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Thursday, October 8, 2026

Por que 'Se Eu Fosse Você 3' quer fazer rir sem as piadas de estereótipos de gênero

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A equipe por trás de "Se Eu Fosse Você 3" defende que a nova comédia não quer fazer humor com o que é considerado coisa de homem ou de mulher, embora piadas dessa natureza estejam no cerne da franquia. O primeiro filme saiu há duas décadas, e o segundo chegou em 2009.

Lançado agora, o terceiro capítulo recicla a premissa dos anteriores e põe um casal heterossexual para trocar de corpo. A intenção é mostrar como pessoas infelizes num relacionamento lidariam com os problemas e as angústias do parceiro se estivessem na sua pele.

"Não quisemos brincar com [homem usando] salto alto. Essa piada é antiga e já foi bem contada", afirma Anita Barbosa, a diretora do filme. "A graça agora não é ver um homem fazendo uma mulher, nem o contrário", acrescenta Cleo Pires, à frente da saga antes protagonizada por sua mãe, Gloria Pires, e pelo ator Tony Ramos.

"Se Eu Fosse Você 3" ressuscita a franquia de comédia para tentar conquistar um novo público, mais familiarizado com discussões sobre gênero, mas sem largar os fãs que gostam de rir de caricaturas de homens e mulheres.

Na história, Cláudio e Helena, os antigos protagonistas, agora veem a maldição da troca de corpos atingir a filha, Bia, papel de Cleo Pires, e o marido dela, Aquiles, interpretado pelo humorista Rafael Infante no longa-metragem.

Bia é uma chef de cozinha entristecida pelo casamento malfadado com o instrutor de esportes radicais. Ele, por sua vez, não entende as exigências da mulher. Quando trocam de corpo, os dois são forçados a entender os ofícios um do outro e também todas as angústias que eles escondem.

Embora direção e elenco digam que não, Bia e Aquiles fazem graça com estereótipos de gênero, como Cláudio e Helena faziam nos outros filmes. Eles repetem, por exemplo, uma piada com homens que erram a mira do jato de urina. Mais adiante, a troça é com as oscilações hormonais das mulheres.

"É legal que permaneça na história, em alguma camada, a diferença entre ser homem e ser mulher, com todas as variações e perguntas que enriquecem essa troca", afirma o intérprete Rafael Infante.

Noutra cena do novo filme, um rapaz debocha de Aquiles e diz que ele está "agindo como uma menininha". Com Bia no comando do corpo, o personagem rebate dizendo que mulheres têm mais garra do que os homens.

"Uma atualização foi feita sem deixar o roteiro didático, panfletário", diz Gloria Pires, de volta à franquia para uma participação curta com Tony Ramos. "Ficou leve, e o humor não se perdeu."

Tudo, porém, era mais escrachado quando eles estavam à frente dos filmes. O cartaz do primeiro "Se Eu Fosse Você" mostra Ramos usando batom para fazer a barba e Pires levando uma lâmina de barbear aos lábios. Já o pôster da sequência, lançada três anos depois, estampou Ramos com várias sacolas de compras e Pires chutando uma bola de futebol.

A comédia sempre brincou com questões de gênero. No mesmo ano de "Se Eu Fosse Você", estreou o filme americano "Ela É o Cara", em que uma moça se disfarça de rapaz para jogar futebol. Antes, em 2000, houve o longa "Vovó… Zona", sobre um agente do FBI que finge ser uma mulher idosa. O sucesso "As Branquelas", de 2004, mostra policiais negros disfarçados de mulheres brancas.

Obras como "Se Eu Fosse Você" ainda geram discussão. Há cinco anos, Roberta Gregoli, pesquisadora especialista em políticas de gênero, analisou o filme nacional e disse que a trama tanto reforça estereótipos quanto mostra como esses comportamentos são construídos pela sociedade. O estudo dela saiu numa revista da Universidade de São Paulo.

Nas redes sociais, vídeos editados por fãs reúnem cenas favoritas do público. Há uma em que Cláudio, no corpo de Helena, reclama dos trejeitos afeminados que a mulher tem no comando do corpo dele. Noutra, o homem tenta ensinar Helena a chacoalhar o pênis na hora de fazer xixi.

O primeiro "Se Eu Fosse Você" levou 3,6 milhões de pessoas aos cinemas. A continuação atraiu quase o dobro, com 5,7 milhões de espectadores. "Se Eu Fosse Você 2" é o nono filme de maior público do país, segundo a Ancine, a Agência Nacional de Cinema.

Mas Gloria Pires desconfia que os filmes não encantariam o público hoje sem uma revisão nas piadas. Um por cento da população adulta mundial agora se declara fora da binariedade de gênero —ou seja, não se considera nem homem nem mulher. O estudo foi feito pela Ipsos, uma das principais empresas de pesquisa do mundo, e publicado há cinco anos. Vinte e sete países foram considerados no levantamento.

No Brasil, há cerca de 3 milhões de adultos transexuais ou que se declaram não binários, segundo levantamento de cinco anos atrás feito pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista com o Datafolha.

"Essa discussão não existe por causa do politicamente correto. Discordo", diz o ator Tony Ramos. "Existe porque as pessoas passaram a raciocinar mais. Por isso, os roteiristas tiveram um cuidado."

Ele e Pires aparecem pouco em "Se Eu Fosse Você 3". A trama retrata seus personagens de férias, e, assim, eles ficam distantes do casal que vive a maldição de troca de corpos. Os atores afirmam que não interferiram no roteiro e, por isso, não decidiram quanto iriam aparecer na história. "Nos propuseram, achamos a ideia boa e aceitamos fazer", conta Ramos.

A intenção era dar uma virada na história e abrir novas frentes para a franquia, afirma a diretora Anita Barbosa. Ela sugere que pode voltar a pôr Cláudio e Helena no centro de um quarto filme.

"Se Eu Fosse Você 3" estreia um ano após "Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda", que também tentou ressuscitar uma comédia de troca de corpos dos anos 2000. No original "Sexta-Feira Muito Louca", de 2003, mãe e filha entram no corpo uma da outra e passam a entender os dramas que vivem —por essa razão, lá a piada não é de gênero, mas de geração.

A troca de corpos virou um recurso narrativo comum, usado no horror "Freaky" e até na animação japonesa "Your Name", uma história dramática. Permite que personagens experimentem a perspectiva e as dificuldades de outra pessoa, ainda que a partir da fantasia, ou do absurdo, como classifica Tony Ramos.

Segundo o ator, "Se Eu Fosse Você 3" é comédia para fazer pensar. "A mudança de comportamento é inexorável", ele diz. "Imagine como serão essas discussões no futuro? Ai de quem não acordar."

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