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Monday, September 14, 2026

Cuidados com logística e segurança definiram série de reportagens sobre tráfico humano no Camboja

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"Você já pensou em como vai garantir sua segurança?". Ouvi essa pergunta da liderança de uma organização que atua no auxílio a brasileiros vítimas de tráfico humano pelo mundo —ela se referia aos criminosos que atuam nessas redes internacionais.

Tratava-se da primeira ligação que eu fazia após o sinal positivo da direção do jornal para uma viagem ao Camboja a fim de entender por que o país se tornou o principal destino de vítimas brasileiras de tráfico humano em 2025.

A segurança é sempre um ponto importante em coberturas como essa. Mas, naquele primeiro contato, eu pensava, era um problema para depois. Havia apuração e planejamento inteiros pela frente. Até que o alerta começou a ecoar em diferentes conversas, fossem com vítimas, com organizações sociais, com fontes do governo ou vindo de repórteres do jornal que já haviam lidado com o tema.

Percebi, então, que não havia exagero na pergunta surgir logo de cara e que a segurança deveria pautar as minhas escolhas de forma mais incisiva em todo o percurso.

A cobertura da série "Carga Humana" começa quando o governo brasileiro publica um documento que alça o país asiático à liderança entre os destinos de brasileiros traficados, segundo registros do Protocolo Operativo de Atendimento à Vítima.

Os dados, divulgados por meio do relatório sobre tráfico humano do Ministério da Justiça e Segurança Pública, mostraram que 44 dos 84 casos estavam nesse país que pouco aparece em manchetes no Brasil. Naquele momento, decidimos que era necessário entender in loco o que estava acontecendo por lá.

Antes da viagem, nas semanas dedicadas ao que chamamos de pré-apuração, ouvi dicas de segurança que envolviam, por exemplo, não despachar malas em hipótese alguma, pois são conhecidos os casos em que criminosos envolvidos nos esquemas de tráfico humano colocam drogas nas bagagens de suas vítimas. O contexto era diferente, mas era melhor não arriscar.

A trava de segurança para as portas do hotel se tornou item essencial, já que passaria dias em cidades de fronteira com alto fluxo de vítimas de tráfico. Onde foi possível, priorizei redes internacionais de hotéis. Com uma mala de mão e uma mochila nas costas, embarquei.

Como correspondente da Folha na Ásia, viajar ao país a partir de Pequim, em si, não foi tarefa difícil. Após um voo de cerca de cinco horas, cheguei à capital, Phnom Penh.

A primeira surpresa foi ver como os complexos de golpes, conjuntos onde as vítimas ficam presas e são obrigadas a aplicar golpes eletrônicos sob ameaça de tortura, estavam em áreas movimentadas e criavam até uma microeconomia. Como em muitos casos se tratava de condomínios com inúmeras torres, todas dedicadas ao crime, comércios vizinhos atendiam às necessidades da organização criminosa –e eram os grandes afetados quando o local era esvaziado pela polícia ou por decisão dos líderes do esquema.

Falar com quem vivia ao lado foi decisivo para entender o dia a dia de um complexo. Na cidade de Poipet, por exemplo, ouvi relatos que mostraram a extensão da tortura à qual as vítimas de tráfico humano eram submetidas.

Em todo o país, vi mais prédios desativados do que em funcionamento, algo que organizações sociais como a Anistia Internacional dizem não indicar um combate eficiente ao tráfico humano e aos golpes eletrônicos, mas, sim, uma operação ilegal hoje mais capilarizada e menos evidente. Afirmações como essa me fizeram ter cuidado mesmo quando entrava em complexos que aparentavam abandono, visto que o esquema poderia estar apenas melhor escondido.

Aqueles em evidente funcionamento exigiram uma abordagem mais distante, com fotos feitas da rua, às vezes de dentro do carro. Quando se tratava de cassinos que escondiam complexos de golpes, a estratégia foi entrar como cliente.

Em toda a viagem, as decisões envolveram análises de risco, fosse para uma imagem, fosse para a abordagem de uma possível fonte.

Ao fim, a sensação é que a cobertura nunca terminou. Com o material publicado, vítimas em diferentes países entram em contato pedindo ajuda para seu retorno ao Brasil. Elas já escaparam dos complexos, mas, como mostrei no último capítulo da série, se livrar dos criminosos não garante a volta para casa.

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