Barro vermelho do Alentejo esconde um segredo em Viseu

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Sejam bem-vindos ao programa "A Nossa Cultura". Meu nome é Martim Madeira. Continuamos aqui na exposição "Regenerar Estados Transitórios", no Teatro Viriato. Temos a autora desta exposição, Liliana Velho, está aqui conosco. Já nos explicou seis obras desta exposição. Vamos agora para a sétima, se não me falha a memória. E, neste caso, temos rochas, pelo menos a mim parecem-me rochas, mas eu vou apostar que é barro e não são rochas.
É barro, sim.
Está bastante realista. Pelo menos as texturas estão muito bem feitas. A minha pergunta vai agora no sentido de, para fazer esta textura destas rochas, nota-se outra vez o coração, especialmente as duas de cima, não sei se também é propositado ou se é o acaso, novamente, mas as duas de cima fazem aquela covinha de cima do coração, pelo menos a mim é o que me dá a indicar, e depois as restantes fazem aquela formação mais oval do coração, como nós desenhamos. Aquele M com aquele U ou aquele V. Mas as de cima fazem o M. E estas texturas, porque parecem-me ser umas rochas com bastantes texturas, se foi usado exatamente a mesma técnica que usou para aquele coral azul, a técnica de amassar com os dedos.
Foi, exatamente. Sim. E por acaso é o mesmo material, se bem que a outra peça está pintada de azul e esta não, mas este barro é um barro vermelho de Vendas Novas, do Alentejo, e é o meu barro preferido. É superplástico, é muito bom de trabalhar e também tem uma cor de laranja que eu gosto muito.
Portanto, é uma cor natural?
É, a cor dele é esta que estamos a ver. E agora só temos este cor-de-laranja para comparar, mas comparando com outros tons de vermelho, o de Vendas Novas é especial, é muito mais vivo. E eu escolhi este material também pela cor, porque eu queria deixar com a cor natural dele. E é uma das peças também mais abstratas que estão na exposição. Esta e a peça branca, se calhar, são as mais abstratas. Aqui realmente fiz um apontamento da curva superior do coração, sim, mas todo ele já é um coração que se desfez em partes e que já está mesmo nos limites que estavam cedidos neste painel, e a ideia desta peça é mesmo um coração que se vai desintegrar e que cada peça vai ir à sua vida, absolutamente, vai seguir o seu caminho. E é à semelhança do outro.
Dos copinhos.
Sim. Ou seja, divide-se a peça, em vez de fazer uma peça só, e depois tenta-se desenhar no espaço com as diferentes partes da escultura.
Por que esta sensação? É uma pergunta que eu já me estou aqui a perguntar há algum tempo, pelo menos na minha cabeça, ainda não a disse em voz alta, mas por que esta noção de que as peças se estão a afastar ou que o coração se está a desintegrar? Numas temos, pelo menos, um coração mais sólido, mais junto, noutras temos um desintegrar maior. Eu pergunto se isto tem também alguma coisa a ver com as emoções humanas, com o facto de existirem afastamentos, aproximações, ou se não tem. E eu estou só aqui a conjurar algo que não existe.
Também pode ter. A primeira inspiração que eu tive foi mesmo do mundo natural. Quando deixamos qualquer coisa no campo, o que é que lhe acontece? E até mesmo uma peça de cerâmica que fica abandonada. Muitas vezes crescem musgos por cima, outras vezes há uma árvore que pode irromper pelo meio da peça porque havia ali uma parte do barro mais frágil. Esse foi o tipo de transformações que eu pensei para ir fazendo as peças. A natureza vai entrar por onde, aqui? Ela vai brotar de dentro, vai preencher esta peça, ou vai ser uma coisa que vai fazê-la quase desaparecer. Portanto, pode haver essa transformação. E depois, o coração é um órgão que está cheio de simbolismos, onde cabe o amor, cabe o desamor, cabe o desejo, cabe a perda, ou seja, pode ter depois essas leituras mais simbólicas.
Depois, também dizer aqui, e pelo menos é uma das interpretações que eu faço desta obra, e é apenas um título curioso, e também pode ter sido um formato que não foi pensado, porque elas têm todas formatos bastante diferentes, mas especificamente a contar, temos a primeira, vou-lhe chamar pedrinha, a primeira pedrinha no cimo, depois temos outra pedra no lado esquerdo, embaixo, a vir fazer a forma do coração, e depois temos a terceira pedra. E eu não sei se é propositado ou não, e não sei se é uma forma propositada, mas honestamente, eu vejo um porquinho. Não sei se também consegue ver.
Não.
Mas eu consigo ver um porquinho.
Não vejo, não concordo.
Eu consigo ver, porque vejo uma boquinha e vejo uma espécie de, naqueles buraquinhos da pedra, consigo ver um olho e consigo ver ali um formato na textura da rocha que faz uma espécie de orelha. Não sei se consegue perceber, até nos podemos aproximar, mas pelo menos para mim, faz esta noção aqui da boca, aqui o olhinho, aqui a orelha, e faz-me parecer um porquinho. Não sei se foi propositado, mas é apenas uma curiosidade do que eu estava a ver.
Não, todas as formas que eu fiz algum tipo de apontamento foi sempre a remeter para a forma de coração, mas são formas muito abstratas, então é completamente compreensível que se vejam muitas coisas nestas formas. E estão cheias de texturas, de desenhos, de buracos, quer dizer, deve haver aí uma série de coisas que ainda não estamos a perceber que elas estão aqui representadas.
Eu diria que o simbolismo abstrato de eu estar a ver neste momento uma espécie de porquinho, e tendo em conta que isto é sobre a natureza e sobre o campo, acho que pelo menos é um bom sinal. E é assim que vamos acabar este episódio sobre esta peça, sobre a sétima peça desta coleção, que está aqui na exposição, que está no Teatro Viriato e é de Liliana Velho. Vamos continuar a ver as últimas duas peças que faltam nos próximos episódios.
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