'Meu irmão comprou sem saber a cápsula de césio-137 que desencadeou maior acidente radioativo do Brasil'

- Author, Becca Johns
- Role, BBC Jornalismo Global
- Author, Programa "Outlook"
- Role, Serviço Mundial da BBC
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Tempo de leitura: 8 min
"Havia uma pequena abertura em uma parte do aparelho, que emitia uma luz hipnotizante e muito chamativa..."
Em setembro de 1987, a notícia sobre a estranha cápsula com cristais azul brilhante no ferro-velho de Devair Alves Ferreira se espalhou em Goiânia (GO). Vizinhos, familiares e amigos se reuniram para observá-la com seus próprios olhos.
A cápsula foi aberta e os cristais manipulado por várias pessoas. Algumas levavam amostras para casa, para mostrá-los às suas famílias.
Ferreira havia comprado a cápsula de dois catadores de material reciclável. Eles a haviam encontrado dias antes, em uma clínica abandonada.
Seu irmão Odesson Alves Ferreira recomendava que ele a jogasse fora, pensando que seria "inútil". Mas Devair estava fascinado com os cristais e chegou a pensar em transformá-los em uma pedra preciosa, para colocar em um anel para sua esposa.
Ele diria mais tarde que havia se apaixonado pelo "brilho da morte".

Crédito, Norbert Suchanek e Associação das Vítimas do Césio 137 (Arquivo AV-Césio)
Uma semana depois, dezenas de pessoas foram acometidas de uma doença misteriosa.
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Um amigo próximo da família relacionou o momento em que surgiu a enfermidade com a chegada do estranho cilindro brilhante. Por isso, a esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, levou o cilindro para a Vigilância Sanitária.
O aparelho ficou abandonado em uma cadeira no pátio, até que o físico Walter Mendes Ferreira o examinou com um detector de radiação.
As leituras eram tão altas que se acreditou, inicialmente, que o dispositivo estivesse avariado. Mas um segundo aparelho confirmou a leitura.
Pouco tempo depois, Odesson Ferreira recebeu uma mensagem do seu irmão: "Procure ajuda. O material que você tocou na casa é radioativo."
Até então, segundo ele, 56 membros da sua família estendida haviam sido expostos ao material. Ele se lembrou do desastre de Chernobyl, na Ucrânia, ocorrido no ano anterior.
"Quando ouvimos as palavras 'material radioativo', pensei: 'Pronto, estamos todos com sérios problemas, todos nós estamos a ponto de morrer.'"

Crédito, Norbert Suchanek e Associação das Vítimas do Césio-137 (Arquivo AV-Césio)
Tragicamente, a primeira pessoa a morrer foi Leide das Neves Ferreira, sobrinha de Odesson, de apenas seis anos.
Ela havia brincado com um fragmento de césio-137 depois que seu pai o trouxe para casa em uma caixa de fósforos. Ele apagou as luzes para mostrar como o objeto brilhava no escuro.
"Sua mãe havia acabado de preparar o jantar", conta Odesson. "Leide pegou um ovo com sua mãozinha, obviamente ainda contaminada pela radiação, e o comeu."
A menina morreu no mesmo dia que sua tia, Maria Gabriela Ferreira (esposa de Devair), cerca de um mês depois da exposição ao césio-137. Dois jovens que trabalhavam no ferro-velho também morreram.
Devair Alves Ferreira viria a morrer em 1994 e Ivo Ferreira, pai de Leide, em 2003.

Crédito, Getty Images
Mais de 100 mil moradores de Goiânia potencialmente contaminados foram convocados para se submeter a testes no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira. Odesson Ferreira foi um deles.
As pessoas afetadas eram lavadas com um líquido de descontaminação, escovadas e lavadas com mangueira. Suas roupas eram destruídas e elas foram instruídas para que bebessem muito líquido, para limpar o organismo.
"Eles me disseram que, se eu gostasse de cerveja, poderia beber muito", conta Odesson. Ele seguiu o conselho e foi até um bar de propriedade de um amigo.
"Mas não me alertaram que qualquer lugar onde eu urinasse ficaria contaminado. Por isso, acabaram demolindo o banheiro do bar do meu amigo."

Crédito, Norbert Suchanek e Associação das Vítimas do Césio-137 (Arquivo AV-Césio)
'As pessoas fugiam de nós'
Mesmo tendo sido declarado livre de contaminação, Odesson Ferreira foi internado posteriormente e mantido em quarentena no terceiro andar de um hospital. Sua esposa só podia falar com ele da rua.
"Eu estava profundamente preocupado porque o rosto dela estava totalmente desfigurado e coberto de caroços", relembra ele.
Um médico identificou as estranhas protuberâncias no rosto da esposa como consequência do estresse. Mas, com o medo se espalhando, as pessoas começaram a evitá-la.
"Sempre que ela pegava o ônibus e as pessoas a reconheciam, eles desciam", conta Odesson.
Ferreira finalmente se recuperou, mas regressou para um abrigo, já que a casa da família foi parcialmente demolida devido à contaminação.
As pessoas que ele conheceu por toda a vida começaram a evitá-lo. Ele se lembra de ter pedido uma bebida em um bar de propriedade de um conhecido.
"Quando terminei, deixei o copo sobre o balcão", relembra Odesson. "Ele o recolheu com um guardanapo e o atirou no cesto de lixo. Aquilo me aborreceu muito."

Crédito, Norbert Suchanek e Associação das Vítimas do Césio-137 (Arquivo AV-Césio)
"Eu me contaminei e acabei virando uma fonte radioativa. As pessoas que passaram por mim foram irradiadas por mim, inclusive a minha família", disse ele.
"As crianças queriam sair do colégio, porque não aguentavam mais problemas com coleguinhas. Na empresa de ônibus, os colegas que até pouco antes saíam para tomar cerveja comigo correram de mim."
"Vizinhos quiseram apedrejar a nossa casa. Quando nos mudamos para a casa onde vivemos até hoje, correu um abaixo-assinado na vizinhança para tentar impedir", contou Ferreira à BBC News Brasil.

Crédito, Norbert Suchanek e Associação das Vítimas do Césio-137 (Arquivo AV-Césio)
Após o desastre, o governo lançou uma campanha com o slogan "Eu amo Goiânia".
Transmitida diariamente pela rádio e TV do país, ela foi uma demonstração de solidariedade nacional por uma cidade em crise.
Depois do acidente, as leis sobre o acompanhamento, vigilância e eliminação de materiais radioativos foram alteradas, no Brasil e em outros países.
Mas, para os sobreviventes, a luta prosseguiu por anos, com pedidos de indenização, problemas de saúde e o estigma permanente associado ao acidente.
Odesson Ferreira estava decidido a ajudar.
Ele deixou seu emprego como motorista de ônibus (que ele adorava) e começou a defender os direitos dos sobreviventes. Ferreira foi presidente da Associação das Vítimas do Césio-137.
"Devemos lutar pelas pessoas e garantir que isso nunca mais volte a ocorrer em nenhum lugar do mundo", afirma ele. "Ninguém, em nenhum lugar, deverá precisar passar pelo que nós vivenciamos."
Hoje, quase 40 anos depois, Ferreira está na casa dos 70 anos de idade. Ele está escrevendo suas próprias memórias da catástrofe que mudou sua vida para sempre.
E também encontrou uma sensação de paz em uma pequena fazenda a 220 km de Goiânia, rodeado de animais e da natureza.
"Sou uma pessoa saudável que está em paz consigo mesma, apesar de tudo por que passei, graças a Deus", conta Ferreira.
Não é pouca coisa para um homem que, em dado momento, acreditou que estivesse a ponto de morrer.
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