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Sunday, September 13, 2026

Hipótese de Gaia: e se a Terra fosse um ser vivo?

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Hipótese de Gaia: e se a Terra fosse um ser vivo? - Uma das ideias mais controversas da ciência moderna propõe que a vida ajuda a regular o planeta. Conheça seus argumentos e suas limitações.E se a Terra não fosse apenas uma rocha com vida sobre ela, mas um sistema que se comporta, em alguns aspectos, como um organismo? Parece algo vindo da mitologia, e de fato é parcialmente, mas essa pergunta tem intrigado cientistas por décadas, a ponto de a hipótese ter sido debatida em quatro conferências distintas.

Levar essa ideia a sério, mesmo que apenas como um exercício mental, obriga a olhar de outra forma para a relação entre a vida e o planeta que a abriga. Não seria a primeira vez que uma proposta difícil de aceitar leva à revisão da nossa visão da Terra. A ideia de que os continentes se deslocam lentamente sobre sua superfície, por exemplo, foi rejeitada durante décadas antes de ser incorporada à ciência moderna.

Então, vamos tentar imaginá-la. Tomemos nosso corpo como referência. Quando ele acumula calor demais, começa a suar sem que precisemos decidir isso conscientemente. Guardadas as devidas proporções, algo semelhante poderia ocorrer em escala planetária, caso surgissem, da interação entre as diferentes partes da Terra, mecanismos capazes de compensar certas mudanças.

Foi mais ou menos isso que o químico britânico James Lovelock propôs há meio século com uma das ideias mais provocativas e controversas sobre a relação entre a vida e o planeta: uma hipótese que evocava mais a mitologia do que a ciência convencional e que recebeu o nome de Gaia.

Lovelock desenvolveu essa ideia durante a década de 1970 ao lado da bióloga americana Lynn Margulis e a batizou em homenagem à deusa grega da Terra.

Segundo sua proposta, a vida e o ambiente físico estariam ligados por uma rede de influências mútuas, na qual os organismos alteram seu entorno e essas transformações repercutem posteriormente sobre eles mesmos. Dessa interação poderia surgir algo semelhante à homeostase do nosso corpo, mas em escala planetária e sem a necessidade de uma mente que a conduzisse.

Um planeta vivo: uma ideia com raízes antigas

Na realidade, a proposta recuperava uma forma de enxergar a Terra que durante séculos não pareceu tão estranha. Lovelock defendia que essa visão teve espaço até mesmo no pensamento científico e que começou a perder força principalmente a partir do século 19.

Segundo relatou a revista Popular Mechanics, James Hutton, considerado o pai da geologia, procurou paralelos entre os processos dos organismos vivos e os ciclos terrestres: relacionou a circulação sanguínea ao movimento de nutrientes e viu no percurso da água dos oceanos para a superfície e de volta ao mar um processo capaz de resfriar o planeta.

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Além dessas analogias, Lovelock encontrava razões concretas para se perguntar como a Terra havia conseguido manter por tanto tempo condições compatíveis com a vida.

De acordo com a Popular Mechanics, desde que a vida surgiu há cerca de 3,7 bilhões de anos, a produção de energia do Sol aumentou entre 25% e 30%, enquanto a temperatura da superfície terrestre permaneceu dentro de limites habitáveis.

A atmosfera também lhe parecia um indício marcante. Ela contém gases que, do ponto de vista químico, tendem a reagir entre si e que, ainda assim, continuam presentes de forma persistente. Para Lovelock, esse estado tão distante do equilíbrio indicava que processos associados à vida poderiam estar contribuindo para manter essa composição. Marte e Vênus, por outro lado, apresentam atmosferas muito mais próximas do que se esperaria após essas reações químicas seguirem seu curso naturalmente.

Daisyworld: um modelo para explicar Gaia

O problema era explicar como uma regulação desse tipo poderia surgir sem consciência nem planejamento. Para responder a essa dificuldade, Lovelock desenvolveu com Andrew Watson o modelo matemático conhecido como Daisyworld ("Mundo das Margaridas").

Nesse planeta imaginário existem apenas margaridas pretas e brancas. As pretas absorvem mais luz solar e fazem com que seu entorno aqueça. As brancas, por sua vez, refletem uma parcela maior dessa luz e ajudam a manter o ambiente mais fresco. Assim, quando as temperaturas caem, as pretas encontram melhores condições e começam a se espalhar. Quando o planeta aquece, as brancas passam a ter vantagem.

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O interessante é que nenhuma margarida sabe que está influenciando o clima nem tenta fazer algo pelo planeta. Cada tipo simplesmente prospera quando as condições lhe são favoráveis. Mas, ao mudar qual delas ocupa mais superfície, muda também a proporção de luz solar absorvida ou refletida pelo planeta. Aos poucos, essa interação pode amortecer as variações de temperatura.

Como explica a publicação online Science Alert, o Daisyworld mostra justamente que, ao menos em um modelo simplificado, um efeito de regulação em escala planetária pode surgir sem uma inteligência que o dirija.

As críticas à hipótese de Gaia

Esse detalhe era importante porque uma das principais críticas a Gaia apontava justamente para a ausência de um mecanismo evolutivo capaz de explicar tal comportamento. O biólogo Ford Doolittle foi um dos que questionaram a hipótese sob esse ponto de vista: a Terra, argumentava ele, não poderia ter desenvolvido uma capacidade de previsão por meio da seleção natural, já que esta atua sobre organismos e populações, e não sobre um planeta inteiro como se fosse um único indivíduo.

O Daisyworld respondia parcialmente a essa objeção ao eliminar a necessidade de qualquer intenção. Mesmo assim, não convenceu totalmente os críticos. Alguns consideravam que Gaia continuavadi sendo pouco mais que uma metáfora difícil de comprovar e que o modelo simplificava demais um mundo real repleto de fatores capazes de romper o equilíbrio. A revista científica Discover Magazine lembra, por exemplo, a possibilidade do surgimento de organismos "trapaceiros", que se beneficiam do sistema sem contribuir para sua estabilidade.

As objeções também não desapareceram com o passar do tempo. Em agosto de 2025, os filósofos Samir Okasha e Margarida Hermida publicaram na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B uma análise sobre a possibilidade de "darwinizar" a hipótese de Gaia.

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Sua conclusão, segundo relata a Popular Mechanics, é que aceitar que a vida tenha contribuído para manter o planeta habitável não implica que toda a biosfera tenha evoluído como um único organismo por meio da seleção natural, nem que a Terra tenha adquirido adaptações evolutivas destinadas a regular suas condições ambientais.

Gaia, as mudanças climáticas e o futuro do planeta

Mesmo sem resolver esse debate, Gaia levanta uma pergunta mais desconfortável. Se a vida transforma o planeta, será que nós, humanos, estamos modificando-o a ponto de torná-lo incompatível com nossa própria sobrevivência?

Um estudo publicado em 2022 na International Journal of Astrobiology descreve nossa fase atual como uma "tecnosfera imatura". Segundo essa abordagem, já possuímos capacidade tecnológica para alterar a Terra em escala planetária, mas ainda não desenvolvemos uma inteligência coletiva capaz de administrar plenamente as consequências. Uma possível etapa futura, a "tecnosfera madura", pressuporia aprender a fazer isso sem prejudicar o sistema do qual dependemos.

O problema é que chegar a esse estágio não está garantido. A autorregulação de alguns processos planetários não assegura que as condições continuarão adequadas para todas as espécies, e as mudanças no sistema terrestre podem ser favoráveis para algumas formas de vida e desastrosas para outras.

Talvez essa seja a advertência mais inquietante de Gaia. A hipótese não precisa atribuir consciência nem propósito ao planeta para causar desconforto. Basta admitir que nossas ações alteram um sistema muito maior do que nós e que as mudanças resultantes não precisam necessariamente nos favorecer. A vida poderia continuar sob outras condições, mas a continuidade da vida não implica necessariamente a continuidade da nossa espécie.

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