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Monday, October 26, 2026

"O Brasil não é o quintal de ninguém"

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Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. À segunda-feira, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em relações internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo. Não sei se posso dizer bom dia ou boa noite. Não sei se já foste lá cá, depois da tua noite longa.

É assim, um bom dia, ainda mal dormido.

É, exactamente. Miguel, temos claro de falar sobre o resultado das eleições no Brasil e o impacto em termos internacionais. A vitória, a reeleição de Lula da Silva confirma que o Brasil quer mesmo distanciar-se da influência de Washington?

Acima de tudo, há duas coisas que são importantes esclarecer. Efetivamente, Lula deixa isso vincado naquilo que foi o seu discurso da vitória, em que ele diz que o Brasil não é o quintal de ninguém, acusa de que houve, efetivamente, uma interferência externa, quer em plataformas das redes sociais, quer também na divulgação de fake news e, portanto, isso automaticamente deu a indicação de que os Estados Unidos e nomeadamente o presidente Donald Trump estariam, de alguma forma, por trás disso. Mas também é verdade que Lula não se pode esquecer de uma coisa. Quando o Lula diz que o Brasil não é quintal de ninguém, de que o Brasil não pode estar dependente de ninguém, mas também, por outro lado, nós não nos esquecemos de que a importância e o peso que a China tem na economia do Brasil. Nós estamos a falar de que a China é o maior parceiro econômico. Nós estamos a falar de Lula da Silva, que efectivamente tem uma posição relativamente à guerra da Ucrânia, em que acusou a Ucrânia de ser responsável pela guerra, a NATO e os Estados Unidos, por ainda não ter existido um processo de paz e um cessar-fogo. Nós sabemos que a China, por exemplo, compra cerca de 86% daquilo que são as terras raras do Brasil. Portanto, este Brasil do presidente Lula pode, efetivamente, não querer estar mais próximo daquilo que é a linha e até, neste momento, está em contraciclo daquilo que é a América Latina. Vejamos aquilo que foram as eleições de Milei na Argentina ou também as eleições no Chile, e obviamente que está em contraciclo, mas não pode dizer que vai ficar, como dizem os brasileiros, em cima do muro. Não, efectivamente, a política brasileira e a política externa brasileira tem estado hoje muito mais próxima daquilo que é a posição dos BRICS, que está próxima daquilo que é a posição da China e da Rússia. E portanto, nesse sentido, a política externa brasileira continua para esse lado. Qual é que é o lado positivo disto? É que relativamente àquilo que nos interessa a nós na Europa, que é o acordo do Mercosul, tão importante para a economia europeia, esta garantia de que Lula foi reeleito é uma garantia de, efetivamente, que o Brasil continuará a apoiar a questão do Mercosul.

Entretanto, amanhã é Israel que vai a votos e nas últimas horas ouvimos Netanyahu dizer: "Ou eu ou um ataque nuclear iraniano". Mas Miguel, os Estados Unidos e Israel não tinham acabado com a ameaça nuclear do Irão? O que é que esperas destas eleições?

Vamos ver se Netanyahu consegue tirar um coelho da cartola, igual o Lula, que vai ser um pouco mais difícil. Mas aí leva-nos àquilo que é a construção de narrativas em que nós vamos vivendo por parte do Donald Trump. O Donald Trump já tinha nos dito em 2025 que todo o projeto nuclear iraniano estava completamente destruído e que não haveria mais perigo. Em 2026, volta-nos a dizer a partir de fevereiro, que tem que atacar o Irão por razão da segurança, não só da região, mas também do mundo, por razão do perigo nuclear. E depois há ataques efetivos que são feitos durante meses, em que se diz que efetivamente não se conseguiu derrubar o regime, mas que se conseguiu destruir por completo todo o projeto nuclear, mas nós sabemos que isso não é verdade, até porque tivemos outras informações, que também nos foram dadas, nomeadamente, através da própria China e da Rússia, que nos deram sempre a entender que, primeiro, e o Irão disse variadíssimas vezes, que o Irão não se ia afastar no seu projeto nuclear e que o Irão iria manter, efetivamente, o seu projeto nuclear na sua vertente civil. Agora, Netanyahu tenta fazer uma coisa. Netanyahu tenta fazer à 25ª hora aquilo que Netanyahu é perito, que é transformar a eleição numa questão de medo. Ou seja, só eu é que vos posso garantir a segurança, algo que a partir do 7 de outubro ficou posto em causa e os israelitas pensaram, efetivamente, que este primeiro-ministro, afinal, não conseguia garantir a segurança. Tivemos aquilo que foi a questão da Cisjordânia já na sexta-feira, com o fechar de toda a Cisjordânia e a morte daqueles dois soldados, e agora à 25ª hora aparece este perigo, que é: se eu não estiver cá, se eu efetivamente não estiver cá, não existe uma parceria efetiva com os Estados Unidos e, portanto, vocês estão debaixo da possibilidade de terem um ataque nuclear. Eu acho que é uma tentativa desesperada de criar medo no eleitor israelita e que o eleitor israelita, através desse medo, decida continuar com Netanyahu.

Entretanto, o conselheiro de Putin, Yuri Ushakov, propôs retomar as negociações entre a Rússia, Ucrânia e Estados Unidos em Abu Dhabi, logo a seguir ao dia 4 de novembro, o Dia da Unidade Popular na Rússia. Miguel, que leitura fazes de tudo isso que tens ouvido nos últimos dias? É um avanço diplomático real ou apenas mais uma manobra de jogo político pós-eleições nos Estados Unidos, que são no dia 3, as intercalares?

Em minha opinião, isto seria de levar a sério se nós soubéssemos exatamente aquilo que a Rússia quer discutir. E o que a Rússia aceita discutir. Não é tanto o que a Rússia quer discutir, mas o que a Rússia aceita discutir. Nós não ouvimos de lado nenhum, nós não ouvimos da parte do Donald Trump, que continua a dizer que não há paz por culpa de Zelensky. Zelensky diz que aceita sentar-se nesta reunião trilateral. Nós sabemos que efectivamente não será Zelensky, Putin e Trump que vão estar à esta mesa, será uma reunião mais técnica, mas uma reunião mais técnica relativamente a quê? Qual é o caderno de encargos, qual é que é o denominador comum que vai sentar à mesa estas três partes e que nos dá a ideia de que a partir dali poderá haver uma conversa séria. A mim parece-me, acima de tudo, que é mais um favor que Putin faz a Donald Trump antes das intercalares, quando estamos a uma semana, praticamente, das intercalares, e portanto dar esta ideia de que efectivamente Donald Trump conseguiu convencer agora não só Zelensky, mas também os russos de se sentarem em Abu Dhabi para falar de paz e de que isto pudesse ter duas influências. Primeiro, no preço dos combustíveis, o que eu duvido que tenha, porque efectivamente, do outro lado, temos um mercado que está extremamente receoso daquilo que é a capacidade militar da Ucrânia de atacar as refinarias. E, por outro lado, também saber que não existe por parte da Rússia uma grande vontade de negociar, porque tem tido alguns avanços no terreno. Isso é notório, não são avanços suficientes ainda para se dizer que vai conquistar, por exemplo, as cidades-fortaleza, mas tem tido alguns avanços no terreno e, neste momento, tem superioridade aérea, uma vez que a Ucrânia não mais tem os interceptores, os famosos mísseis Patriot, e portanto, os mísseis balísticos conseguem penetrar no coração da Ucrânia. E portanto, não há, em minha opinião, nada para discutir àquela mesa que nos diga e que nos dê a ideia de que agora sim, nós podemos ter um caminho para a paz. O melhor seria, e com isto termino, era seguir aquilo que o chanceler alemão disse: um congelamento imediato da linha da frente com um cessar-fogo, e esse cessar-fogo sendo controlado por uma força internacional com mandado das Nações Unidas, e a partir dali termos efectivamente a aceitação de um documento de entendimento que teria efectivamente pontos de parte a parte para serem discutidos e a questão dos territórios ficaria mais para a frente, já depois do processo de paz estar concluído.

Vamos ver então. Miguel Baumgartner, muito obrigada pela análise da guerra em Kiev. Uma boa semana, Miguel. Obrigada.

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