Há uma boa chance de que Trump 'aceite silenciosamente' vitória de Lula e siga em frente, diz pesquisador Christopher Sabatini

- Author, Daniel Gallas
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
Published
Tempo de leitura: 9 min
A avaliação é de Christopher Sabatini, pesquisador sênior do Programa América Latina, EUA e Américas da Chatham House, um dos principais think tanks britânicos, com sede em Londres.
Com 100% das seções totalizadas, Lula teve 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, segundo os dados do TSE.
Para Sabatini, a vitória de Lula aponta um novo caminho para a esquerda — e isso passa por o que ele vê como uma mudança de estratégia eleitoral.
Lula teria mudado o foco de sua campanha: se no primeiro turno, Lula centrou sua mensagem no combate à interferência dos EUA e em pautas tradicionais da agenda trabalhadora e dos sindicatos, no segundo turno, ele passou a falar sobre preocupações reais dos trabalhadores.
Além disso, o presidente incorporou influencers e aumentou sua presença nas redes sociais.
"Em certo sentido, isso mostra que a esquerda pode ter futuro, especialmente quando enfrenta a direita e uma demanda popular por segurança para a qual a esquerda nem sempre conseguiu apresentar respostas", diz Sabatini.
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"Se os EUA aceitarem o resultado da eleição, ele terá de recuar", afirma.
Para o analista, Trump pode aceitar o resultado da eleição brasileira para não parecer um "mau perdedor" — especialmente em um momento em que ele precisa demonstrar força junto ao eleitorado americano, às vésperas das eleições de meio de mandato.
"Há uma boa possibilidade de que Trump aceite silenciosamente o resultado e siga em frente", afirma.
Uma resistência maior em reconhecer o resultado poderia partir do secretário de Estado, Marco Rubio, que lidera os esforços de combater a esquerda na América Latina dentro do governo Trump.
Confira abaixo trechos da entrevista com o pesquisador.
BBC News Brasil - Muitas pessoas diziam antes da eleição que uma vitória de Flávio Bolsonaro seria um golpe enorme para a esquerda na América Latina e reforçaria a ideia de uma região alinhada ao movimento MAGA. A vitória de Lula muda esse cenário?
Christopher Sabatini - Acho que a vitória de Lula é uma surpresa, não apenas porque rompe com o padrão histórico (no Brasil) de alguém que perdeu o primeiro turno conseguir vencer a eleição.
O que também é interessante é que ele mudou de estratégia. Foi uma campanha dramaticamente diferente e que, na minha opinião, aponta um caminho para a esquerda.
Houve um forte uso das redes sociais, de influenciadores e de novas propostas. Ele não se apoiou apenas no que havia feito antes com o Bolsa Família ou na expansão do programa. Também não enfatizou tanto as pautas tradicionais dos trabalhadores e dos sindicatos.
Em certo sentido, isso mostra que a esquerda pode ter futuro, especialmente quando enfrenta a direita e uma demanda popular por segurança para a qual a esquerda nem sempre conseguiu apresentar respostas.
Dito isso, é preciso reconhecer que o Partido Liberal teve um desempenho muito bom nas eleições para o Congresso, governos estaduais e assembleias legislativas.
O espaço da esquerda diminuiu. Também vimos outros partidos de esquerda, especialmente em legislativos estaduais, tendo bom desempenho.
Quando a esquerda consegue se unir, ela pode ter bons resultados e algumas dessas pautas continuam tendo apelo.
Mas é preciso reconhecer que o PL teve uma performance muito forte. Em 2018, muitos pensavam que o fenômeno Jair Bolsonaro seria algo passageiro, ligado a um candidato outsider. Mas ele entrou no Partido Liberal e o transformou em uma força eleitoral.
E o PT, embora não tenha necessariamente encolhido em relação ao passado, é hoje um partido mais fraco quando comparado ao PL.
BBC - O senhor mencionou que uma das lições para a esquerda pode ser essa mudança de estratégia. Quais táticas você acha que ajudaram Lula a vencer?
Sabatini - Em primeiro lugar, ele deixou de usar tanto o discurso tradicional da esquerda sobre interferência dos Estados Unidos e soberania nacional.
Em vez disso, tentou se adaptar às preocupações reais dos eleitores.
Isso foi fundamental. Questões como perdão de dívidas ganharam importância, especialmente considerando o nível de endividamento das famílias brasileiras. Houve também o reconhecimento de que a classe trabalhadora mudou. O Brasil deixou de ter uma classe trabalhadora mais formalizada e passou a ter uma força de trabalho muito mais ligada à economia de aplicativos e aos trabalhos temporários.
Além disso, as táticas de redes sociais e o uso de influenciadores lembram muito o que vimos em outros países, como a Colômbia e Abelardo de la Espriella [político de direita que ganhou a eleição no país este ano].
Em muitos aspectos, Lula adotou algumas das estratégias mais modernas da direita e as usou a seu favor. Vimos pessoas mobilizadas, vimos jovens voltando a votar na última semana da campanha. Houve um nível de entusiasmo que não se via na esquerda há muito tempo.
Isso teve relação com uma nova forma de comunicação e de mensagem política.
BBC - Esse modelo pode inspirar partidos de esquerda em outros países?
Sabatini - Depende da esquerda de que estamos falando. O PT é um partido social-democrata, programático. Já o peronismo [na Argentina] é algo diferente. Os peronistas não são simplesmente uma esquerda tradicional; são os peronistas. Na Bolívia, a situação também é diferente.
Então depende muito do partido. Mas, mesmo que não sejam necessariamente partidos de esquerda que adotem essas estratégias, o que isso mostra é um caminho para governos e partidos de esquerda entenderem as novas condições eleitorais e abandonarem os dogmas dos anos 1980 e 1990.

Crédito, Reuters
BBC - Como essa eleição afeta a visão de Donald Trump para a América Latina? Isso representa um revés para o projeto de uma América Latina alinhada ao MAGA?
Sabatini - Essa é uma questão sobre a qual tenho pensado bastante.
A última informação que eu tenho é que a Casa Branca ainda não reconheceu o resultado da eleição. Muitos países correram para reconhecer o resultado, e acredito que isso também foi uma forma de enviar um sinal à Casa Branca.
Um sinal de que já basta de interferência eleitoral.
Acho isso importante porque, quando [o ministro do STF] Alexandre de Moraes foi sancionado [com a lei Magnitsky pelos EUA], poucas pessoas reagiram. Agora começamos a ver uma reação, ainda que sutil, de diplomatas e governos em relação a Donald Trump.
Mas o que essa vitória significa para a Casa Branca? Acho que depende de duas coisas.
Primeiro, Trump gosta de Lula. Ele já disse isso. Trump admira políticos vencedores. É o caso de Zohran Mamdani. Trump tem um "caso de amor" com ele, apesar de estarem em polos opostos do espectro político.
Se Trump agir com base em suas próprias convicções pessoais, pode até encarar a vitória de Lula de forma positiva, como alguém que conseguiu vencer. Além disso, não acho que seja do interesse de Trump agir como um mau perdedor nesse caso, especialmente perto das eleições de meio de mandato nos EUA.
Isso poderia passar a impressão de que ele apostou em um candidato que perdeu e, portanto, ele próprio perdeu.
Há uma boa possibilidade de que Trump aceite silenciosamente o resultado e siga em frente.
Mas parte da resistência poderá vir mais de figuras como Marco Rubio [o secretário de Estado dos EUA]. Para muitos cubano-americanos da direita mais dura, sempre houve o sonho de formar um bloco de países latino-americanos alinhados contra o governo cubano.
Isso não vai acontecer agora. Lula não fará concessões a Rubio nem passará a criticar Díaz-Canel [presidente de Cuba] ou Raúl Castro.
Rubio desconfia profundamente do PT. Ele vê o partido como composto por comunistas disfarçados. Então a questão será como Rubio interpretará esse resultado dentro de seu projeto mais amplo de combater o socialismo no hemisfério.
BBC - As credenciais democráticas do Brasil saem enfraquecidas por causa das controvérsias que marcaram essa eleição — como o caso do Banco Master e as acusações de interferência de empresas de tecnologia, do TSE e do STF e do governo americano?
Sabatini - Tenho duas observações. A primeira é que tantas pessoas não teriam ido votar, e cerca de 10 milhões de eleitores a mais não teriam participado da eleição, se não confiassem no sistema eleitoral. É claro que muitos deles são apoiadores do PT. Ainda precisaremos ver como os eleitores bolsonaristas reagem. Já ouvimos alguns dizendo que a eleição foi roubada mais uma vez.
A segunda questão é que a principal controvérsia agora não envolve tanto o sistema eleitoral. A Justiça Eleitoral sempre foi bastante consistente. O Supremo Tribunal Federal, por outro lado, está envolvido em diversas controvérsias. Foi um ministro do STF próximo de Lula [Cristiano Zanin] que prorrogou a votação. Não vou entrar no mérito do processo, mas acho que isso coloca o Supremo sob ainda mais pressão.
O sistema eleitoral em si é transparente, técnico e auditável. Se Flávio continuar pedindo a anulação da eleição, será possível apresentar provas e auditorias. O que está aumentando é o questionamento sobre o Supremo, e não necessariamente sobre o sistema eleitoral.
BBC - O fato de Flávio Bolsonaro não reconhecer a vitória de Lula representa riscos para a democracia?
Sabatini - Antes de tudo, a intensidade com que ele levará essa contestação adiante vai depender da Casa Branca. Trata-se de um candidato, e de uma família, que bajula o aparato político ligado a Trump. Se os EUA aceitarem o resultado da eleição, ele terá de recuar.
Do ponto de vista doméstico, também não acho que seja uma boa estratégia para ele.
Flávio tem apenas 45 anos. Não me parece inteligente questionar esta eleição e levar isso tão longe quanto seu pai levou no passado. Já vimos tentativas de mobilização para contestar resultados eleitorais. Se ele seguir esse mesmo caminho, não será uma boa imagem para os Bolsonaro. Vai parecer que eles têm sempre a mesma mensagem: a eleição foi roubada.
Isso não é uma estratégia política de longo prazo para alguém que pretende disputar a Presidência e que perdeu por uma margem relativamente pequena.
Além disso, ele tem quatro familiares no Congresso. Se o sistema eleitoral é tão ruim, por que ele aceita os resultados que elegeram seus familiares, mas não aceita sua própria derrota? Existe uma contradição aí. A família tem interesses dentro desse mesmo sistema.
BBC - Lula terá muitos desafios agora, como restaurar confiança na economia, negociar com um Congresso hostil e achar um sucessor. Como lidar com isso?
Sabatini - Primeiro, ele precisa enfrentar o problema da dívida, tanto a privada quanto a pública. Precisa concluir a consolidação tributária e fiscal que ele já começou. Em vários momentos, ele se afastou dessas reformas por causa das dificuldades de relacionamento com o Congresso. Agora enfrentará um Congresso ainda mais combativo.
Ele tem uma agenda muito difícil pela frente, tanto em relação às reformas necessárias quanto em relação ao Congresso com o qual terá de negociar.
Ao mesmo tempo, precisa cumprir promessas que fez, incluindo o aumento dos gastos públicos e dos programas de proteção social. Do ponto de vista fiscal, isso será complicado por causa do nível da dívida soberana do país.
Ele terá de equilibrar decisões difíceis diante de um Congresso difícil, mas precisa mostrar resultados. Afinal, foi uma eleição apertada. A diferença entre os dois candidatos foi de apenas poucos pontos percentuais. Ele precisa entregar esses resultados.
Além disso, ele precisa renovar o PT. Se não houver sinais de renovação dentro do partido, isso enfraquecerá seu futuro, porque parecerá apenas mais uma vez um projeto centrado exclusivamente em Lula.
BBC - Você acha que ele conseguirá fazer tudo isso — já que muito disso não foi feito no atual mandato?
Sabatini - Acho que ele tem mais respaldo agora. Tem mais energia política por trás dele. Basta observar o que conseguiu fazer nesta campanha. Ele tem um vice-presidente competente, Geraldo Alckmin, a quem deu mais destaque na segunda fase da campanha.
Lula é pragmático. Ele veio do movimento sindical e sabe negociar. A questão é saber se ele terá paciência para fazer isso e também disposição pessoal para renovar o PT. Mas ele se apoiou fortemente em influenciadores e em parlamentares populares do partido durante a campanha.
Talvez isso seja um sinal de que pretende dar nova vida ao PT e depender mais dos quadros partidários. Ainda assim, será um processo difícil. E ele precisa apresentar resultados basicamente dentro de dois anos.
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