Pete Segeth versus Buffalo Bill: o próximo fuzilamento

Não faltaram os comentários, indignados ou favoráveis, ao anúncio feito pelo Secretário de Estado norte-americano da Defesa, de que o público virá a ter acesso ao (macabro) espetáculo de fuzilamento de um ex-comandante que, em 2009, matou 13 pessoas na Base naval de Fort Hood.
Esta execução, a ter lugar no mesmo local onde o massacre foi perpetrado, será a primeira a ocorrer nos Estados Unidos desde 1945. A extraordinária encenação e teatralidade emprestada ao assunto transportaram-me à minha meninice, e mais concretamente, ao celebérrimo Buffalo Bill, figura incontornável da história dos USA na segunda metade do século XIX: inúmeras representações se inventaram e cruzaram sobre esse valente homem, todas elas narradas em tom de louvor e exaltação das suas intrínsecas qualidades, demonstradas à exaustão nos vários campos de batalha por onde passara a sua exemplar competência e ardor patriótico.
Com efeito, e especialmente em resultado da sua bravura no contexto de diversas campanhas militares contra as tribos indígenas – nomeadamente Sioux, Cheyenne, Comanches e Kiowas, que defendiam as suas terras ancestrais contra esses imigrantes colonialistas originários, sobretudo, do continente europeu e da imperial Inglaterra – BB veio a ser distinguido, em 1872, com a medalha de honra que lhe foi atribuída pelo Congresso.
Isto dito e embora, se me veio ao espírito, a propósito da iniciativa de Heseth, a lendária personagem, tal fica-se a dever exclusivamente ao período da sua vida que ele inaugurou após deixar as lides militares: cerca de uma década depois do recebimento da citada medalha, e dotado de um apurado sentido comercial, criou um espetáculo itinerante de tipo circense que batizou de Buffalo Bill`s Wild West, que recreava cenas de fronteira, cavalgadas, e “números” com atiradores isolados colocados estrategicamente que, ou caíam espalhafatosamente dos telhados ao serem atingidos, ou inversamente mostravam a sua perícia e precisão de tiro.
Em cada uma das representações, as plateias rejubilavam com o que viam, o que veio a contribuir não só para uma acrescida popularidade de BB, como contribuiu para uma sensível melhoria da sua situação patrimonial: importa sublinhar que estes feéricos eventos também vieram a ser experimentados do lado de cá do Oceano Atlântico, com multidões de admirativos europeus aplaudindo freneticamente aquelas exibições.
Consta igualmente que – cereja no topo do bolo! -, também a Rainha Vitória assistiu a um desses grandiosos acontecimentos lúdico-bélicos.
Pete Segeth`s one man shooting
Não me restam dúvidas, até pelo seu passado de bem sucedido “apresentador” no canal televisivo Fox News , que Pete brilharia como poucos nesse contexto particular onde afinal é tão difícil acharem-se protagonistas que saibam ser suficientemente imaginativos e razoavelmente atrevidos para cativarem um público que procura libertar-se e esquecer por momentos as agruras da vida, quando não apenas a monotonia da quotidiana rotina. E conseguirem sem dificuldade criar um clima de partilhada empatia.
Pete Segeth, que poucos dias antes, na base naval de Quantico, havia tornado públicas 6 relevantes iniciativas pensadas com vista a uma transformação radical da realidade militar do seu país – entre as quais um projeto nomeado Meridian, dedicado ao desenvolvimento de uma estrutura viabilizando a preservação da presente supremacia no domínio do Espaço, em cuja conceção estará intimamente associado o disruptor Elon Musk – , demonstrou eloquentemente o mesmo à-vontade e grandiloquência na divulgação deste outra bem diferente temática. Ele tem-se revelado um genuíno one man show.
Seria uma pena se não viesse a ser aproveitado, findas as suas atuais responsabilidades político-governamentais, tamanho talento histriónico. William Frederick Cody foi capaz de moldar o mito e a imagem romântica do cowboy no mundo inteiro; Pete Segeth nada tem de romântico, mas sobra-lhe a capacidade de representação de um personagem simultaneamente espampanante e multifacetado, e isso é do agrado das gentes que nunca falham uma ida ao Circo quando ele passa pela cidade.
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