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Thursday, September 24, 2026

Buchecha: 'Mesmo com a perda do Claudinho, considero que consegui perpetuar nosso legado'

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No último dia 18 de setembro, Buchecha lançou Liberta, DJ, seu primeiro álbum de inéditas em 12 anos. Aos 52 anos, sendo 35 de carreira, o cantor volta às raízes com faixas cheias de romantismo e alto-astral, feitas em parceria com funkeiros da nova geração. "Está acontecendo uma valorização do funk retrô e aproveitei para lançar músicas inéditas defendendo o funk melody, com a pegada do Claudinho & Buchecha do Velho Testamento", diz em entrevista exclusiva à Quem.

Desde que estourou ao lado de Claudinho, no começo dos anos 1990, o artista tem se reinventado para manter o sucesso e perpetuar o legado da dupla. Ele conta que, se na época do Rap do Salgueiro a grande sacada foi evoluir o que já se fazia no funk, hoje, o segredo para seguir relevante é "aprender a lidar com as novas formas de trabalho e não ter ego de ouvir a equipe".

Casado com Rosana Souza, com quem está junto desde a adolescência, ele é pai de Cee Jay, de 27 anos, e Giulie, de 21 -- o mais velho, inclusive, canta no novo álbum. Em casa, Buchecha diz que é bem diferente do que os fãs veem no palco. Tranquilo, prefere ficar em casa com a família, comendo pipoca e vendo anime.

Na conversa por videochamada, o cantor fala sobre a vida como pai, reflete sobre as mudanças que o funk passou nas últimas três décadas e também sobre o próprio legado. "Posso proporcionar uma vida boa para meus filhos, tenho um carro bacana, confortável, que pode levar nossa família para dar um passeio e quando quiser sair de férias, posso fazer isso tranquilamente. Considero isso riqueza, prosperidade".

Buchecha — Foto: Divulgação
Buchecha — Foto: Divulgação

Foram mais de 10 anos entre seu último álbum e o lançamento. Por que esperou tantos anos e por que quis lançar agora?
A gente fica com muitas dúvidas na cabeça depois de já ter um legado, de ter uma carreira com músicas consideradas hits e que estão na boca do povo. Fico muito reticente sobre o que vou lançar, qual vai ser o próximo trabalho. Nesse período, vinha lançando alguns singles, uma música aqui, outra ali -- e foi muito bacana fazer assim --, mas faltava fazer um álbum cheio. Acho que agora é o momento ideal, porque está acontecendo um movimento de valorização do funk retrô, assim como aconteceu com o pagode, a galera toda regravando músicas dos grandes ícones do samba. Aproveitei o ensejo para lançar músicas inéditas defendendo o funk melody, com a pegada do 'Claudinho & Buchecha do Velho Testamento'. Só que o grande lance é trazer as colaborações que dão todo o frescor e justificam lançar um álbum inteiro.

“O funk ainda não alcançou o lugar que pode alcançar, ainda tem um caminho”

Como enxerga que o funk mudou nos últimos 30 anos que você tem de carreira?
Primeiro, considero que o funk ainda não alcançou o lugar que pode alcançar, ainda tem um caminho. Em algum momento o gênero dá uma estagnada, não sei explicar o porquê, mas acho que depende de nós também, de fazermos projetos novos e conexões para poder ajudar esse movimento a seguir. Esse é o meu objetivo em fazer um novo álbum. O funk continua acessível na sua essência, como sempre foi, e também muito visual nas letras. O gênero segue muito democrático, é um segmento no qual as pessoas são livres. A grande mudança é, talvez, nas letras. Claro, já tinha um funk considerado putaria, o proibidão, mas o que prevalecia nos anos 1990 era o funk melody. Hoje o que tem maior apelo é aquele funk mais picante, um pouco mais proibidão mesmo. Porém, no meu álbum, esses mesmos artistas que fazem esse tipo de som modernão se adequaram de maneira muito boa sem que eu pedisse ou tolhesse o processo criativo de ninguém, foi algo que partiu deles. Isso foi uma coisa muito legal para mim, porque esse movimento denota o respeito que eles têm pelo meu acervo e pelo meu trabalho.

Buchecha — Foto: Divulgação
Buchecha — Foto: Divulgação

Você nunca foi para esse lado mais 'proibidão', né?
Enquanto artista, a gente acaba criando um lastro, um legado que as pessoas já conhecem. Mesmo que eu quisesse fazer um funk muito moderno, talvez ficasse caricato e eu não conseguiria transmitir minha mensagem da maneira como gostaria, como sempre me expus. Acho melhor chamar um convidado que saiba fazer isso de maneira muito mais genuína, contundente e orgânica.

"Não perdi apenas um colega de profissão -- isso é muito mais fácil de substituir --, perdi um irmão de alma e esse lugar é insubstituível"

Quem não viveu essa época talvez não consiga dimensionar o que foi quando vocês estouraram. 30 anos depois, como você dá conta dessa época?
Vejo que eu e o Claudinho conseguimos furar uma bolha absurda naquela época, porque o funk era muito regional. Ele ainda era considerado um segmento extremamente carioca e, pior do que isso, entendido como suburbano. A internet hoje consegue fazer com que o artista tenha uma exposição muito melhor do que a gente conseguia na época. Conseguimos furar a bolha exatamente por conta das novidades que nos permitíamos -- fomos os primeiros artistas do funk a fazer show com banda, por exemplo. Tinha o DJ, mas também tinha a banda. Sermos os pioneiros ajudou, porque chamou uma atenção diferente, inclusive dos colegas de profissão e de outros gêneros, tanto é que muitos deles já regravaram músicas nossas, Paralamas, Adriana Calcanhotto, Kid Abelha... Foi uma expertise muito bacana que a gente teve na nossa época e conseguimos atravessar essa barreira. Mesmo com a perda do Claudinho -- nosso trabalho foi interrompido por conta desse acidente, mas eu segui, passado o tempo do luto e tudo mais --, considero que consegui fazer um trabalho bacana e perpetuar nosso legado.

Quando estava fazendo o novo álbum, pensou muito no Claudinho?
É inevitável. Ele está presente no meu trabalho, na minha vida. Como costumo dizer, não perdi apenas um colega de profissão -- isso é muito mais fácil de substituir --, perdi um irmão de alma e esse lugar é insubstituível. Toda vez que canto as nossas canções, em algum momento me lembro do começo: dois meninos com 17 anos, passando por todos os sufocos e, enfim, conseguimos alcançar o que alcançamos. [Ao cantar] Fico Assim Sem Você, por ser a última música do último álbum e por ter aquele trecho famoso, “Buchecha sem Claudinho”, lembro inclusive do nosso último evento juntos. Em outros momentos também; por exemplo, agora aqui conversando com você, lembro dele. Me acostumei a dividir, ele responde uma pergunta, eu respondo outra -- e aí, às vezes, no meio da minha resposta, ele me importunava, mandava uma brincadeirinha, uma charada. Acho que quase todas as duplas eram assim, né? Você vê Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé Di Camargo e Luciano... Sempre tem um mais extrovertido e outro mais introvertido. O Claudinho fazia sempre uma piada, alguma coisa. Esses momentos assim me fazem lembrar dele. Ele está presente no álbum porque está presente no meu coração o tempo todo.

Buchecha — Foto: Divulgação
Buchecha — Foto: Divulgação

Ainda hoje existe quem associe o funk só às mazelas da periferia, inclusive ao crime organizado. Em alguma medida, desde sempre você conseguiu sair dessa generalização aos olhos do público...
É pelo que te disse: a gente correu muito risco numa época em que o funk era um segmento ainda sendo descoberto e inovamos ao trazer uma banda. Ganhamos uma projeção muito grande, inclusive na TV, e começamos a participar dos grandes festivais. Apanhamos um pouco da galera mais tradicionalista, que viu com maus olhos, mas depois a gente mostrou que estava no caminho certo.

Em 2023 saiu o Nosso Sonho, filme sobre a trajetória de vocês. O longa impactou de alguma forma na sua carreira?
Com certeza. O filme me deixou muito feliz, porque, além de fazer com que jovens que não conheciam o Claudinho & Buchecha passassem a conhecer, acho que ele revigorou o meu trabalho. Mesmo tendo algumas licenças poéticas, acredito que retratou muito bem a nossa história, com muito respeito. As pessoas saíam do cinema chorando e já consumindo nosso repertório.

"Tenho que estar aberto a aprender a lidar com as novas formas de trabalho e não tenho ego de não ouvir minha equipe"

Quais são os desafios para se manter relevante por mais de 30 anos?
Entendo que é um coletivo de ações. Você tem que ter um staff que esteja presente e você tem que criar ouvidos para eles. Nós, artistas, às vezes temos um ego e achamos, em algum momento, que sabemos tudo -- e isso é um erro. Às vezes tem que bater o pé, também. Graças a Deus, acho que tenho uma equipe muito boa, que procura me orientar e, quando preciso, puxa a orelha mesmo. Além disso, tenho que estar aberto a aprender a lidar com as novas formas de trabalho, com as mídias sociais. Preciso ter o leme desse barco, mas não tenho esse ego de não ouvir.

A gente falou bastante da sua música, do seu trabalho, mas quem é você fora dos palcos? Quem é o Buchecha pai, por exemplo?
Acho que surpreendo muita gente, porque quando estou no palco sou um cara muito panca louca, gosto de zoar, de ver as pessoas felizes. Fora do palco sou um cara tranquilo, fico em casa com a família, comendo uma pipoca, assistindo a uma série... Eu sou muito apegado a desenho de anime, porque meu filho, Cee Jay, gosta muito e eu passei a gostar por causa dele. Naruto, Dragon Ball Z... Me sinto mais um adolescente, assistindo séries e comendo pipoca dentro de casa. Acho que eu sou esse cara assim, mais tranquilo. Sou um cara muito básico, muito simples, acho que as pessoas já sabem. Quando não estou assistindo alguma coisa em casa, vou ao cinema ou saio para jantar, almoçar. Quando não estou no estúdio, compondo! Hoje em dia tem uma demanda de camp de composição e participo de muitos e tenho muitas músicas rodando aí com outros artistas.

Buchecha — Foto: Divulgação
Buchecha — Foto: Divulgação

Sua carreira começou muito por conta dos bailes funk. Hoje, sendo O Buchecha, ainda vai a algum baile sem ser se apresentando?
Olha, eu já estou com 52 anos, quando comecei, tinha 17... Acho que não tenho mais aquela disposição. (risos) Mas, sim, [vou] às vezes, não com a mesma frequência. De vez em quando, dá para dar uma escapulidinha.

"Sou um cara que não tenho necessidade de ostentação, de estar com um carrão. Nunca fui muito apegado nessas coisas. Gosto de comer bem, morar bem, vestir bem e ter os meus bem também"

Com 30 anos de carreira você conseguiu, já naquela época ou agora mais velho, ter uma tranquilidade financeira?
Eu sou um cara que não tenho essa necessidade de ostentação, de estar com um carrão. Nunca fui muito apegado nessas coisas. Gosto de comer bem, morar bem, vestir bem e ter os meus bem também. Se eu puder abençoá-los, ajudar de alguma forma... Acho que prosperidade para mim é isso: você poder comer o que gosta, poder proporcionar uma vida boa para seus filhos, todo mundo poder cursar a faculdade que quiser e eu poder proporcionar isso. Tenho um carro bacana, confortável, que pode levar eu e a nossa família para dar um passeio. Quando quiser sair de férias, posso fazer isso tranquilamente. Considero isso riqueza, prosperidade. Conheço gente que, de repente, tem a necessidade de apresentar, de ostentar, ter um Porsche, uma Ferrari e tal. Essa necessidade eu nunca tive. Então, eu considero que eu sou um cara bem-sucedido.

Buchecha — Foto: Divulgação
Buchecha — Foto: Divulgação

O que é que você acha, inclusive, dessa ostentação no funk?
Não é a minha vibe, mas não vejo como um lado negativo, nocivo, quem queira ostentar. Eu acho que cada um vive como quiser e tem gente que realmente tem essa necessidade. Para algumas pessoas que os seguem, fica até uma lição de que eles também podem alcançar. É um exemplo de que o cara que está ali nos assistindo e, de repente, está numa situação difícil, também pode chegar lá. Nós somos múltiplos. Numa sociedade, você é feito de um monte de pessoas com quem vai se identificar e é importante ter o cara da ostentação também, porque há quem se identifique.

Sua história também é a história do funk, então, para terminar, quero saber: qual o maior funk de todos os tempos?
Ah, não vou puxar sardinha para mim, porque eu acho que isso... sei lá, não me sinto bem para falar. Posso falar de uma música que talvez seja unânime (ou quase unânime): Rap da Felicidade. Por conta do grito, que acho que é o uníssono para todos nós. “Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente no lugar onde eu nasci” -- ou “na favela onde eu nasci”, mas a gente pode trocar pelo “lugar onde eu nasci”, porque aí você fala com as massas, independentemente da classe social. Acho que esse é o objetivo de por que cada um de nós estamos aqui, vivos, respirando: achar um norte para ser feliz.

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