Conselho da FIFA: com 'mea culpa' e dinheiro, Infantino esfria oposição e abafa crise

Primeiro, pelos reiterados pedidos de desculpas, considerados suficientes por diversos dos 37 dirigentes que compõe o órgão. Segundo, pela confirmação da proposta de distribuição de US$ 25 milhões por ano para cada associação membro, como parte de programa de desenvolvimento de um US$ 6,35 bilhões, a ser aprovada no congresso da entidade em dezembro.
Terceiro, pela incapacidade dos principais opositores em apontar alguma alternativa válida para próxima eleição, em março de 2027. O único nome existente até agora é o do ex-jogador Ramon Vega, concorrente de Infantino em 2015, que se lançou sozinho e tem sido severamente ignorado pelas federações europeias mais vocais pela saída do mandatário, que buscará o seu quarto mandato.
Enquanto esperava-se que a reunião do Conselho poderia expor Gianni Infantino pelos seus polêmicos feitos recentes, o presidente da FIFA conseguiu manobrar, pedindo para que os membros elaborassem perguntas por escrito, que só serão respondidas na próxima reunião do órgão, em dezembro.
Sem concorrentes viáveis e com a disposição de compartilhar o caixa da FIFA com os países eleitores, Infantino vai aos poucos impedindo que ganhe tração o principal movimento opositor, liderado pela UEFA e algumas das suas federações. E o prazo para a inscrição de candidatos termina no dia 18 de novembro.
Opositores de primeira ordem, o presidente da CONCACAF, Victor Montagliani, e o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, já afirmaram que pretendem manter seus cargos e não concorrerão à presidência da FIFA. Outros nomes europeus seguem meramente especulados, como o ex-treinador e atual diretor Arsène Wenger e a presidente da federação norueguesa Lise Klaveness.
Para além disso, apenas ameaças judiciais e tentativas pouco úteis de demolição da imagem de Infantino. Debbie Hewitt, presidente da federação inglesa, e Bernd Neuendorf, presidente da federação alemã foram as principais vozes de insatisfação após a reunião do Conselho, reiterando não haver confiança no atual presidente e defendendo a necessidade de uma reforma na governança da entidade.
Um outro declarado opositor, o Sheikh Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da AFC, começa a dar sinais de que pode mudar de lado. Até porque já ficou claro que as Confederações dissidentes não estão conseguindo mobilizar a maioria das suas afiliadas ao movimento opositor. Após a reunião, Ahmed Yahya, dirigente mauritano (CAF) e membro do Conselho, deu declarações de que “a maioria quer que Infantino permaneça”.
Passados quase três meses desde que o projeto da Fifa Foward Enterprises foi vazado, gerando insatisfações generalizadas pela falta de transparência e de consulta aos demais membros do Conselho da FIFA, o que se nota é que a UEFA e as federações europeias não se mostraram capazes de convencer o resto do mundo de que representam uma alternativa realmente boa.
À parte da poderosa “máquina da FIFA” estar a favor de Infantino, convém lembrar que o futebol europeu vem adotando uma postura cada vez mais autocentrada e de pouco diálogo com os demais continentes na última década.
A criação da Nations League, por exemplo, limitou o calendário internacional a partidas entre europeus, basicamente impedindo que africanos, asiáticos e americanos possam realizar amistosos com seleções europeias. E, quando se propôs uma Nations League Global, sugerida pelo próprio Gianni Infantino, a ideia foi dinamitada justamente pela UEFA.
Recentemente, viu-se como a intransigência e desprezo pela ideia da Copa do Mundo de Clubes quase inviabilizou a exitosa competição, sendo que se dava basicamente para impor a concentração de recursos para os clubes europeus.
UEFA e federações europeias, aliás, se esforçam há anos para jogar a responsabilidade do inchaço do calendário do futebol global na conta da FIFA, enquanto expandem suas competições (continentais e nacionais, de seleções e clubes) com formulismo mirabolantes e transferências de jogos oficiais para outros continentes. São eventos que explicam bem a dificuldade da Europa em angariar apoio.
De todo modo, a promessa da oposição é de manter o fogo alto. Para além cobrarem a abertura dos documentos relativos ao projeto da FFE, os europeus seguirão insistindo nas polêmicas relacionadas à Copa do Mundo: da relação promíscua de Infantino com Donald Trump, especialmente a concessão unilateral do famigerado Prêmio da Paz, ao caso da anulação da suspensão de Folarin Balogun, dos Estados Unidos, na Copa do Mundo.
Esses tópicos estavam previstos para constar na reunião da quinta-feira, mas foram "encaminhados" para outros órgãos da entidade. Embora tenha durado mais de três horas, a reunião do Conselho serviu basicamente para Infantino esfriar a oposição e adiar suas explicações - outras pautas importantes ficaram de fora, como uma possível Copa do Mundo de Clubes Feminina.
Ao que consta, a estratégia da oposição agora passa pela discussão de uma reforma estatutária da FIFA, embora não existam propostas claras sobre o que isso significaria. Tampouco se acredita que uma reforma dessa ordem poderia se dar sob a gestão de Infantino, que ensaiou levar o tema para a reunião do Conselho, pauta que também inexistiu.
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