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Tuesday, October 13, 2026

Donald Trump volta a dar uma mãozinha à Rússia

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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Donald Trump volta a dar uma mãozinha à Rússia. Este é o som de um ataque russo a uma instalação energética ucraniana. Depois de Donald Trump ter surpreendido o mundo com um anúncio. A Rússia e a Ucrânia tinham concordado num cessar-fogo às infraestruturas de energia dos dois países, e esse cessar-fogo tinha efeitos imediatos. Pormenor: nem Kiev nem Moscovo reconheceram o acordo, mas este anúncio foi feito depois do presidente dos Estados Unidos ter anunciado um negócio com a Rússia para o fornecimento de combustível aos Estados Unidos. Hoje vou conversar sobre esta nova aproximação entre Washington e Moscovo. Para isso convidei a Sónia Sénica, professora de Relações Internacionais na Universidade Autónoma de Lisboa e investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais. Vamos olhar para este acordo, para a forma como Trump volta a ostracizar a Ucrânia, quem ganha e quem perde com tudo isto. E no fim, até vamos ouvir a perspectiva chinesa, que vai soar a bom senso no meio destas reviravoltas do Ocidente. Eu sou o Pedro Genovides e esta é a história do dia de terça-feira, 13 de outubro. Olá, Sónia, bem-vinda.

Olá, Pedro, obrigada pelo convite.

Não, é com todo o gosto que falamos e ainda por cima de um assunto destes que, sobretudo a mim, me deixa muito confuso. Nós ouvimos o presidente dos Estados Unidos falar aqui de um acordo com efeito imediato entre a Rússia e a Ucrânia para não se atacarem mutuamente nas infraestruturas energéticas. No entanto, a Ucrânia veio dizer logo que tinha sabido desse acordo pelas notícias e a Rússia também não confirmou que existisse qualquer acordo. Portanto, há qualquer coisa aqui a ser construída ou isto foi daqueles anúncios Donald Trump que não têm qualquer consequência?

Pedro, eu diria que é perceptível esta dificuldade que temos de perceber exatamente qual é a estratégia norte-americana, porque é muito particular, sobretudo na gestão deste dossiê da Ucrânia. O primeiro ponto é que me parece, desde logo, o mais preocupante e alarmante, sobretudo para Zelensky e para os ucranianos, que é este anúncio público, à revelia da articulação com Kiev, daquilo que é um acordo substantivo, eventualmente um primeiro passo tendente à paz duradoura, que é o que se pretende. Depois, a dimensão, se formos miuçar em termos de detalhes, em que é que consiste realmente este tipo de cessar-fogo em particular e se interessa ou não a qualquer um dos beligerantes e até ao próprio mediador pacificador. E aí é que está o cerne de toda a questão. Nós temos aqui, claramente e egoisticamente, um interesse norte-americano de ser defendido por Trump, não só no quadro mais amplo da normalização de relacionamento com Moscovo, e também naquilo que é um interesse na dimensão de segurança energética, que foi aliás algo que Marco Rubio, recentemente, quando esteve em Lisboa, veio dar conta, que é uma das suas linhas estruturantes na atualidade em termos de política externa norte-americana. E isto também tem consequências, diria, muito negativas e secundárias para a Ucrânia, desde logo porque esse anúncio, conforme foi referido por nós, foi feito à revelia daquilo que era o conhecimento de Zelensky, portanto, não foi auscultado. Por outro lado, o Zelensky também não está, em bom rigor, em condição de não aceitar qualquer tipo de passo que seja dado tendente à paz, portanto, fica aqui enredado numa espécie, se me permite o termo, de armadilha. E finalmente, quem é que vai capitalizar? Os russos e os norte-americanos. Por quê? Porque a Rússia vê bastante flexibilizada não só a dimensão de sanções econômicas norte-americanas, mas como também, eventualmente, não ser atacada pelas forças ucranianas nas suas refinarias e na sua produção de petróleo, da sua extração de petróleo e das suas exportações, por um lado, e vê também aqui uma articulação clara de um acordo que foi recentemente encetado e também divulgado com Washington naquilo que é o fornecimento do mercado norte-americano. E, portanto, eu diria que nós estamos, Pedro, se me permite, num ciclo novamente muito difícil para os ucranianos, quase alarmante, porque também acresce a isto estarmos em pleno início de inverno rigoroso e todos sabemos o que isso significa para a Ucrânia.

É por isso que, precisamente por causa dessa questão do inverno rigoroso, que a Ucrânia não se opôs a um acordo que Cheira muito a mais vantajoso para a Rússia e para os Estados Unidos do que para a própria Ucrânia.

Eu diria que é, no fundo, uma confluência tudo isso que refere. Não pode recusar, o inverno é rigoroso e há sempre uma intensificação dos ataques e hostilidades militares, por outro lado. E claramente, Zelensky mais uma vez está à mercê desta vontade de lideranças de homens fortes, um dos lados sendo o agressor do seu país, portanto, o presidente russo, e do outro lado, temos o presidente Trump, que tenta alcançar algo que consiga, no quadro daquilo que entende ser e percepcionar um interesse para o seu próprio país. Não nos podemos esquecer também que este anúncio vem muito próximo daquilo que é as eleições intercalares e também o amenizar, eventualmente, a dimensão do impacto econômico em termos globais da economia norte-americana, não só do conflito no Médio Oriente, mas agora desta espécie de manobra de Trump, no sentido de ter também a dimensão da oscilação dos preços dos combustíveis mais gerida, mais flexível e benéfica também para o público ucraniano e também para o público, desde logo, norte-americano e russo. Portanto, esta tríade que beneficia, aparentemente, com essa cessação das hostilidades nas infraestruturas energéticas, mas aquilo que estamos a perceber é que não é assim. Trump quer claramente emergir como uma liderança que tem prestígio, a beirar-se de um processo eleitoral interno muito crítico, com uma popularidade em declínio claro e com críticas, sobretudo diante do seu círculo mais próximo, diante do Partido Republicano, até mesmo do próprio MAGA, se quisermos. Por outro lado, em termos externos, não está a conseguir alcançar algumas das grandes linhas da sua ação que se propôs fazer. Pacificador, acabar com os conflitos e, por outro lado, também alcançar aquilo que é, mais uma vez, a dimensão de segurança nacional, seja na dimensão securitária alargada ou energética. E isto, obviamente, do meu ponto de vista, fez toldar e se calhar condicionar também o presidente Trump para aquilo que é, mais uma vez, utilizar a Ucrânia para alcançar algo que seja proveitoso para os Estados Unidos.

Portanto, há aqui ambições, objetivos diplomáticos, econômicos e políticos do lado de Donald Trump, com essas várias dimensões que falou. E ao mesmo tempo, há aqui um concretizar daquilo que nós temos vindo a observar, sobretudo desde o início desta presidência, que é apontar a Ucrânia como um obstáculo, como um inimigo, como um adversário. E esta concretização, apesar de ser feita através de um acordo entre duas partes, portanto, uma coisa aparentemente pacífica e bonita, na verdade, é outra forma de fazer pressão sobre a Ucrânia.

E aquilo que me parece, Pedro, corroborando tudo aquilo que refere, que é uma ótima súmula do momento em que nos encontramos e para a Ucrânia, sobretudo para Zelensky, eu creio que esta armadilha não é só externa, ou seja, não há aqui apenas uma dimensão externa de impor a Kiev aquilo que são as pretensões, não só russas, porque facilita muito a vida do presidente Putin. Como sabemos, o seu calcanhar de Aquiles é claramente a economia e está com danos objetivos também no esforço de guerra e na dimensão doméstica.

E a Ucrânia explorou isso bem, precisamente esses ataques às refinarias.

Exatamente. Mas eu diria que há aqui uma outra parte desta equação toda, que muitas vezes também nos escapa em termos de análise mais profunda, que é esta dimensão de diplomacia secreta que está a ser encetada por potenciais futuros candidatos à presidência da Ucrânia. E talvez assim consigamos entender que além de ter anunciado publicamente, à revelia de Zelensky, este acordo ou este cessar-fogo energético, Trump também tenha referido uma outra frase que eu creio que é bastante assertiva. É quase uma ingerência, se quisermos, externa na dimensão doméstica ucraniana. Quer dizer que eventualmente seria bom a Ucrânia ter outro tipo de liderança política, outro presidente. E nós sabemos que há movimentações de vários que tentam, de alguma forma, não estando de acordo com as opções e decisões de Zelensky, tentam de alguma forma apresentar-se como futuras soluções políticas naquilo que é uma candidatura até à presidência da Ucrânia. Eu falo, por exemplo, do anterior ministro da Defesa, que é muito querido na opinião pública ucraniana, tem de fato ambições políticas claras e também supostamente já encetou contactos internacionais, nomeadamente com os norte-americanos. E isto é algo que também, se quisermos, acaba por minar aquilo que é a capacidade mais autónoma de gestão política da parte de Zelensky, que também tem de contar com essas possíveis alterações substantivas no apoio aos candidatos, que não, por exemplo, uma recondução ou uma recandidatura sua nas próximas eventuais eleições, caso e se ocorra.

Tanto que Zelensky veio logo responder a essa provocação de Donald Trump. Agora, é curioso que tudo parece estar a ser feito, quase articulado entre os Estados Unidos e a Rússia, num anúncio que acaba por ser vantajoso para os dois, mas ao mesmo tempo, nós tivemos uma coisa extraordinária, que foi a própria Rússia logo a primeira a violar um suposto acordo quando ataca novamente uma central termoelétrica ucraniana.

Isso mostra claramente que não só não está realmente comprometida em cumprir com algum tipo de acordo, o que já não é algo que nos surpreenda, como também não surpreende Zelensky e os ucranianos. Mais do que isso, condicionou aquilo que é, eventualmente, a baliza temporal deste cessar-fogo energético, dizendo que só permitiria que ocorresse durante um dia, caso e se o processo eleitoral realmente fosse realizado nesse momento. Eu diria que, não causando estranheza para nós e para a Ucrânia, há aqui, de facto, uma forma também de condicionar a cadência dos eventos por parte de Moscovo, que, em bom rigor, considera Zelensky como o seu principal obstáculo às suas pretensões, porque as suas exigências não alteraram, ou seja, as linhas vermelhas russas continuam imutáveis. É com esta moldura difícil, por um lado, de ter um beligerante tão exigente e, por outro lado, ter uma espécie de mediador que não é totalmente imparcial, que eu diria que era importante talvez atentar a uma outra possibilidade de atuação e de participação mais construtiva, como se diz na dinâmica político-diplomática, com o papel, por exemplo, de uma China. Eu sei que a China, de alguma forma, e Xi Jinping, têm-se mostrado muito mais a monitorizar, a tirar as lições aprendidas, eventualmente também até a gostar deste desgaste, muitas vezes dos outros, porque eventualmente, num futuro próximo, com ambições com Taiwan, pode estar bem mais confortável. Mas ainda assim, e só vou permitir-me partilhar com o Pedro esta reflexão que recentemente, numa conferência internacional, foi dito e verbalizado publicamente por um académico chinês: por que a China nunca quer intervir de forma mais direta nos conflitos e apela muito mais ao sistema onusiano e ao respeito do direito internacional, ao conflito e à diplomacia? Porque, ao contrário dos Estados Unidos, e estou a citar esse académico chinês, próximo, portanto, à liderança chinesa, a China não quer ser o número um em tudo. E isto faz toda a diferença. Isto diz muito da visão chinesa, do que os Estados Unidos com Trump pretendem. No fundo, pretendem ser o número um em tudo. Pretendem ser o número um na Europa, no Médio Oriente, na América Latina, no Ártico, no fundo e em bom rigor, querem controlar, querem não perder o seu status quo, de grande poder em termos internacionais. Só que muitas vezes falha aquela leitura mais estratégica de que não só o mundo na atualidade já não é unipolar, de liderança norte-americana, por um lado, como também por outro, já existem interesses do outro lado que nos escapam, que estão à revelia das nossas capacidades também de decisão e de atuação. Veja-se o caso, por exemplo, do regime de Teerão, que ainda não pereceu. Estamos a falar de uma luta assimétrica. E eu creio que é nessa medida que Zelensky continua a tentar manter aqui uma certa esperança, acalentando a possibilidade de que, de alguma forma, mesmo sendo alvo de uma atuação tão forte, robusta, assimétrica e militarizada russa, continua a conseguir dar aqui da parte dele esperança para, mesmo sendo pressionado também pelos Estados Unidos, encontrar uma possibilidade de solução futura no quadro do que seria, idealmente, uma paz justa.

Uma lição chinesa a terminar esta conversa, uma lição inesperada, mas muito curiosa e dava-nos aqui para todo um outro episódio, Sónia, essa visão e sobretudo a história que os Estados Unidos mostraram quando tudo que mete intervenções externas não tem corrido bem, mesmo quando o mundo era um pouquinho diferente do que é hoje. Sónia, agradeço-lhe imenso. Foi um gosto.

Obrigada eu. Foi um gosto. Obrigada.

Eu conversei com a professora e investigadora de Relações Internacionais, Sónia Sénica, que é também comentadora regular na CNN Portugal, sobre este anúncio feito por Donald Trump de que a Rússia e a Ucrânia vão parar de se atacar nas infraestruturas energéticas. Entretanto, do lado europeu, já houve reação, sobretudo ao anúncio de que os Estados Unidos vão voltar a comprar diesel russo. Entre a surpresa, se é que isso ainda é possível, e a preocupação, várias vozes dos 27 vieram condenar o acordo. Primeiro, porque não resolve grande coisa a nível do preço do petróleo, depois porque desgasta ainda mais a unidade do Ocidente no que diz respeito a uma guerra, lembra também Bruxelas, que foi a Rússia quem começou. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Beatriz Gardete, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.

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