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Saturday, September 26, 2026

O que leva políticos de direita a afastarem-se da AD?

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Filipe Lobo D'Ávila, João Maria Jonet e Francisco Rodrigues dos Santos afastaram-se de PSD e CDS quando a direita regressou ao poder. A liderança de Montenegro não explica tudo.

A coligação PSD/CDS regressou ao poder em Portugal há pouco mais de dois anos e, durante esse período, várias figuras do seu espaço político afastaram-se publicamente não só da coligação como da etiqueta de direita. O antigo líder do CDS, Francisco Rodrigues dos Santos, disse recentemente que já “não se revê” na direita portuguesa. O ex-secretário de Estado centrista Filipe Lobo D’Ávila juntou-se ao Conselho Estratégico de José Luís Carneiro. E João Maria Jonet desfiliou-se do PSD para desafiar o partido nas autárquicas em Cascais.

O afastamento dos respetivos partidos não começou com a chegada da direita ao poder. Porém, os dois anos de governação de Montenegro serviram de confirmação a estes três políticos de que a atual direita portuguesa se desviou do rumo. Os acordos com o Chega para fazer aprovar medidas estruturais e a equiparação do partido de André Ventura ao PS são uma das principais razões. “É uma coisa que me incomoda e sei que incomoda muita gente que era do CDS e muita gente que ainda é. E sei que incomoda muita gente que é do PSD também”, diz Lobo D’Ávila ao Observador.

As críticas ao primeiro-ministro não se ficam pela sua estratégia quanto a acordos parlamentares e estendem-se à gestão que tem sido feita em casos de dúvidas éticas. O antigo vice-presidente do CDS lembra que foi secretário de Estado do ministro Miguel Macedo, que “se demitiu para proteger a autoridade do Estado” quando tutelava a Administração Interna — e não resiste em fazer a comparação com o atual responsável pela pasta. Já Jonet vê no atual Governo uma “falta de rumo” e tendência para a “partidarização do Estado” que esperaria que fossem características de esquerda. “São coisas que, quando me politizei, me habituei a criticar no PS”, diz ao Observador.

Foto cedida pela CNN Portugal. O líder do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos (E), e o líder do Chega, André Ventura, durante o debate televisivo entre candidatos às eleições legislativas na CNN Portugal, Lisboa, 12 de janeiro de 2022. As eleições realizam-se a 30 de janeiro. ARMANDA CLARO/MEDIA CAPITAL/LUSA

ARMANDA CLARO/LUSA

A moderação contra o Chega

Entre os políticos que se têm afastado da direita, colhe a ideia de que o Chega não é apenas um partido mais à direita, mas que veio “revolucionar o sistema político” português. Filipe Lobo D’Ávila defende que a “grelha de análise” política tem de ser atualizada a esse novo cenário político. “Pessoalmente — não falo de outras pessoas que possam também estar a fazer o mesmo caminho —, mais do que a definição se é de direita ou de esquerda, defendo a ideia de que, num mundo polarizado, sei que estarei do lado da moderação.”

Para o ex-vice do CDS, o lado da moderação não se define, porém, pelos partidos, mas por quem os lidera. “O mais importante é olhar para as pessoas e avaliar essas pessoas e reconhecer nelas credibilidade, idoneidade, moderação, capacidade de diálogo, sobretudo capacidade de saber ouvir, mas ouvir não para cumprir calendário, mas ouvir mesmo, mesmo quando muitas vezes as opiniões são diferentes.” Lobo D’Ávila argumenta que são esses valores que explicam a sua “aproximação” a Carneiro, cujo convite para integrar o conselho estratégico do PS considera ter sido “provocatório e inesperado“, contribuindo para uma resposta igualmente “inesperada”.

Apesar de ter alinhado no desafio de Carneiro, o antigo secretário de Estado da Administração Interna rejeita ter-se tornado socialista. “Transformou-se num perigoso socialista em quatro ou cinco anos? Não, não descobri nenhum novo em idade avançada. Acho é que é preciso esse campo de moderação e não vejo o PSD a querer ser esse campo de moderação, porque a partir do momento em que o PSD faz acordos importantes com o Chega… Aliás, o Chega, na minha perspetiva, tem uma vontade oculta que é acabar com o PSD.”

As críticas à relação da AD com o Chega também têm estado presentes nas declarações de Francisco Rodrigues dos Santos ao longo do último ano. “Aquilo que se considera direita, ao dia de hoje em Portugal, não é aquilo que acho que é o meu posicionamento. Não me revejo. Acho que o país passou por uma grande centrifugação em que o eixo gravitacional se deslocou tanto para a direita que até as pessoas que se mantiveram onde sempre estiveram, como é o meu caso, parece que estão mais à esquerda”, disse em entrevista à Antena 1.

"Comportarem-se como se o Chega fosse um partido de direita, não estabelecerem nenhum limite, porque para eles é igual a como se fosse o PS. Isso para mim é não saber onde é que se está."

João Maria Jonet

Fonte próxima do antigo líder do CDS considera que é “difícil que um democrata cristão se consiga rever num governo que passa o tempo encostado ao Chega”. Apesar disso, diz ao Observador que o afastamento entre Rodrigues dos Santos e o CDS aconteceu porque ambos os lados evoluíram posições — e em direções opostas. “Foi 50/50“, resume.

Também João Maria Jonet se afastou do PSD devido à política de Montenegro em relação ao Chega, mesmo considerando “normal” que o partido governe, por vezes, à esquerda e noutras à direita. “O que esta liderança do PSD faz é completamente diferente. Comportarem-se como se o Chega fosse um partido de direita, não estabelecerem nenhum limite, porque para eles é igual. Como se fosse o PS. Isso para mim é não saber onde é que se está.”

O vereador independente em Cascais acusa a atual liderança social-democrata de não ter ideias e na imigração, por exemplo, ter apenas uma posição “Chega light“. Isto, porque o PSD, “dependendo de como acordarem o Hugo Soares e Luís Montenegro, pode estar à esquerda da Iniciativa Liberal ou à direita do que o Chega”, acrescenta. Sendo especialista em política norte-americana, a “conivência com a extrema-direita internacional” também afastou Jonet da direita tradicional. “Hugo Soares disse que não via diferença entre a Kamala Harris e o Donald Trump. Isso para mim, enquanto pessoa que faz da vida acompanhar os Estados Unidos, é absolutamente inaceitável. É preciso não ter qualquer tipo de valores para dizer uma coisa destas.”

Jonet admite ao Observador que ainda esta semana esteve a pensar se pertence “sociologicamente à direita portuguesa”, devido à polémica sobre a bênção católica na inauguração da nova escola secundária em Cascais, e chegou à conclusão que sim. “Eu não vejo problema nenhum nisso, mas a esquerda vê imensos. Acho que há é uma pertença natural minha ao espaço da centro-direita. Agora, não existe um espaço de centro-direita moderado em que eu me sinta bem neste momento em Portugal.”

Ética, negócios e vícios de Costa

O vereador de Cascais também tem sido altamente crítico da liderança do PSD na sua gestão do plano ético. “Mantém-se atual a comparação entre a maneira de estar do primeiro-ministro e do líder parlamentar do PSD com os seus negócios e a maneira de estar que havia no tempo de José Sócrates.” Nesse sentido, Jonet revela que um dos episódios mais decisivos para se afastar do PSD ocorreu durante o caso relativo à empresa familiar de Montenegro. “Uma das coisas que me fez afastar do partido definitivamente foi ver a Manuela Ferreira Leite, uma pessoa com respeito imenso e tinha admiração desde muito novo, defender o caso Spinumviva. Para mim foi absurdo, foi a inversão total dos papéis.”

Sem fazer referência direta a casos específicos, Filipe Lobo D’Ávila afirma que tem assistido a “uma desvalorização permanente daquilo que é o comportamento que se espera de um político”. Lembra o caso de Miguel Macedo que se demitiu em novembro de 2014 depois de ser implicado na Operação Labirinto, sem ter antes sido ouvido pelas autoridades. “Demitiu-se para proteger a autoridade do Ministério da Administração Interna, num determinado momento em que podia perfeitamente não o fazer mas ele decidiu que tinha que o fazer para proteger a autoridade do Estado”, recorda, assinalando que esta semana foram feitas buscas no gabinete do diretor nacional da Polícia Judiciária, que não se pronunciou publicamente.

O antigo vice-presidente do CDS assinala que “para ambicionar um país melhor, temos de voltar a acreditar nos políticos” e, apesar de reconhecer “máculas no passado” a todos os partidos que governaram, critica a postura do atual Executivo. “O problema nunca é do Governo, do titular da pasta, é sempre de alguém de fora. As respostas vêm a conta-gotas, com esclarecimentos que são muitas vezes estapafúrdios.”

"A vantagem do CDS é que sempre conseguiu ter espaço para incluir toda a gente que vinha desde os conservadores mais conservadores até aos liberais mais liberais. Essa era uma riqueza que verdadeiramente já não existe, porque entrámos num mundo de catalogação obrigatória."

Filipe Lobo D'Ávila

Para João Maria Jonet, as críticas à maneira de estar do partido são moldadas pela experiência como vereador num município onde o PSD está no poder desde 2001. “O PSD tem as ideias à venda para quem grita mais alto e pessoas que gerem o partido ao sabor do vento sem convicções. Enquanto for para ver o que dá mais votos, eu não me identifico. Esta obsessão com ser popular, acima de ter convicções, tem a ver com o partido ser um partido completamente dominado no seu aparelho por autarcas que também não têm convicções, estão só a ver quem é que é reeleito”, acusa.

Como vereador, Jonet diz que tenta combater o “vício do partido no Orçamento da Câmara” e assinala que todos os participantes nas reuniões da concelhia do PSD/Cascais as pessoas trabalham todas na autarquia. Nesse aspeto, elogia Carlos Moedas e Pedro Duarte por estarem a fazer “um bocadinho diferente” no que toca à despartidarização do Estado local. O combate à partidarização do Estado foi uma das questões que mais criticava no PS quando se politizou, acrescenta Jonet. “A maneira como este governo entra em funções e diz que o PS está aqui a bloquear dinheiro, então vamos dar dinheiro a toda a gente. Estas borlas de pensões, borlas do IRS que o Governo está a fazer agora em resposta a uma moção de censura, eram as coisas que estava habituado a criticar na gestão do Governo de António Costa”, conclui.

"Comportarem-se como se o Chega fosse um partido de direita, não estabelecerem nenhum limite, porque para eles é igual a como se fosse o PS. Isso para mim é não saber onde é que se está."

João Maria Jonet

Amadurecimento dos conservadores

Para os dois antigos dirigentes democratas-cristãos, a evolução nalgumas posições políticas relativas a costumes também os afastou do CDS. Lobo D’Ávila reconhece ao Observador que já não tem “respostas claras” para algumas dessas questões, apesar de nunca ter pertencido aos “núcleos mais conservadores” do partido. “A vantagem do CDS é que sempre conseguiu ter espaço para incluir toda a gente que vinha desde os conservadores mais conservadores até aos liberais mais liberais. Essa era uma riqueza que verdadeiramente já não existe, porque entrámos num mundo de catalogação obrigatória”, acrescenta.

Lobo D’Ávila explica que, no seu caso, a doença de um familiar próximo pôs à prova a sua posição de oposição à eutanásia. “Há todo um conjunto de princípios e de valores que nós consideramos absolutamente estanques e imutáveis, que são testados na vida real que é muito diferente da vida que nós idealizamos”, diz, admitindo ter agora “muitas dúvidas” sobre o assunto, que antes não tinha. “Só que pessoas inteligentes também se conseguem atualizar e se conseguem olhar para esses mesmos desafios e acabam por ter análises que vão evoluindo.”

Também Francisco Rodrigues dos Santos, que durante a sua presidência do CDS (2020-2022) procurou recolocar os valores conservadores nas prioridades do partido, admitiu ter feito uma evolução semelhante. “Fui eleito presidente do CDS com 30 anos. Nós crescemos com uma câmara apontada. Somos acompanhados na nossa própria evolução, no amadurecimento pessoal. É verdade que nós conservamos à partida os mesmos valores ao longo da vida, mas não significa que cheguemos sempre às mesmas respostas, porque a realidade à nossa volta também muda”, afirmou na entrevista à Antena 1 em fevereiro.

No seu caso, o ex-presidente do CDS admitiu ter recuado na oposição ao casamento homossexual e à adoção por casais homossexuais, por acreditar que a família pode adotar “várias geometrias” e que não nos devemos agarrar a “ditaduras morais”. “Com toda a certeza, nomeadamente em temas que na altura eram fraturantes, eu tive posições muito legitimistas e perentórias que contribuíram decisivamente para a caricatura que fizeram de mim, nomeadamente ao colar-me à direita das direitas. Eu hoje já não penso dessa maneira”, concluiu Rodrigues dos Santos.

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