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Friday, September 11, 2026

Setembro

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Assim que se aproxima o ano lectivo, de vez em quando, tenho a felicidade de me achar nos corredores de material escolar das grandes superfícies. Sempre adorei o aroma predominante: a plástico, aparas de lápis, borracha, papel. Nunca ajudei ninguém a aprender a ler nem a escrever, excepto eu mesma, nem levei ninguém à escola, a não ser eu mesma e, em certo sentido, nunca saí da escola.

Quando saí da universidade, onde passei quinze anos, regozijei-me com o facto de passar a estar de férias para sempre. A vida passou a ser essas férias grandes perpétuas, sem necessidade de retomar em Setembro, sem as alegrias e as ansiedades do Outono.
Mas vejo agora que mentia a mim própria, visto que uma pessoa de férias para sempre é alguém cujo ano civil persiste dominado pelo calendário escolar. Continuo a sentir que a véspera de ano novo é a noite de catorze para quinze de Setembro. E está inscrita até ao fundo de mim, por mais que a tente mascarar, a angústia efusiva do começo das aulas.
Naquele tempo, sentava-me com o meu pai a forrar livros com papel vegetal, o seu preferido, que me fazia sentir uma menina especial, o mesmo com o qual, anos depois, forraria os primeiros livros de poemas que comprei com o meu dinheiro. Anos antes, namorava na papelaria ao lado da escola primária blocos perfumados, afia-lápis ornamentados, canetas que soltavam aroma a rebuçado e a caramelo.

A escola como único lugar seguro, onde as inconveniências da vida doméstica se suspendiam, a escola enquanto salvação, conheci-a pouco depois: era a primeira a chegar, aos dez anos, vinda sozinha de autocarro, chegava logo pelas 7h20, as aulas começavam às 8h25. E encostava-me a um muro, a ver os colegas chegarem, a observá-los, a ver a escola acordar.

Uma dessas manhãs, num Inverno rigoroso dos anos 90, caiu em Queluz, onde era a escola, um granizo espesso, parecido com neve. Ainda ninguém tinha chegado, e fui até à bancada do grande (assim parecia) campo de futebol, onde fiquei a avistar a primeira neve da minha vida, emocionada por ser a primeira.
Ali ninguém me podia fazer mal. Apenas isto: a menina espantada com a neve sobre o campo de futebol, na escola rodeada de prédios feios — e ninguém por perto. E, depois, descer a bancada, e caminhar sobre o gelo de braços abertos, como se patinasse.

Dou comigo diante das crianças solitárias, que são tantas. As que precisam de uma mão. E penso na escola como esse lugar onde encontrei sempre consolo.
Mais tarde, confundir escola com consolo sair-me-ia muito caro. Era outra idade, e outro tempo, de que guardo muitas dores entretanto caídas do bolso. A dor vai, mas fica o lugar onde nos magoámos, e também isso foi preciso, entendo agora, também isso fez parte do entendimento do que era a escola.

Um dia destes, encontrei numa papelaria chique, especializada em nostalgia, os mesmos afias que ninguém me ofereceu e eu namorava na papelaria perfumada da infância: um pequeno balde de tinta é o afia, a borracha é o pincel. Comprei sete para oferecer às minhas amigas, e todas o reconhecem quando o revêem, algumas dizem, tive um igual.

Rimos da memória. Mas concentro-me naquelas que confessam: sempre quis ter e nunca tive. Na escola, sempre ter querido e nunca ter tido parecia compensado, quando eu era pequena, por muitas pequenas alegrias. Esqueci-me do nome da maioria dos professores, sobram princípios de frases, entoações, What’s the weather like now? Sunny with clouds, fiapos de olhares ou da fisionomia. Onde andarão os homens e as mulheres que salvaram a minha vida? Devo-lhes mais do que devo à minha família. Muitos terão entretanto morrido. Mas estão em mim, e noutros como eu, os desamparados.

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