“Partido do Centro”, uma sopa de pedra... para mais azeda?

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Isaltino Morais, um dos autarcas mais conhecidos do país, voltou esta semana, em entrevista à RTP, a repetir a ideia de que acabará por surgir um novo partido, um partido do centro, na sua expressão, pois há muitos eleitores que, na sua opinião, já não se reveem nos partidos existentes, mesmo nos que se dizem de centro, como o PS e o PSD. Mas será mesmo assim? O nosso sistema político precisa mesmo de mais um partido e logo de um partido do centro? Bom dia, José Manuel. Não temos já partidos a mais na nossa Assembleia da República?
Bom dia. O nosso sistema político não foi construído para ter tantos partidos como aqueles que hoje em dia estão representados na Assembleia da República. Foi um sistema eleitoral que sendo proporcional, ao ter círculos de várias dimensões, favorecia alguma estabilidade governativa, porque não exigia que os partidos tivessem 50% dos votos para terem maiorias. Não é um sistema que favoreça, à partida, governos de coligação e é um sistema que baseou-se durante muito tempo em dois grandes partidos, que de uma forma ou outra foram alternando a liderança dos governos. Já percebemos que esse sistema mudou. Hoje em dia temos três partidos médios grandes, mas não mudou ainda a cultura política no que diz respeito à possibilidade de se formarem coligações habituais, mesmo quando há, às vezes, maiorias de apoio a governos, como aconteceu no caso da geringonça, não havia uma coligação formal. Agora, será que isso pode ser diferente se tivermos um partido algures entre o PS e o PSD? Será que faz sentido? Será que há uma panóplia de políticas públicas que só são concretizadas com um partido desse tipo? Eu sinceramente, olhando inclusivamente para aquilo que são as políticas públicas preconizadas, quer pelo PS, quer pelo PSD, não vejo tantas diferenças, tanto afastamento que exija a existência de um outro partido que venha defender, sei lá, em vez de serem três anos de caução ou dois anos de caução, serem dois anos e meio de caução e que haja aqui espaço. Estamos a falar das rendas, não é?
Sim.
Haja aqui espaço para um partido, o partido dos dois anos e meio de caução, alguma coisa desse gênero. Isaltino Morais é um autarca muito conhecido, por boas e más razões, não vamos entrar nisso. É um autarca historicamente ligado ao PSD, apoiado pelo PSD nas últimas eleições autárquicas, mas que aparentemente está zangado pelo menos com uma parte do PSD. O PSD afastou-se dele e dispensou-o quando os seus problemas apareceram aqui há umas décadas atrás. E é alguém que também, mais recentemente, teve dois protagonismos políticos, se quisermos. Por um lado, foi uma das figuras públicas que apareceram ao lado do almirante. Será que o almirante é o tal candidato do centro? E depois foi também uma das figuras que vindo da área do PSD, apareceu naquele psiu, psang promovido por Miguel Costa Matos, do Partido Socialista, antigo dirigente da Juventude Socialista. É uma figura um bocado estranha, cujo pensamento político tem áreas em que ele é muito eficaz na governação, é um pragmático.
É um fazedor, como se diz agora.
É um fazedor, como se costuma dizer, mas daí a achar que ele tem um pensamento político estruturado, vai uma distância. E, por outro lado, eu creio que nós em Portugal tendemos a desvalorizar um pouco o centrão, porque uma coisa é ter políticas que podem ter grandes consensos e que nós podemos considerar que são do centro, e até a imagem que são, que é o chamado centro radical, que é o centro reformista, e outra coisa é termos o centrão, que no fundo é aqueles que não querem que nada aconteça, que estão bem como estão. E isso vai se desvencilhando de dentro do status quo. E é difícil de perceber o que é que Isaltino Morais pretende, porque muitas das figuras que aparecem e que transmitem este tipo de percepção, a percepção que não estão representados politicamente. Há alguns movimentos aí na sociedade civil que de vez em quando fazem umas conferências, uns colóquios, uns almoços, e que têm um bocadinho esse ponto de vista, são constituídos em boa parte por pessoas que já tiveram algum protagonismo público, de facto ligados a PS ou PSD, a maior parte delas, mas que é difícil perceber o que é que podiam acrescentar de diferente e também até que ponto é que poderiam contrariar algo que é a insatisfação que muitas pessoas dão conta com um sistema político que não lhes entregou aquilo que elas esperavam que pudesse entregar. O que o sistema político entrega ou não entrega, não é apenas algo que possamos avaliar em função, por exemplo, do que é o poder de compra hoje, por comparação com o poder de compra de há 10, 15, 20 anos, ou 40 anos, ou duas gerações. Que são as expectativas que as pessoas têm relativamente às suas vidas e ao seu futuro. E isto é algo que politicamente, sobretudo na Europa, está hoje sob grande tensão. Portanto, eu sinceramente não creio que um partido do centro, com as características um bocadinho avançadas por Isaltino Morais, não fosse mais do que um partido do centrão e, portanto, mais um partido a acrescentar à confusão do que realmente uma coisa nova. Podendo ser uma coisa diferente, a única experiência que tivemos de um partido do centro foi uma experiência que tinha um lado um bocado populista e que acabou mal, que foi o partido PRD. Surgiu precisamente no momento de crise social, verdadeira grande crise social. Hoje fala-se muito de crise social, mas quem tem memória do que foram os anos de 83, 84, os anos das bandeiras negras e dos salários em atraso, meses de salários em atraso, meses em que as pessoas não recebiam o salário, talvez não saiba bem do que está a falar e ache que hoje é que estamos pior do que sempre, quando isso não é verdade. Mas independentemente disso, eu não creio que um partido do centro venha acrescentar muito. O que talvez fosse mais importante do que isso era definir que reformas é que precisamos de fazer e que maiorias sociais é que precisamos para essas reformas. E esse espírito parece estar um bocadinho ausente até do próprio Isaltino Morais e de alguns discursos que vamos ouvindo por aí. Mas falamos um bocadinho melhor disso e também do que são experiências históricas de partidos do centro de outros países, como é que elas acabaram ou não acabaram, que sucesso tiveram ou não tiveram. Agora em França temos o colapso de um partido do centro, que era o macronismo, muito em torno de uma figura, que era Emmanuel Macron. Não sei se é o melhor caminho possível.
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