Sistema político brasileiro bateu no teto, diz Marco Aurélio Nogueira
O sistema político brasileiro parece ter chegado ao limite de um processo de desgaste que se arrasta há décadas, na avaliação do cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor titular de Teoria Política da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Para ele, o atual modelo ainda pode encontrar caminhos para sobreviver, mas enfrenta um ambiente marcado pela polarização e pela falta de respostas capazes de produzir uma mudança por meio da política democrática.
“Estamos, de fato, encerrando alguma coisa, porque pior do que está eu não sei se é possível ficar. Acho que nós temos uma história de duas, três décadas de um sistema que veio aos trancos e barrancos e que agora parece estar batendo no teto”, afirmou durante participação no WW Especial, da CNN Brasil.
Nogueira ponderou, porém, que ainda não é possível saber se o sistema chegou efetivamente ao fim ou quanto fôlego ainda possui para continuar funcionando. Segundo ele, estruturas políticas podem entrar em colapso tanto por seus próprios problemas internos quanto pela pressão da sociedade.
“Eu digo que parece porque nós não sabemos qual é o fôlego que esse sistema ainda tem para seguir em frente”, disse.
Na avaliação do cientista político, uma das dificuldades está justamente na ausência de uma pressão social capaz de produzir mudanças. A indignação, por si só, não seria suficiente para alterar o funcionamento do sistema.
“O que uma sociedade, entendida, inclusive, como sistema, pode fazer para se tornar uma força positiva de pressão? Porque a nossa sociedade atual, do jeito que ela está, não funciona como uma força de pressão positiva; ela funciona como uma força de pressão de indignação, e isso não necessariamente leva a algum lugar.”
“Acionamento das turbinas intelectuais”
Diante desse cenário, Nogueira aponta duas necessidades que considera urgentes. “A primeira seria uma espécie de despertar da força intelectual do país, uma espécie de acionamento das turbinas intelectuais do país. Isso tudo existe, eu acho que está em fogo brando, e essas turbinas precisariam ser impulsionadas.”
A segunda necessidade, segundo ele, seria o surgimento de lideranças políticas com capacidade de formular projetos de longo prazo e reunir apoio social para colocá-los em prática.
“Precisariam emergir na sociedade lideranças com capacidade de estadista, ou seja, com consistência programática, ética, política e com apoio, não digo de toda a sociedade, mas pelo menos de uma parcela ativa e fundamental da sociedade”, destacou.
Para Nogueira, porém, essas duas condições ainda não estão presentes. “Nós não temos nenhuma dessas coisas”, criticou.
O cientista político relaciona o quadro à polarização política dos últimos anos. Segundo ele, o sistema atual é marcado por uma disputa que dificulta a construção de alternativas fora do arranjo existente.
“O processo atual é muito baseado nessa duplicidade de faces sistêmicas e é muito determinado também pela polarização doentia em que nós vivemos há vários anos.”
Nogueira ressalta que, apesar do desgaste, não é possível determinar quando ou como esse sistema poderá deixar de existir. Ele considera possível que o modelo encontre uma maneira de continuar funcionando, mesmo diante das dificuldades acumuladas.
“Esse sistema pode encontrar alguma brecha para seguir em frente, sem aviso prévio, sem dizer quando é que ele vai deixar de existir.”
O problema, segundo ele, é que o caminho que poderia produzir uma transformação mais saudável, a disputa democrática e política, encontra-se enfraquecido pela própria dinâmica atual.
“Aquilo que poderia derrotá-lo no terreno mais saudável, que seria o da luta democrática, da luta política, esse terreno está minado hoje. Ele não consegue ser impulsionado, não consegue sair do arranjo em que se encontra hoje, que é um arranjo ruim”, concluiu.
WW Especial
Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.
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