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Saturday, October 24, 2026

David Foster Wallace e uma sufocante solidão

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Com a publicação de Breves Entrevistas a Homens Hediondos (numa excelente tradução de Vasco Teles de Menezes), ficamos mais perto de ter disponível em Portugal as obras completas de um dos escritores maiores da segunda metade do século XX. E talvez, mais até do que as obras canónicas de David Foster Wallace (penso sobretudo em A Piada Infinita e Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer), seja esta a melhor porta de entrada numa obra frequentemente críptica, mas acima de tudo quase sempre assombrosa e hilariante.

Pelo título, poderíamos supor que a antologia de (simplificando uma questão formal complexa mas não muito interessante) contos Breves Entrevistas a Homens Hediondos seria, lá está, uma descrição da hediondez da humanidade ou, mais especificamente, da masculinidade tóxica que, segundo alguns testemunhos póstumos, terá contaminado o próprio escritor. Ora, se em alguns momentos encontramos inegavelmente isso, não será esse, de todo, o aspecto nuclear nem do livro nem sequer das quatro secções que partilham esse mesmo nome, onde a hediondez dos homens entrevistados não constitui o aspecto central das personagens retratadas, nem resiste, em muitos casos, a uma análise mais empática.

O centro do livro está então no retrato meticulosamente perfeito, tão ternamente vulnerável, de uma solidão incomunicável. Encontramos essa solidão na descrição detalhada e fria que uma vítima hippie de um violador em série faz do seu agressor, que, sem essa chave de leitura, tomaríamos simplesmente (neste caso, não falhando por muito) por mais um retrato da hediondez dos homens. Mas encontramos o cume dessa incomunicabilidade no, em todos os sentidos da palavra, abismal “Para Sempre Lá no Alto”, que deveria ser leitura obrigatória para todos quantos queiram aprender a escrever. E sobretudo em “A Pessoa Deprimida”.

Neste último, Foster Wallace descreve em obsessivo detalhe uma mulher com uma depressão profunda e profundamente incapacitante. Ora, como Foster Wallace é incapaz de acrescentar uma pedrinha ao seu castelo sem a revirar e contemplar de todos os ângulos possíveis, acabamos a história convencidos de que esta mulher deprimida seria, de facto, insuportável (no sentido literal de que não conseguiríamos, sem uma dose colossal de santidade e paciência no lombo, tolerar ouvir os seus lamentos perpétuos, verborreicos e periféricos).

Título: “Breves Entrevistas a Homens Hediondos” | Autor: David Foster Wallace | Tradução: Vasco Teles de Menezes | Editora: Quetzal | Páginas: 409

Naturalmente, ao mostrar isso, Foster Wallace mostra-nos também de forma cabal a extensão e incurabilidade da doença da pessoa deprimida e, em certa medida, o desespero que representa um estado depressivo que tantas vezes confundimos com mera tristeza. Mas Foster Wallace vai bem mais longe. Ao representar obsessivamente as obsessões da pessoa deprimida, acrescentando parêntesis e notas que muitas vezes não parecem ter outro propósito que não o de nos alienar a nós, leitores, o incómodo que sentimos em relação à pessoa deprimida expande-se também ao narrador da história e, por fim, ao próprio escritor.

Assim, com este mecanismo tão subtil, Foster Wallace está a mostrar que a tal incomunicabilidade que ocupa o centro do livro não é, para ele próprio, um conceito abstracto, mas antes uma dor aguda e profunda, uma condição de que ele mesmo padece, sendo que a escrita, habitualmente vista como potencial remédio para esse mal, no seu caso não passará de um exacerbador do sofrimento, por ficar aquém do que deveria conseguir comunicar. Nesse sentido, parece então aplicar-se também a Foster Wallace (que acabaria por suicidar-se dez anos depois da publicação do livro) esta descrição tão perfeita do sofrimento depressivo: “Partilhar a sensação interior da depressão (…) equivalia, para ela, a sentir, por exemplo, uma necessidade desesperada, de vida ou morte, de descrever o sol no céu e só ser porém capaz de (…) apontar para as sombras no chão. Estava tão, tão cansada de apontar para as sombras”.

A este respeito, é também muito esclarecedora a secção final de “Octeto”, na qual Foster Wallace quebra a quarta parede e se dirige directamente aos leitores, pedindo desculpas pelas suas fragilidades literárias, que acentua à exaustão.

Encarando o livro deste prisma, mesmo os capítulos mais impenetráveis e aridamente eruditos deste livro (penso sobretudo em “Datum Centurio” e “Tris-tan: Eu Vendi a Sissee Nar ao Ecko”) transformam-se não num exercício falhado mas antes no reflexo desarmante de um incomunicável desespero.

Contudo, não é só um retrato perfeito da incomunicabilidade que encontramos em Breves Entrevistas a Homens Hediondos. Ler David Foster Wallace, sobretudo para quem tenha ambições literárias ou queira simplesmente compreender melhor o estranho impulso que conduz à escrita, é invariavelmente luminoso e esclarecedor. Se dúvidas ainda restarem, serão dissipadas ao lermos as duas secções de “Adult World”. Na primeira metade da história, Foster Wallace narra a vida matrimonial de uma jovem cuja enorme satisfação com a vida sexual teme não ser recíproca (e não querendo bater mais na mesma tecla, é claro que existe outra vez incomunicabilidade até fartar).

Ora, a primeira metade da história termina abruptamente no instante em que a protagonista se senta num café com o antigo namorado para o interrogar acerca de inquietações que nunca resolvera.

Pois bem, na segunda metade, David Foster Wallace abandona por completo o tom ficcional e apresenta-nos a estrutura arquitetónica que desenhou para o seguimento da história, que, parecendo evocar alguns dos temas da Poética de Aristóteles, mergulha a fundo na técnica da escrita destinada a produzir efeitos no leitor, efeitos esses que, claro, Foster Wallace teme ser incapaz de produzir.

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