Os mais privilegiados são macaquinhos de imitação das tendas

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Este é o Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador, sempre com Miguel Pinheiro. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Miguel, quem é o teu bom de hoje?
O bom é a Câmara de Lisboa, que aprovou ontem a suspensão do uso das trotinetas partilhadas na cidade. As trotinetas são uma nova forma de deslocação em percursos curtos e deveriam ter sido uma boa revolução nos transportes, mas infelizmente tornaram-se num perigo público para quem as usa e para todas as outras pessoas que circulam nas ruas. Mês após mês, ficou comprovado que a esmagadora maioria das pessoas que usam as trotinetas o fazem sem condições de segurança para si próprias, nem para as outras. Não usam capacete, não têm outras proteções, andam pelos passeios, andam nas estradas em contramão, andam com duas ou três pessoas encavalitadas, provocam insegurança nos peões, provocam acidentes com consequências graves e são abandonadas de forma anárquica em vários pontos da cidade. E há um tempo tentou-se apertar as formas de utilização irregular através do controle remoto das trotinetes, mas isso claramente não funcionou. A Iniciativa Liberal, que faz parte da coligação de Carlos Moedas, votou contra esta medida por causa da defesa de uma economia de mercado livre. Ninguém defende mais uma economia de mercado livre do que eu, mas todos os mercados livres são regulados por outras preocupações. Por exemplo, nós obrigamos os carros a terem cintos de segurança. Não há um mercado livre em que cada marca decide se tem cintos de segurança ou se não tem, em que as pessoas decidem se usam cintos de segurança ou não usam. Não é assim que as coisas se passam. Desejavelmente, um dia será possível as trotinetes partilhadas funcionarem sem estes perigos. Até lá, isto, de facto, tinha de parar.
Pois, quando não há juízo, tem que haver alguém que o imponha, nem que seja acabando com a brincadeira.
É verdade. Enfim. Talvez se arranje uma forma disto funcionar de outra maneira.
Passa pelo cinismo das pessoas.
Certo. É um tema complexo, realmente.
Sem dúvida. Exige grande estudo, depois lá veremos.
É. E nós trazemos para aqui os grandes temas.
Miguel, o teu mau também tem a ver com transportes?
Sim, o único problema do fim das trotinetes partilhadas é que deixa as pessoas mais dependentes do mau de hoje, que são os transportes públicos. O Sindicato Ferroviário da Revisão Comercial Itinerante, grande nome, os meus parabéns a quem se lembrou deste nome. Mas o sindicato anunciou uma greve no dia 30 de outubro que, avisou a empresa, irá, claro, provocar perturbações na circulação de comboios também no dia anterior e no dia seguinte, pois com certeza, então agora ia ser só um dia? Claro que não. Como é óbvio, entre os dias 28 e 30 de outubro, haverá outra greve nos transportes públicos, com o Metro de Lisboa a fechar entre as 05:00 e as 10:00. E os mais prejudicados serão novamente os mais pobres, aqueles que não têm carro, aqueles que não têm dinheiro para apanhar táxis, aqueles que precisam de trabalhar bem cedo, aqueles que não podem ficar em teletrabalho, aqueles que vivem mais longe nas periferias. E eu estou sempre a repetir isto até as coisas mudarem. Isto só acontece porque os governos mantêm estes transportes públicos nas mãos dos sindicatos. É preciso, por exemplo, acelerar a subconcessão da operação da CP na linha de Cascais a um operador privado e, já agora, avançar para outras áreas, como o metro. Agora, isto assim, realmente está ótimo para quem tem o seu carrinho e pode andar à vontade.
Isso, viva o carro privado. Qual transição climática qualquer.
Há um planeta B, Paulo.
Exato. Olha, os sindicatos do metro sabem disso, certeza, mas são os únicos, parece.
Ora, para eles deve ser Marte. Ou Urano, ou Urânio, como é que era?
É, uma coisa assim.
Uma coisa dessas.
Uma coisa assim. Miguel, o teu vilão fez uma manifestação.
Olha, sim, o vilão são as associações de estudantes do ensino superior de Lisboa, que aproveitaram a onda para convocar uma manifestação contra a proposta do governo de descongelar o valor das propinas. São os macaquinhos de imitação, como estão a ver as manifestações das tendas pela habitação, resolveram também sair à rua. Até se apropriaram de palavras de ordem, fazendo cartazes com referências à palavra egoísmo, que foi usada pelo primeiro-ministro, e às supostas 55 casas de Luís Montenegro, que já agora não existem. Não há 55 casas nenhumas. Mas os estudantes universitários fazem parte da elite mais privilegiada da sociedade portuguesa. O simples facto de tirarem uma licenciatura, mesmo que passem o tempo todo a copiar, não interessa, o simples facto de tirarem a licenciatura dá-lhes logo, em média, mais 28% de salário do que aqueles que têm só o ensino secundário e se tiverem um mestrado, a média sobe para mais 49%. E um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostrou que por cada euro que investem ou gastam, o que lhe quiserem dizer, no ensino superior, os estudantes obtêm de volta 14 € de ganhos salariais. Um euro vale 14 de volta. E são estes privilegiados que querem impedir uma atualização das propinas ao ritmo da inflação. As propinas estão congeladas, eles nem ao ritmo da inflação querem. Acham, claro, que todos os contribuintes têm de pagar isso por eles. Olha, por exemplo, quem tem de pagar são aqueles que são menos privilegiados e que no fim do mês vão ficar sem comboio e sem metro para irem trabalhar. São esses que vão pagar.
E nas propinas, ainda por cima, há uma larga porcentagem de alunos que, por questões económicas, está isenta de as pagar.
Ah, sim, nem estou a entrar por aí.
Ah, pois.
Nem estou a entrar nisso. Obviamente, os alunos que estão a frequentar universidades e que são menos privilegiados, que não têm dinheiro, têm o apoio social que permite que não paguem as propinas. Claro. Mas olha, fazes muito bem em lembrar isso, porque senão, o que vinha aí. Ó Paulo.
É bom, é tudo de borla para todos. Isso é que é bom.
Então não é? Eu, por mim, era já amanhã. Ou hoje.
Vamos ao resumo: o bom desta quinta-feira é a Câmara de Lisboa, o mau são os transportes públicos e o vilão são as associações de estudantes do ensino superior de Lisboa. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro. As manhãs 360 e sempre em podcast.
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