao todo, 1.149 empresas apoiadas pela agência exportaram para a África em 2025, com US$ 8,58 bilhões em valor global exportado.

Alimentos entram por Angola, indústria mira África do Sul

A distribuição dos destinos mostra diferenças entre os setores. Entre as empresas de produtos alimentícios e animais vivos, Angola aparece como principal mercado de entrada: 115 das 204 companhias do segmento exportaram para o país, o equivalente a 56,4% do setor.

Nos demais segmentos, a África do Sul concentra a maior parte das primeiras conexões comerciais. O país aparece como principal destino para empresas de máquinas e equipamentos de transporte, com 70 companhias exportando para o mercado sul-africano, ou 60,9% do setor.

O mesmo ocorre em obras diversas, com 72 empresas exportando para a África do Sul (60%), e em artigos manufaturados classificados, com 50 companhias (62,5%).

A concentração em poucos mercados mostra que a entrada das empresas brasileiras no continente ocorre inicialmente por polos comerciais com maior estrutura econômica, antes de uma possível expansão para outros países africanos.

Movimento pode crescer com novas oportunidades comerciais

A entrada das 198 empresas representa um retrato do movimento já realizado em 2025, mas a expectativa da ApexBrasil é que novas companhias avancem após rodadas comerciais e missões empresariais realizadas no continente.

Durante a missão de agosto, acompanhada pela EXAME, a agência promoveu encontro de empresários brasileiros com empresas locais em diferentes mercados africanos e ampliou sua presença institucional com a abertura de uma unidade em Adis Abeba, na Etiópia, sede da União Africana.

Um exemplo é a indústria do plástico. O setor, que exportou US$ 7,7 bilhões em 2025 considerando transformados plásticos e resinas, passou a olhar para a África como uma alternativa diante da redução de espaço dos Estados Unidos como destino comercial. Segundo representantes do setor, o continente africano ainda representa uma parcela pequena das vendas externas da cadeia, mas aparece como uma fronteira de expansão.

A busca por novos mercados ocorre em um momento em que empresas brasileiras tentam reduzir a concentração das exportações em poucos destinos e ampliar a presença em regiões com demanda crescente.

[caption id="attachment_5857364" align="alignnone" width="2500"] Representante da indústria do plástico em rodada de negócios[/caption]

Na área de saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) também avalia ampliar sua atuação comercial no continente. A instituição busca vender medicamentos e diagnósticos, além de desenvolver parcerias para transferência de tecnologia e produção local em países africanos.

A estratégia ainda está em fase de prospecção, mas mostra um movimento diferente da exportação tradicional de produtos: além de vender mercadorias, empresas brasileiras buscam estabelecer parcerias de longo prazo e participar da estruturação de cadeias produtivas locais.

[caption id="attachment_5857366" align="alignnone" width="2500"] Representante da Fiocruz na missão em rodada de negócios na África do Sul[/caption]

O movimento também envolve cooperativas e empresas ligadas à agricultura familiar. Durante a missão da ApexBrasil, a Unicafes Brasil apresentou iniciativas para preparar cooperativas para a exportação e apontou alimentos como farinha de mandioca, derivados de milho, café, mel e frutas como produtos com potencial no continente africano.

[grifar] “O mercado africano é um mercado novo, é uma região com uma população muito grande, onde tem grande potencial para os nossos produtos”, afirmou Ícaro René, diretor de comercialização da Unicafes Brasil.

Segundo ele, um dos principais desafios para as cooperativas é garantir segurança nos contratos internacionais, com atenção a aspectos como estabilidade econômica dos países e repatriação de recursos.

Outro exemplo vem da indústria de máquinas e equipamentos. A gaúcha Arauterm, fabricante de caldeiras e aquecedores industriais, participou da missão da ApexBrasil em Moçambique em busca de novos clientes no continente. A empresa, que já exporta há mais de 20 anos para países da América do Sul, passou a olhar para a África após receber consultas comerciais de empresas da região.

“A África vem sendo um país que a gente foi procurado, começou por uma procura por orçamentos e aí a gente viu que poderia ser um mercado a ser desenvolvido”, afirmou Daiane Furdeborba, gerente industrial da Arauterm.

Segundo a executiva, a estratégia inicial é entender as demandas locais antes de ampliar a presença no continente. A empresa vê oportunidades em setores como alimentos, hospitais e indústrias que precisam de sistemas de geração de vapor. A exportação hoje representa 15% do faturamento da companhia, e a meta é ampliar essa participação com novos mercados.

Os dados da ApexBrasil mostram que a expansão para a África não ocorre apenas entre grandes exportadores tradicionais: parte relevante do movimento vem de empresas que fizeram sua primeira entrada no continente em 2025.

Segundo dados gerais de comércio exterior, 3.588 empresas brasileiras exportaram para a África em 2025, com US$ 15,46 bilhões em vendas ao continente. A comparação deve considerar que a base da ApexBrasil reúne apenas empresas atendidas pela agência, enquanto o dado geral inclui todas as exportadoras brasileiras.

Quem já está, quer ampliar

O movimento não envolve apenas empresas que fizeram a primeira entrada no continente. Companhias brasileiras que já atuam na África também buscam ampliar negócios, como a Embraer, que vê oportunidades no avanço da aviação regional. Em entrevista à EXAME durante a missão da ApexBrasil, o executivo Hussein Dabbas destacou que a baixa conectividade aérea no continente abre espaço para expansão do setor.

Fabrica da EMBRAER em São Jose dos Campos - SP (Leandro Fonseca /Exame)

Além da aviação, empresas brasileiras de outros setores que já possuem atuação internacional também buscam ampliar negócios no continente. Seara, Vibra Foods e WEG, que participaram da missão da ApexBrasil, já exportam para a África e avaliam novas oportunidades na região. As companhias estão entre as empresas brasileiras com maior presença em diferentes mercados globais e veem o continente como uma frente adicional de diversificação.

Exportação de tecnologia do agro

Além da exportação de produtos, uma das frentes em que o Brasil busca ampliar sua presença é a transferência de tecnologia para o agronegócio. Países africanos, como Moçambique, buscam reduzir a dependência de alimentos importados e elevar a produtividade no campo, uma oportunidade para a experiência brasileira em agricultura tropical.

A Embrapa é uma das referências nesse movimento, com iniciativas de capacitação e adaptação de tecnologias às condições locais. Além do conhecimento técnico, a expansão passa pela exportação de máquinas agrícolas, insumos e pela atuação de produtores brasileiros em projetos no continente, levando modelos de produção desenvolvidos no Brasil.

Diretora da Embrapa conversa com empresários em Mocambique

 China pode ser grande desafio

Além de identificar oportunidades, empresas brasileiras precisam disputar espaço em mercados onde outros países já construíram relações comerciais e de investimento de longo prazo. Durante a missão da ApexBrasil, a influência chinesa esteve presente em diferentes países visitados pela reportagem, com empreendimentos ligados à hotelaria, infraestrutura, obras públicas e investimentos em setores estratégicos.

Na Etiópia, por exemplo, a sede da União Africana, em Adis Abeba, foi construída com financiamento e execução chinesa, em um dos símbolos mais visíveis da presença do país no continente. Na Zâmbia, a China se consolidou como um dos principais parceiros econômicos e credores do país, que enfrenta desafios relacionados ao elevado endividamento e à necessidade de novos investimentos em infraestrutura.

Empresários ouvidos pela EXAME durante a viagem afirmaram que é "difícil competir com os preços chineses", mas que o Brasil tem uma vantagem cultural com esses países.

Segundo Cristiano Duarte, coordenador-geral de Assuntos Macroeconômicos da Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, o principal desafio brasileiro é ampliar sua competitividade diante de países que já possuem uma presença consolidada na África.

“Os grandes competidores são a China e a União Europeia. E, em menor escala, Índia e Estados Unidos, mas a gente ainda está atrás de todos eles”, diz Duarte, que também participou da missão.

Para o representante da Fazenda, a estratégia brasileira passa não apenas pela exportação de produtos, mas também por investimentos, serviços e parcerias de longo prazo.

“Não adianta eles importarem uma máquina agrícola se você não tiver uma assistência técnica. A máquina quebra aqui e não adianta nada”, afirma.

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