Médico sábio ou médico «prompt»

Prever o futuro é um exercício tão difícil e talvez tão inglório como adivinhar o número vencedor duma próxima lotaria. Mesmo admitindo que a lotaria é o paradigma da aleatoriedade e que outras previsões podem basear-se nos dados de que dispomos hoje, as variáveis mudam a uma velocidade tão estonteante e com tamanha dispersão que a capacidade de previsão, se existe, parece reservada a um punhado de quiromantes, de astrólogos ou de iluminados. Muito se tem dito e escrito acerca do que serão a medicina e o médico do futuro, mas pouco se poderá adiantar, penso, para além dos desafios do presente e do que se julga que acontecerá amanhã.
Em artigo recente (European Heart Journal, 2026; 47: 3030–3033), um dos mais prestigiados cientistas cardiovasculares da Europa, o suíço Thomas Lüscher, discorria sobre os desenvolvimentos previsíveis dos sistemas de inteligência artificial e de machine learning. Concluía que a cardiologia não desaparecerá, mas sofrerá uma transformação radical para se adaptar às mudanças trazidas pela tecnologia digital. O cardiologista do futuro, aliás, o médico do futuro, pouco terá que ver com o modelo que inspirou gerações e que ainda hoje (por quanto tempo?) habita a imagem que dele têm as pessoas comuns.
Decantado por séculos de história e de testemunhos transmitidos, esse modelo exige do médico sapiência e actualização científica, competência técnica, capacidade de escutar, observar e discernir, compaixão e presença mesmo quando falham as soluções, humanidade, integridade e humildade intelectual. São-lhe exigidos elevados padrões éticos e clínicos e, diferentemente do que acontece noutras actividades humanas, está permanentemente sujeito ao escrutínio dos doentes, dos pares e da própria comunidade. Ser médico não é ter uma profissão como as outras; implica uma devoção e uma doação permanentes. Este modelo, eternizado em obras como The Doctor, de Sir Luke Fildes, ou Ciencia y caridad, de Pablo Picasso, confronta-se hoje com desafios sobre os quais vale a pena reflectir.
O médico era antes detentor de uma autoridade quase absoluta: sabia, decidia e não era questionado. O doente confiava e, mesmo inseguro, cumpria. Embora acredite que o médico era inspirado pelo sentido de responsabilidade, pela dedicação e pelo empenho em ajudar, havia nesse comportamento um indisfarçável paternalismo, desajustado do tempo actual, em que a participação esclarecida do doente é necessária e desejável. Entre ambos tem de se estabelecer uma ponte de confiança, fundada na informação sobre os resultados previsíveis, os riscos e as alternativas, em termos que o doente entenda.
Mas o próprio doente dispõe hoje, felizmente, de informação resultante de pesquisas que incluem a consulta de plataformas de inteligência artificial. É um desafio adicional para o médico, mas é compensador quando desse diálogo nasce uma relação de confiança e de certa cumplicidade. É claro que essa informação também pode ter efeitos perversos. Tenho pugnado toda a vida por melhorar a literacia médica, mas existe hoje uma nova iliteracia a que chamo, apesar do aparente paradoxo, «iliteracia informada»: a consulta do Google ou da IA faz crer ao doente que é possuidor de conhecimento. O diálogo não deve transformar-se numa disputa em que a informação recolhida pelo doente se confunde com o conhecimento e a experiência clínica do médico. Informação não filtrada não é sabedoria.
O respeito pela autonomia do doente na decisão sobre o que fazer não pode afastar o médico do dever de dar uma opinião fundamentada e convicta, visando o melhor interesse de quem o procura. Na minha experiência já longa, é isso que o doente espera na maioria dos casos, e essa é uma responsabilidade inerente a ser médico.
A profusão de informação que chega ao doente chega também ao médico, e nem sempre das fontes mais fidedignas. É preciso atenção e formação para distinguir a informação com base científica da informação falsa, muitas vezes apresentada como credível. Não é raro ouvir pessoas formadas em Medicina dizerem tremendos disparates, sob a «autoridade» de um título profissional, de uma bata branca ou de um estetoscópio ao pescoço. Cabe também às organizações profissionais um papel de vigilância, de detecção e de denúncia dessas situações.
A relação médico-doente é hoje intermediada por organizações prestadoras de cuidados, às quais o doente frequentemente recorre em primeiro lugar. Mas, a partir do primeiro contacto com o médico, estabelece-se uma relação pessoal, mesmo quando se trabalha numa equipa multidisciplinar. Pode haver alguma «diluição» da responsabilidade, mas deverá manter-se um médico de referência que acompanhe a saúde do doente. Num sistema organizado, considera-se, em geral, que esse papel deve caber ao médico de Medicina Geral e Familiar. Mas, se a patologia dominante pertencer a uma área específica, como a cardiologia, e a relação primordial de confiança se tiver estabelecido com o respectivo especialista, por que não atribuir-lhe esse papel, desde que seja essa a vontade do doente?
A inteligência artificial permite-nos obter rapidamente uma análise, explorar hipóteses e confrontar interpretações. Vale a pena aprender a utilizá-la. Para quem tem de estudar ao longo de toda a vida, a possibilidade de aceder mais facilmente ao conhecimento merece atenção.
Na linguagem que a inteligência artificial trouxe ao uso corrente, a palavra inglesa prompt designa a pergunta ou a instrução que se dá ao sistema. A qualidade da resposta depende também da clareza da pergunta, do contexto e do detalhe fornecidos. Daqui nasce uma formulação provocadora: no passado, o melhor médico seria aquele que tinha mais respostas; no futuro, poderá ser aquele que faz as melhores perguntas. Médico sábio ou médico «prompt»?
A frase é apelativa, mas faz alguma injustiça aos bons médicos do passado, que sempre souberam perguntar. A história clínica continua a depender da pergunta adequada e da atenção à resposta, incluindo a capacidade de perceber que uma palavra usada pelo doente pode ter um sentido diferente daquele que o médico lhe atribui. Muito do diagnóstico começa aí, antes de qualquer exame.
Temos agora um interlocutor de outra natureza, a quem podemos pedir que organize informação e proponha respostas. Saber interrogá-lo terá importância. É preciso fornecer o contexto, explicitar a dúvida e reconhecer o que ficou de fora. Mas como fará uma boa pergunta quem não conhece suficientemente o assunto? E como avaliará a resposta quem ainda não aprendeu a identificar os seus erros?
Uma resposta bem escrita, aparentemente fundamentada e coerente pode convencer-nos de que é a melhor. Mas quem formula a pergunta tem de saber questionar a resposta, confrontá-la com o que conhece e validar as referências que a fundamentam. A interacção com a IA é, por isso, uma competência a exercitar já no presente, num diálogo que exige conhecimento e discernimento. Só é possível duvidar se se conhece.
A IA pode ser uma ferramenta de estudo, com especial utilidade na pesquisa e organização de referências científicas. Compete, porém, ao médico interpretar a ciência e transportá-la para a decisão clínica. A formação dos futuros médicos deve dar à interacção com a IA a atenção que ela merece.
A tecnologia pode ajudar, e já está a fazê-lo, mas não deve condicionar as decisões a ponto de quase as tomar por nós. Espero que o médico do futuro continue disponível para encontrar as melhores respostas e, sobretudo, para estar, como sempre, com o doente.
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